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CAPÍTULO 76 — A TRÉGUA
Três dias após o pulso continental, as portas de mogno trabalhado do Theatro Municipal de São Paulo abriram-se para uma conferência que redefiniria a história política e arcânica do país.
No passado recente, aquele mesmo salão nobre havia sido palco das negociatas aristocráticas do Conselho das Guildas. Naquela tarde, porém, sentavam-se em torno da mesa representantes de forças que até a semana anterior matavam-se nas sombras:
Pela Aliança Livre, Iara e Mikael; pela Legião desarmada, Gabriel, trazendo o compromisso de redenção ao lado de Dona Margarida; pelo Conselho Remanescente, o ex-Subsecretário Otávio Fontes; e na cabeceira, vestindo sua camisa social com mangas dobradas e os óculos de cristal pousados na mesa, estava Fernando Andrade.
Os termos foram selados com firmeza cirúrgica: desmonte dos esquadrões de Executores, libertação dos prisioneiros arcanos e cessão da frota pesada de caminhões para a grande expedição nacional até o coração da Amazônia.
O aperto de mãos solene entre as três facções encerrou quatro décadas de hegemonia corporativa predatória.
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Ao cair daquela noite fresca de outono, o grupo reuniu-se no topo do edifício-sede da Arcadium.
Fernando observava o mar de luzes douradas e brancas que se espalhava pelas avenidas da metrópole pacificada. Ao seu lado, Nina estava sentada de pernas cruzadas no chão do heliporto, com seu caderno de desenhos aberto sobre os joelhos.
Dessa vez, não havia traços confusos ou figuras em chamas. Havia o desenho de um caminho largo cercado por árvores frondosas que floresciam sob um céu sem tempestades. No centro da página, duas figuras serenas seguravam-se pelas mãos, enquanto uma frase descansava em letras firmes:
"A escolha ainda está por vir. Mas dessa vez, ela não precisa ser impossível."
Fernando aproximou-se devagar e sentou-se na mureta ao lado da jovem vidente.
— Nina... — disse ele em tom baixo e carinhoso. — Aquela visão terrível que te aterrorizou durante meses... a probabilidade de noventa e quatro por cento de que eu teria que soltar Adão ou Elisa no vazio de um portal para salvar o mundo...
Nina ergueu os olhos escuros, que agora brilhavam com uma serenidade límpida.
— Ela não vai acontecer, Fernando. Eu finalmente compreendi.
— Compreendeu o quê?
— Aquela não era uma profecia do destino — respondeu a garota, fechando o caderno com um sorriso leve. — Era a prisão matemática que a Consciência e o Conselho tentavam impor na sua cabeça. O Conselho sempre acreditou que para salvar alguém, era obrigatório sacrificar outro inocente. Eles sacrificaram Adão em 1985, sacrificaram Elisa em 2010 e sacrificaram Rafael. Mas você recusou a matemática deles.
Ela tocou a mão de Fernando com doçura.
— Você não sacrificou ninguém, Fernando. Você curou Adão com a cirurgia de Érica e deu um corpo novo para a Elisa. A visão do abismo se desfez porque você teve a coragem de inventar o Terceiro Caminho.
Fernando sorriu, sentindo um peso colossal desvanecer-se de seus ombros, e afagou os cabelos da garota.
— Dessa vez, Nina... a gente vai escrever o final juntos.