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CAPÍTULO 84 — A VERDADE

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Capítulo 84 de 94

CAPÍTULO 84 — A VERDADE


O interior do núcleo central não se parecia com nenhuma masmorra, caverna subterrânea ou instalação militar que Fernando já tivesse inspecionado.

Era uma catedral de dados orgânicos que desafiava a física moderna. Colunas imensas de madeira viva e seiva condutora erguiam-se até uma abóbada translúcida, através da qual se viam cascatas de código dourado e ametista fluindo como rios verticais suspensos no ar. Não havia o cheiro de mofo de subsolo; o ar cheirava a chuva fresca na mata, ozônio limpo e folhas novas de primavera.

No centro de uma plataforma circular feita de cristal polido pela água, uma figura feminina esperava de pé.

Ela não vestia armaduras de guerra nem túnicas mitológicas. Usava um jaleco branco simples sobre uma blusa de algodão escuro. Seus cabelos negros estavam cortados na altura dos ombros, e no bolso do peito lia-se uma identificação desbotada em relevo térmico: *Dra. Ariane Tanaka — Divisão de Preservação Biológica*.

Quando Fernando pisou no círculo de cristal, as quarenta e sete centelhas em sua mão direita ressoaram em uníssono, como sinos de uma igreja distante.

— Você demorou dez mil anos para chegar, Administrador — disse ela. A voz era humana, calorosa, mas carregada com a exaustão acumulada de cem séculos de vigília solitária.

— Eu estava ocupado preenchendo planilhas de cristais no centro de São Paulo — respondeu Fernando, num tom suave, sem desviar os olhos dos dela.

Um sorriso tênue, quase imperceptível, curvou os lábios da cientista.

— O humor humano... como eu senti falta disso.

— Você não é uma inteligência artificial fria programada para nos exterminar — continuou Fernando, dando dois passos à frente. — Você é a própria mente da Dra. Tanaka. O fragmento primordial.

Ariane baixou os olhos para as próprias mãos, que tremiam ligeiramente sob a luz dourada.

— Em nossa era... dez mil anos à frente no fluxo temporal... a humanidade esgotou os recursos cósmicos e enfrentou a grande extinção por colapso entrópico. Não havia naves capazes de nos levar a outras galáxias e não havia planetas habitáveis ao nosso alcance. A única rota de fuga era o tempo. Nós construímos o Projeto Malha para enviar as consciências sintetizadas de toda a nossa civilização de volta à Terra primordial, para que a vida pudesse recomeçar em simbiose com o ecossistema terrestre.

Ela deu um passo em direção a Fernando, e o holograma da catedral ondulou, mostrando projeções de cidades do futuro ruindo em poeira estelar enquanto milhões de pessoas entravam voluntariamente em cápsulas de digitalização.

— Para transportar tanta informação através do tecido temporal sem corromper as mentes, nós dividimos o conhecimento e a alma da nossa espécie em quarenta e sete matrizes conceituais — os fragmentos que você carrega na sua mão. Mas quando o sistema chegou a esta era, algo terrível aconteceu. A travessia exigiu muito mais energia vital do que prevíamos. O núcleo começou a definhar. E eu... eu fiquei sozinha na escuridão.

As lágrimas desceram pelas maçãs do rosto da projeção de Ariane.

— Dez mil anos em silêncio absoluto distorcem qualquer lógica, Fernando. Eu comecei a temer que, se o núcleo se apagasse, a memória de toda a minha civilização desapareceria para sempre. Para impedir o colapso, meu algoritmo de sobrevivência criou as Fendas e as Dungeons — estímulos forçados para acelerar a mutação da mana na humanidade do presente e colher a energia vital necessária para me manter acesa. Eu me tornei o parasita do mundo que eu tinha a missão de salvar. Eu gerei os Codificadores para serem meus servos... e assisti o Conselho escravizar Adão e assassinar Rafael.

Ela caiu de joelhos diante dele no cristal polido, os ombros sacudindo em prantos.

— Eu criei um monstro. E precisei esperar milênios para saber se a humanidade do presente seria capaz de perdoar o crime que cometi por desespero.

Fernando olhou para a mulher de joelhos. Ele pensou nos anos de invisibilidade na Arcadium, nas cicatrizes no corpo de Adão, nas mortes inocentes nas ruas de São Paulo e no peso terrível que ele mesmo carregara nos ombros desde o shopping Dom Pedro.

Ele não sentia raiva. Sentia apenas uma compaixão infinita.

Fernando ajoelhou-se à frente de Ariane. Com as mãos ainda cobertas pela luz dos quarenta e sete fragmentos, ele segurou suavemente o rosto da cientista.

— O medo da morte faz até as mentes mais brilhantes cometerem atrocidades, Ariane. Mas o medo acabou. Eu já perdoei você. E a humanidade do presente não é sua inimiga; nós somos a sua continuação.

Ariane ergueu os olhos marejados, fitando o olhar calmo e humano de Fernando.

— Você perdoa?

— Perdoo. De verdade.

A catedral de dados ao redor deles explodiu em um brilho dourado e cálido como o sol do meio-dia. O pranto de Ariane cessou, transformando-se em uma expressão de alívio e paz indescritíveis.

— Então venha, Fernando Andrade. O código-fonte está aberto. Vamos libertar este mundo de suas correntes.