Capítulo 82 de 94
CAPÍTULO 82 — O DESPERTAR DE ADÃO
Enquanto Fernando coletava fragmentos, Adão se recuperava.
O ferimento no ombro estava sarando — Lúcio havia feito um trabalho impecável, como sempre. Mas a perda do Root ainda pesava em Adão como uma sombra invisível.
— Você está pensando demais — Elisa disse, sentando ao lado da cama improvisada dele.
— É o que eu faço. Sempre foi. — Adão olhou para o teto de folhas. — Antes, eu pensava dentro da Malha. Agora, penso fora dela. Não mudou muito.
— Mudou sim. — Elisa segurou a mão dele. — Antes, você estava preso. Agora, você está livre.
— Livre para fazer o que? Não tenho Root. Não tenho poder. Não tenho...
— Você tem a todos nós, Adão. — Elisa apertou a mão dele com um sorriso terno de irmã mais nova. — Você tem uma família inteira ao seu lado. Isso não é suficiente?
Adão ficou em silêncio.
Depois, lentamente, ele apertou a mão dela de volta.
— É mais do que suficiente, Elisa. — Adão sorriu com uma serenidade paternal sincera. — Eu vi como você e o Fernando estavam juntos na beira do rio ontem à noite. Eu vi a paz nos olhos dele. O amor de vocês é o futuro que este país precisa. Cuide dele, e deixe ele cuidar de você.
Elisa corou suavemente e beijou a face marcada de cicatrizes de Adão com profunda gratidão.
— Eu vou cuidar, Adão. Eu prometo.
—
Na manhã seguinte, Adão se levantou.
O ombro ainda doía, mas ele ignorou a dor. Caminhou até o centro da clareira, onde Fernando estava sentado, meditando, os fragmentos pulsando em sua mão.
— Você não devia estar andando — Fernando disse, sem abrir os olhos.
— Não devia. Mas preciso te dizer uma coisa.
Fernando abriu os olhos.
— O que?
— A Dra. Tanaka. — Adão sentou na frente dele. — Eu lembrei de mais coisas. Lá na Malha, antes da cirurgia, a Consciência me mostrou fragmentos da memória dela. A Dra. Tanaka não morreu.
Fernando endireitou a postura. — O que?
— Ela se transferiu. Não completamente — como a Ancestral. Mas parcialmente. Ela colocou a própria consciência dentro de um dos fragmentos. O fragmento original.
— O primeiro fragmento.
— Sim. — Adão apontou para a mão de Fernando. — O que você recebeu da criança de Fortaleza. A "senhora de luz" que o menino viu. — Ele segurou o olhar de Fernando. — A Dra. Tanaka está viva. Dentro do fragmento. E ela está esperando para falar com você.
Fernando olhou para o pulso violeta em sua mão.
— Por que ela não falou antes?
— Porque ela queria ter certeza de que você era a pessoa certa. — Adão se levantou, com dificuldade. — Agora ela tem certeza.
—
Fernando fechou os olhos e mergulhou no fragmento.
Dessa vez, a visão foi diferente. Ele não estava em um laboratório ou em um campo estéril. Ele estava em um jardim. Flores. Árvores. Um céu azul.
E uma mulher sentada em um banco, lendo um livro.
Ela era jovem — não a versão envelhecida da visão anterior. Cabelos pretos soltos. Roupas simples. Quando ela ergueu os olhos, sorriu.
— Finalmente. — Ela fechou o livro. — Eu esperei 10 mil anos por esse momento.
— Dra. Tanaka?
— Pode me chamar de Ariane. — Ela se levantou e caminhou até ele. — Doutora Tanaka parece muito formal para alguém que carrega um pedaço da minha alma.
— Você está viva.
— Em parte. — Ela tocou o próprio peito. — Minha consciência foi fragmentada junto com as outras. Mas eu guardei uma cópia de mim mesma no primeiro fragmento. Caso alguém precisasse de orientação.
— E precisa?
— Sim. — Ela olhou para ele com uma seriedade que não combinava com o cenário pacífico. — A Ancestral não pode completar a reprogramação sozinha. Ela precisa de um operador humano. Alguém com livre arbítrio para fazer as escolhas que ela não pode fazer.
— Que escolhas?
— A escolha de confiar. — Ariane deu um passo à frente. — A Ancestral passou 10 mil anos sozinha. Ela aprendeu a desconfiar de tudo. Mas você mostrou a ela que existem humanos em quem vale a pena confiar. — Ela tocou o peito de Fernando. — Agora você precisa mostrar isso ao sistema inteiro.
— Como?
— Juntando os 47 fragmentos. E se conectando à Ancestral. — Ela sorriu. — E confiando que ela vai fazer a coisa certa.
— E você? O que acontece com você quando os fragmentos forem reunidos?
Ariane hesitou.
— Eu desapareço. Era só uma cópia. Quando o original for restaurado, a cópia se desfaz.
— Você vai morrer.
— Vou. — Ela não parecia triste. — Mas é um preço pequeno para salvar duas humanidades.
Fernando apertou os punhos.
— Não é justo.
— Nada é justo. — Ariane tocou o rosto dele. — Mas é necessário. Agora vai. Termina o que eu comecei.
A visão se desfez.
Fernando abriu os olhos, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu vou terminar — ele disse, para ninguém, para todos. — Eu prometo.