Capítulo 83 de 94
CAPÍTULO 83 — O CORAÇÃO DA SELVA
A expedição levou dezenove dias para penetrar no quadrante mais remoto da Floresta Amazônica, onde as cartas geográficas comuns cessavam e as bússolas magnéticas giravam sem rumo.
Ali, a centenas de quilômetros de qualquer assentamento humano, a natureza havia se fundido com a arquitetura primordial da Malha ao longo de dez milênios. Sumaúmas colossais erguiam-se a mais de sessenta metros de altura, com troncos cujas cascas revelavam veios de cristal luminescente e seiva dourada que corria como circuitos integrados vivos. O chão de terra preta e folhas úmidas não ocultava raízes comuns; eram feixes espessos de fibra óptica vegetal que pulsavam na frequência calma da respiração da Terra.
Ao meio-dia, sob a névoa morna que filtrava os raios de sol em colunas esmeraldas, a última caravana de batedores da Aliança Livre alcançou o acampamento avançado.
— Mais vinte e quatro fragmentos chegaram do setor leste — anunciou Mikael, com a respiração ofegante, entregando recipientes selados em folhas de lótus de mana.
Fernando estendeu as mãos trêmulas. Uma a uma, as centelhas conceituais deslizaram para a sua derme. Quarenta e sete fragmentos. Quarenta e sete assinaturas vitais que agora orbitavam os dedos da sua mão direita como um colar de pequenas estrelas douradas. O peso metafísico era tão colossal que ele mal conseguia cerrar o punho sem sentir a pulsação de milhões de memórias que ainda não haviam nascido.
— Chegou a hora — disse Fernando, virando-se para o círculo de combatentes reunidos na clareira.
Todos os que haviam sobrevivido à travessia continental estavam ali. Bruno, empunhando sua espada desembainhada cujas marcas de batalha contavam a história de um homem que renascera da sarjeta; Dona Margarida, de pé com seu escudo de torre colossal cravado na terra, tendo ao lado Gabriel, com a postura serena de quem finalmente encontrara paz ao lado da mãe; Raul e Sofia, sentados sobre um tronco caído, com os dedos entrelaçados em silêncio cúmplice; o pastor Lúcio, com sua bolsa de primeiros socorros e a Bíblia gasta no bolso do jaleco; Iara, Hiroshi e Nina, com o caderno de couro repousando no colo.
E na borda do círculo, Adão e Elisa.
Adão não possuía mais Root. Seus canais de mana haviam sido cicatrizados na cirurgia épica de catorze horas, mas ele se mantinha de pé, ereto, com a serenidade de um veterano que sobreviveu a quatro décadas de escuridão.
— Fernando — disse Elisa, dando um passo à frente. Os olhos dela, reflexo da prata e do ouro com que Fernando tecera seu corpo artificial, brilhavam com uma preocupação indisfarçável. — Você não precisa entrar naquela câmara sozinho.
Fernando sorriu com a gentileza cansada que sempre o acompanhara desde os tempos das planilhas na Arcadium.
— Eu sei que você iria comigo até o inferno, Elisa. Mas o barramento do núcleo foi projetado para uma única assinatura de Administrador. Se mais de uma consciência entrar em contato direto com o kernel da Dra. Tanaka durante a injeção dos fragmentos, o sistema sofrerá uma colisão de memória. Tudo entrará em colapso antes que eu possa dar a primeira linha de comando.
— E se você não voltar? — perguntou Bruno, com a voz embargada e a mandíbula travada.
O silêncio na clareira foi quebrado apenas pelo canto distante de um uirapuru e pelo sussurro das copas das árvores sob a brisa morna.
Adão aproximou-se devagar. Ele pousou a mão calejada e firme sobre o ombro de Fernando. Não havia mana no toque, apenas o calor e o peso de quem entendera o custo de ser o primeiro Codificador.
— Lembre-se do que eu te disse na Arcadium, garoto — disse Adão, com um olhar límpido e paternal. — As máquinas constroem sistemas para serem perfeitas, mas os homens erram e sobrevivem porque sabem perdoar. O que quer que esteja do outro lado daquela porta... lembre-se de que você é um homem, não um reator. Não tente ser um deus. Seja apenas o Fernando.
Fernando assentiu com a cabeça, comovido.
— Obrigado, Adão.
Ele virou-se para o pórtico natural formado pelo entrelaçamento das raízes mestras de duas sumaúmas gigantescas. Ao se aproximar, o véu vegetal desfez-se como cortinas de seda bioluminescente, revelando um túnel que descia em espiral para o útero do continente.
Atrás dele, na clareira ensolarada, Nina abriu o caderno e escreveu uma única linha em nanquim roxo:
"Ele desce como Administrador de uma máquina; ele voltará como um homem livre entre os seus."
Fernando respirou o ar úmido da selva uma última vez e deu o primeiro passo na escuridão luminosa.