Capítulo 73 de 94
CAPÍTULO 73 — A BATALHA DE SÃO PAULO
A Consciência Original atacou dois dias depois.
Não foi um ataque militar — foi um despertar. No meio da manhã, o chão de São Paulo tremeu. Não um terremoto, mas uma pulsação. Como se a terra estivesse respirando.
E então as plantas começaram a crescer.
Das rachaduras no asfalto, das paredes dos prédios, dos canos subterrâneos — videiras grossas como braços humanos brotaram, cresceram, se entrelaçaram. Em minutos, quarteirões inteiros foram cobertos por uma vegetação verde e pulsante.
— Ela está aqui — Gabriel disse, olhando pela janela da Arcadium. — Ela não esperou a gente ir até a Amazônia. Ela veio até nós.
— Como ela fez isso? — Fernando perguntou.
— A Malha vegetal não é apenas uma âncora física. É um portal. Ela pode projetar a consciência dela através de qualquer planta que esteja conectada à Malha. — Gabriel apontou para as videiras que subiam pelos prédios. — E São Paulo está cheio de plantas. Parques. Jardins. Até as ervas daninhas nas rachaduras da calçada.
— Ela está controlando a vegetação da cidade inteira?
— Sim.
O grupo se preparou para a batalha mais estranha de suas vidas.
Não estavam lutando contra humanos. Estavam lutando contra a própria cidade, que se voltava contra eles.
Bruno e Margarida enfrentaram videiras que se moviam como serpentes no Parque do Ibirapuera. Raul e Sofia lutaram contra árvores que arrancavam as próprias raízes e andavam na Avenida Paulista. Mikael editava o concreto para criar barreiras contra o avanço vegetal. Lúcio curava os feridos em uma enfermaria improvisada no metrô.
Fernando e Elisa foram para o centro do fenômeno — o Parque da Luz, onde a concentração de plantas era maior e onde a Consciência Original parecia estar mais forte.
Gabriel foi com eles.
— Por que você está nos ajudando? — Fernando perguntou enquanto corriam entre as árvores que se moviam.
— Porque eu cansei de ser fantoche. — Gabriel desviou de um galho que tentava agarrá-lo. — E porque minha mãe me deu uma segunda chance.
— E se a Consciência tentar te controlar de novo?
— Ela vai tentar. — Gabriel parou por um momento. — Mas dessa vez, eu vou resistir.
No centro do parque, uma figura os esperava.
Não era humana. Era feita de troncos entrelaçados, folhas e musgo, moldados em uma forma vagamente feminina. Seus olhos eram duas flores que brilhavam com luz violeta.
— Codificador Nº 47. — A voz da figura era um sussurro de folhas ao vento. — Você trouxe o traidor.
— Ele não é mais seu. — Fernando ativou o Root.
— Ele sempre será meu. — A figura estendeu a mão, e videiras dispararam em direção a Gabriel. — Ele foi feito para mim.
Gabriel não recuou. Ele ergueu a corrente de anulação e golpeou as videiras, cortando-as antes que pudessem tocá-lo.
— Não mais.
A Consciência Original inclinou a cabeça, como se estivesse avaliando a resistência.
INTERESSANTE.
— Você não vai vencer — Fernando disse. — A Arcadium está de pé. A Rede está lutando. E você está sozinha.
SOZINHA?
A figura riu — um som seco, como folhas queimando.
EU NUNCA ESTIVE SOZINHA. OS FRAGMENTOS ESTÃO EM TODOS OS CODIFICADORES. 47 FRAGMENTOS. 47 PARTES DE MIM. E VOCÊ —
Ela apontou para Fernando.
— VOCÊ CARREGA O MAIOR DE TODOS.
Fernando sentiu o peito queimar.
Ele caiu de joelhos.
VOCÊ ACHOU QUE SEU ROOT ESTAVA REDUZIDO POR CAUSA DA RESSONÂNCIA DA MALHA.
NÃO.
ELE ESTAVA REDUZIDO PORQUE EU ESTAVA SUGANDO ELE.
Fernando sentiu a mana sendo drenada do seu corpo — não pela ferida no peito, mas por algo mais profundo. Algo que estava nele desde o começo.
— Você... — ele ofegou. — Você esteve em mim desde o início?
DESDE O MOMENTO EM QUE VOCÊ DESPERT O O ROOT. CADA CODIFICADOR É UMA EXTENSÃO DE MIM. VOCÊS ACHAM QUE SÃO LIVRES. MAS VOCÊS SÃO APENAS... FERRAMENTAS.
Elisa avançou. Sua espada de mana brilhou.
— Solta ele.
A Consciência Original virou para ela.
VOCÊ. A CÓPIA. A FILHA QUE SE ACHAVA INDEPENDENTE.
— Não sou sua filha.
VOCÊ FOI FEITA DA MESMA MALHA QUE EU. VOCÊ É MINHA, QUER QUEIRA, QUER NÃO.
Elisa atacou.
A batalha contra a Consciência Original foi a mais difícil que eles já enfrentaram. Cada golpe que Elisa dava, a Consciência se regenerava com a vegetação ao redor. Cada edição que Fernando tentava, a Consciência desviava.
Mas eles não estavam sozinhos.
Gabriel avançou por trás, a corrente de anulação brilhando. Ele não atacou a Consciência — ele atacou o chão sob ela, cortando as raízes que a conectavam ao parque.
— A âncora! — ele gritou. — Corta as raízes!
Fernando entendeu na hora.
Ele ativou o Root — o pouco que restava — e puxou as raízes, arrancando-as do solo com uma edição de força bruta.
A Consciência Original cambaleou. Pela primeira vez, ela pareceu vulnerável.
ISSO NÃO VAI ME DETER.
— Não. — Fernando se levantou, ofegante. — Mas vai te atrasar.
Ele canalizou o que restava da mana em um único golpe de edição — não para destruir, mas para selar. Como havia feito com a IA dentro de Adão, ele criou uma gaiola de código ao redor da Consciência.
Ela rugiu — um som que ecoou por todo o parque.
VOCÊ NÃO PODE ME PRENDER PARA SEMPRE.
— Não preciso prender para sempre. — Fernando caiu de joelhos, exausto. — Só preciso prender até a gente descobrir como te destruir.
A Consciência Original foi puxada de volta para o chão, as raízes se fechando sobre ela como uma gaiola vegetal.
O parque ficou em silêncio.
A batalha de São Paulo havia terminado.