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CAPÍTULO 9 — O MERCADO NEGRO

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Capítulo 9 de 94

CAPÍTULO 9 — O MERCADO NEGRO


— Você está parecendo um cachorro molhado que levou choque.

Bruno o esperava na entrada do estacionamento. A van preta estacionada ao lado tinha os vidros fumê e placas adulteradas.

— Foi mais ou menos isso. — Fernando entrou no veículo, o corpo ainda dolorido da sobrecarga. — Consegui drenar um Orthrus. Mas quase explodi no processo.

— Orthrus? — Bruno assobiou. — Sozinho? Para um avaliador sem treinamento, não é mau.

— Precisei quase morrer.

— Bem-vindo ao mundo dos caçadores. Acontece todo dia.

Bruno deu a partida e a van avançou pelas ruas escuras da Zona Sul. Os letreiros de lojas fechadas passavam como manchas de luz nas janelas.

— O ferreiro fica no Brás — Bruno explicou. — Zona de oficinas e depósitos. A guilda não chega lá.

— Como você o conhece?

— Ele me salvou uma vez. Minha armadura original era dele. Quando meu núcleo fissurou, a Arcadium disse que meu equipamento era "incompatível com o novo rank". Me obrigaram a devolver. — Bruno apertou o volante. — Mas não devolvi. Escondi. Mandei ele modificar para se adaptar ao meu vazamento de mana. Funcionou por mais dois anos até o núcleo piorar.

— Ele é banido?

— Banido é uma palavra forte. Digamos que a guilda prefere que ele não exista. Depois do acidente com a arma experimental...

— Que acidente?

Bruno franziu o cenho. — Você não sabe? A arma que matou três caçadores S-rank há oito anos? Foi ele que construiu.

Fernando sentou-se mais ereto. — Ele construiu uma arma que matou três S-rank? E está vivo?

— Porque a culpa não foi dele. — Bruno estacionou a van em frente a uma loja de ferragens com a porta de enrolar descida. — A arma funcionava perfeitamente. O problema foi o caçador que a usou. Ele ignorou os limites de segurança e o núcleo dele colapsou, detonando a arma junto. Mas a guilda precisava de um bode expiatório. Escolheram o fabricante em vez do herói morto.

— Conveniente.

— Política. — Bruno desligou o motor. — Vamos.

Eles entraram por uma porta lateral, desceram uma escada estreita e emergiram em uma oficina que parecia saída de um filme apocalíptico. Ferramentas penduradas nas paredes. Manchas de óleo no chão. Uma bancada coberta de peças metálicas, cristais quebrados e fios expostos.

No centro da oficina, sob a luz amarela de uma luminária pendurada, um homem idoso de estatura baixa trabalhava em uma peça de metal com uma lupa na cabeça. Suas mãos eram calejadas, cobertas de cicatrizes finas — queimaduras de mana.

— Mestre Hiroshi — Bruno chamou.

O velho não levantou os olhos. — Se veio pedir desconto, pode voltar outra hora.

— Não vim pedir desconto. Vim trazer um cliente.

Hiroshi ergueu a cabeça. Seus olhos, por trás da lupa, examinaram Fernando com a mesma intensidade do homem de terno preto.

— Avaliador. — Ele cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Não trabalho com burocratas.

— Ele não é um burocrata comum, Mestre — Bruno disse baixo. — Ele é um Codificador.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Hiroshi colocou a ferramenta na bancada com cuidado. Lentamente, tirou a lupa e encarou Fernando.

— Repita o que você disse.

— Ele é um Codificador — Bruno repetiu. — Eu vi ele me curar com as mãos brilhantes. Eu vi ele editar meu status.

O velho ferreiro se aproximou. Parou a um palmo de Fernando, os olhos fixos nos dele.

— Mostre.

Fernando estendeu a mão. A interface pulsou. Ele ativou a leitura de status.

NOME: HIROSHI. M. / CLASSIFICAÇÃO: FERREIRO / RANK: NÃO-CAÇADOR] [MANA: 580/580] [TALENTOS: FORJAR MANA, SINTONIA DE CRISTAIS, CONSTRUÇÃO DE ARTEFATOS

— 580 de mana — Fernando leu em voz alta. — Para um não-caçador, isso é excepcional. Mas seu núcleo tem microfissuras de estresse repetitivo — dano ocupacional de décadas de forja.

Hiroshi recuou. Sua expressão passou de ceticismo para choque.

— Você viu isso só de olhar?

— Consigo ver mais. Se eu tocasse, poderia editar.

— Não. — Hiroshi levantou a mão. — Não toque em mim. Não ainda.

Ele caminhou até a bancada e ficou em silêncio por um longo momento. Quando falou, a voz estava mais baixa.

— O último codificador que conheci morreu há vinte anos. Foi caçado pela guilda. Eles têm medo do que vocês podem fazer.

— Eu sei. — Fernando deu um passo à frente. — Por isso vim aqui. Preciso de equipamento que me ajude a controlar o poder sem me matar. E que me permita operar sem chamar atenção.

Hiroshi virou-se. Seus olhos brilhavam com um misto de medo e fascinação.

— Você sabe o que está pedindo? Um codificador com equipamento sob medida é uma arma de destruição em massa. Se a guilda descobre que eu te ajudei...

— Eles não vão descobrir. — Fernando segurou o olhar do ferreiro. — Porque ninguém sabe que eu existo. Sou invisível. Um avaliador de logística. Ninguém olha duas vezes para mim.

Hiroshi estudou o rosto de Fernando por um longo momento. Finalmente, soltou um suspiro — cansado, resignado.

— Tenho uma coisa. Mas é experimental. Frágil. Vai quebrar se você piscar muito forte.

— O que é?

O ferreiro abriu uma gaveta trancada e tirou um estojo de couro gasto. Abriu.

Dentro, sobre espuma preta, estavam os óculos mais estranhos que Fernando já tinha visto.

Eles pareciam uma armação de grau comum, mas as lentes eram lascas poliidas de cristal escuro. Fios finos de cobre corriam pelas hastes, conectando-se a pequenos receptáculos vazios nas laterais.

— Lentes de cristal de mana Grau II — Hiroshi explicou. — As hastes têm canalização de cobre encantado para filtrar poluição visual de metadados. Não vai te dar supervisão, mas vai te ajudar a focar. Ver só o que importa.

Fernando pegou o estojo com cuidado. Os óculos eram leves. Frágeis. Lindos.

— Quanto?

— Nada. — Hiroshi virou as costas. — É um protótipo. Se funcionar, você volta. Se quebrar, você volta. Se te matar, pelo menos não foi minha arma que fez o serviço.

— Mestre... — Bruno começou.

— Vão. — Hiroshi acenou com a mão, já voltando à bancada. — Antes que eu mude de ideia.

Fernando guardou o estojo no bolso. Quando virou para sair, Hiroshi falou de novo:

— Codificador. Uma coisa.

Fernando parou.

— O último codificador não foi morto pelos inimigos. Foi morto por um amigo em quem confiava. Confie em quem merece. Mas nunca confie completamente.

O aviso pairou no ar como uma sombra.

Fernando subiu as escadas sem olhar para trás.