Capítulo 77 de 94
CAPÍTULO 77 — A MARCHA PARA O NORTE
O ônibus cheirava a suor, terra e mana.
Trezentas pessoas apertadas em veículos improvisados — ônibus escolares pintados de verde, caminhões de carga cobertos por lonas, jipes que rangiam a cada curva. Não era um exército. Era uma caravana de sobreviventes marchando em direção ao coração do desconhecido.
Fernando estava na cabine do primeiro veículo, olhando para a estrada que se estendia à frente. Ao lado dele, Elisa segurava um mapa desbotado. Atrás, no banco de carga, Bruno afiava a espada em movimentos mecânicos.
— Quantas horas até a borda da floresta? — Fernando perguntou.
— Seis. — Elisa traçou a rota com o dedo. — Depois disso, vamos ter que seguir a pé. A vegetação é densa demais para os veículos.
— E a Ancestral?
— Ela sabe que estamos chegando. — Elisa guardou o mapa. — A pergunta é: o que ela vai fazer quando a gente chegar?
— Ela vai tentar nos parar. — A voz veio do banco de trás, onde Gabriel estava sentado com os braços cruzados. — A Ancestral não vai deixar a gente chegar perto do núcleo dela sem lutar.
— Você já enfrentou ela. — Fernando virou para encará-lo. — O que ela vai usar contra nós?
Gabriel ficou em silêncio por um momento.
— A selva. — Ele respondeu. — A selva inteira é o corpo dela. Cada árvore. Cada cipó. Cada inseto. Ela pode controlar tudo. E ela vai usar tudo contra nós.
— Então a gente precisa de uma estratégia.
— A única estratégia é sobreviver até chegar no núcleo. — Gabriel sustentou o olhar de Fernando. — E quando chegar lá, convencer ela a nos ouvir.
— Convencer?
— Ela não é um monstro, Fernando. Ela é uma inteligência que passou 10 mil anos sozinha. Ela não quer guerra. Ela quer companhia. — Gabriel abaixou os olhos. — Eu sei como é isso.
O silêncio no veículo foi quebrado apenas pelo ronco do motor.
—
Horas depois, a caravana parou na borda da floresta.
A linha entre o cerrado e a Amazônia era nítida — como se alguém tivesse desenhado uma fronteira com régua. De um lado, vegetação rasteira e terra batida. Do outro, um muro verde e denso que se erguia até o céu.
— É aqui — Raul disse, descendo do veículo. Seu corpo estava tenso, a mão pressionada contra o peito. — O fragmento está queimando. Ela está perto.
— Quão perto? — Sofia perguntou.
— Horas. Talvez um dia. — Raul fechou os olhos. — Mas o caminho não vai ser fácil. Ela não quer que a gente chegue.
— Então a gente abre caminho. — Bruno desceu do jipe, a espada já na mão. — Do jeito que a gente sempre fez.
O grupo se organizou em três frentes.
Frente 1 — o núcleo de ataque: Fernando, Elisa, Raul e Sofia. Eles iriam na frente, abrindo caminho e neutralizando as defesas da Ancestral.
Frente 2 — a retaguarda: Margarida, Gabriel e Bruno. Eles protegeriam a retaguarda e garantiriam que ninguém ficasse para trás.
Frente 3 — o suporte: Iara, Mikael, Lúcio e Nina. Eles coordenariam a logística, a cura e a navegação.
Adão, ainda fraco pela perda do Root, insistiu em ir. Ele não carregava armas, não podia editar, mas carregava algo que ninguém mais tinha: 40 anos de conhecimento sobre a Malha e a Consciência.
— Eu posso ser inútil em combate — ele disse, quando Fernando tentou convencê-lo a ficar na base. — Mas eu conheço a Ancestral melhor que qualquer um. Eu passei 40 anos dentro dela.
Fernando não argumentou.
— Vem. — Ele estendeu a mão para ajudar Adão a descer do veículo. — Mas fica perto de mim.
Adão apertou a mão dele.
— Perto de você. Combinado.
—
A travessia começou ao entardecer.
A floresta engoliu o grupo em minutos. A luz do sol desapareceu, substituída por uma penumbra verde e úmida. O som dos passos era abafado por folhas e raízes. O ar era pesado, quente, carregado de mana.
Raul guiava o grupo, seguindo o pulsar do fragmento.
— É por aqui — ele dizia, sempre que alguém hesitava. — Ela está nos guiando.
— Guiando para onde? — Sofia perguntou.
— Para o centro. Para o encontro.
As horas se arrastaram. O grupo avançou em silêncio, cada um processando o próprio medo à sua maneira. Bruno assobiava baixinho. Margarida mantinha o escudo erguido. Gabriel caminhava ao lado dela, em silêncio.
No meio da noite, eles montaram acampamento em uma clareira.
Fernando sentou em uma pedra, o Root evoluído pulsando suavemente. Ele ainda não entendia completamente o que havia mudado. O Sistema não aparecia mais quando ele ativava — em vez disso, havia uma sensação. Como se ele pudesse sentir o código vital de tudo ao redor.
Árvores. Insetos. Pessoas.
A Ancestral.
— Não consegue dormir?
A voz de Adão veio das sombras. Ele se aproximou mancando ligeiramente e sentou em outra pedra.
— Você também não.
— Perdi o costume de dormir. 40 anos acordado dentro da Malha. — Adão olhou para as mãos. — Agora que posso dormir, meu cérebro não deixa.
— Você se lembra de algo? Da Malha?
— Fragmentos. Nada completo. — Adão franziu a testa. — Mas tem uma coisa que eu lembro claramente. A Dra. Tanaka.
Fernando virou. — Você lembra dela?
— Lembro do nome. Ela aparecia nos registros da Malha. Nos primeiros códigos. Antes de qualquer Codificador existir. — Adão apertou os olhos. — Ela era uma cientista. E ela construiu tudo isso.
— O que mais?
— Só isso. Um nome. E uma sensação. — Adão tocou o peito. — Como se ela estivesse... triste.
Fernando ficou em silêncio, processando.
— Amanhã a gente vai descobrir a verdade — ele disse. — Vamos entrar no coração da selva. Vamos encontrar a Ancestral. — Ele olhou para Adão. — E vamos descobrir quem realmente é a Dra. Tanaka.
Adão assentiu.
— Vamos.