Capítulo 10 de 94
CAPÍTULO 10 — O PRESENTE DO FERREIRO
A noite já passava das duas da madrugada quando Fernando finalmente destrancou a porta de seu apartamento de trinta e cinco metros quadrados na Bela Vista.
O silêncio do pequeno cômodo era quebrado apenas pelo zumbido distante da geladeira velha e pelo eco das sirenes que cortavam a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Ele jogou as chaves sobre a mesa de fórmica gasta, tirou os sapatos e sentou-se na beirada da cama estreita.
Sobre a mesa, repousava o estojo de camurça desgastada que Hiroshi lhe entregara na oficina do Brás antes de cerrar as portas de ferro.
Fernando abriu o fecho de latão com dedos reverentes. Dentro, aninhados em veludo verde-escuro, estavam os óculos deixados por Rafael. As hastes de prata fosca exibiam pequenas runas entalhadas à mão, e as lentes hexagonais de cristal lapidado pareciam refratar a luz amarelada da lâmpada do teto em feixes quase imperceptíveis de ouro e violeta.
Ele respirou fundo, limpou o suor frio da testa e colocou os óculos no rosto.
O impacto perceptual foi instantâneo e avassalador.
> [ROOT CONSOLE: HARDWARE DE AMPLIFICAÇÃO DETECTADO]
> [DISPOSITIVO: LENTES DE CRISTAL DE RESSONÂNCIA // CODEX RAFAEL]
> [DRIVER: INTERFACE OCULAR CALIBRADA COM SUCESSO]
> [CAMADA DE VISUALIZAÇÃO: MULTIDIMENSIONAL // OVERLAY ATIVO]
A realidade ao redor de Fernando não apenas mudou de cor; ela desdobrou-se em camadas estruturais de profundidade infinita. As paredes de alvenaria do apartamento tornaram-se semitransparentes, revelando não apenas os conduítes elétricos de cobre, mas veias tênues de mana residual que corriam pela tubulação de água do prédio antigo.
Fernando virou a cabeça em direção à janela aberta e prendeu a respiração.
São Paulo revelava-se diante de seus olhos como um organismo vivo colossal. Abaixo do asfalto das avenidas, onde carros comuns transitavam alheios ao mundo invisível, grossos feixes de mana azulada e carmesim pulsavam como artérias biológicas ligando os nós subterrâneos das estações de metrô. Ele via as assinaturas energéticas de caçadores patrulhando as calçadas a três quarteirões de distância — pequenos cometas de calor áurico que seus velhos olhos míopes jamais poderiam sonhar em enxergar.
> [ASSINATURA IDENTIFICADA: CAÇADOR RANK D // MANA: 180/180 // STATUS: ESTÁVEL]
> [ASSINATURA IDENTIFICADA: CRISTALIZAÇÃO RESIDUAL NO SUBSOLO // DISTÂNCIA: 420m]
> [FILTRAGEM DE RUÍDO: 94% ATIVADA // FOCO: FLUXO DE KERNEL]
— Rafael não construiu apenas óculos... — murmurou Fernando, estendendo a mão para o vazio da janela e vendo finos filamentos de código dourado tecerem-se ao redor de seus dedos em tempo real. — Ele construiu um microscópio para a alma do mundo.
Ele tocou a haste esquerda da armação, onde uma pequena ranhura rúnica vibrava contra sua têmpora. Ao aplicar uma microtensão com o Root, uma linha de texto flutuou no canto superior de sua visão:
> [NOTA PESSOAL DE RAFAEL // GRAVADA NA MEMÓRIA ÓPTICA]:
"Se você está vendo as artérias da cidade, significa que você é como eu. Não se deslumbre com a beleza dos fluxos de luz, garoto. Cada linha brilhante que você enxerga é sangue que as guildas estão bombeando da terra para encher cofres na Faria Lima. Use estas lentes para encontrar as falhas. Onde houver uma distorção roxa, haverá dor. E onde houver dor, haverá o Conselho tentando colher o que não plantou."
Fernando retirou os óculos devagar. O mundo comum retornou: as paredes rachadas com manchas de umidade, a luz fraca de tungstênio, os móveis simples comprados em prestações a perder de vista.
Ele era ainda o mesmo homem de trinta e dois anos que vestia camisas sociais baratas e comia marmita requentada. Mas suas mãos já não pertenciam mais à burocracia dos covardes.
Ele guardou os óculos no bolso da camisa, bem próximo ao coração, e deitou-se na cama enquanto o sol começava a desenhar faixas cinzentas no horizonte paulistano.
O primeiro ato de sua vida invisível estava oficialmente encerrado. O Administrador havia despertado.