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CAPÍTULO 74 — A ESCOLHA DE MARGARIDA

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Capítulo 74 de 94

CAPÍTULO 74 — A ESCOLHA DE MARGARIDA


A poeira de concreto ainda pairava espessa sobre a Avenida Tiradentes quando o solo sob a Estação da Luz rugiu como um animal agonizante.

Não foi uma explosão comum. Foi a Malha vegetal se manifestando em seu ápice destrutivo. Raízes grossas como tubulações de metrô arrebentaram o pavimento de paralelepípedos, retorcendo os trilhos de trem e lançando ônibus municipais contra as fachadas de prédios históricos. No epicentro da brecha, uma massa contorcida de cipós espinhosos e madeira fóssil — a Raiz Mestra — ergueu-se a quinze metros de altura, chicoteando o ar com violência cega.

Atrás das barricadas improvisadas, mais de duzentos civis e caçadores novatos estavam encurralados contra as grades de ferro da Pinacoteca do Estado. Entre eles, Gabriel empunhava a corrente de anulação. Suas mãos estavam em carne viva, o suor misturando-se com sangue e pó de fuligem.

— Gabriel! Sai da linha de impacto! — berrou Bruno do outro lado da avenida, desferindo golpes desesperados contra videiras menores que insistiam em fechar o cerco.

Gabriel não recuou. Seus olhos queimavam com o desespero de quem passara a vida inteira acreditando que seu valor dependia de ser uma arma perfeita para o Conselho. Ele chicoteou a corrente contra o tentáculo principal da Raiz Mestra. O metal anulador chiou, rompendo parte das fibras, mas o contra-ataque veio com a velocidade de um raio: um tronco vegetal maciço desceu em arco diagonal, visando esmagar a caixa torácica do rapaz e transformar a barricada inteira em cinzas.

Gabriel fechou os olhos. Não havia tempo hábil para esquivar.

O som que se seguiu não foi o de carne sendo esmagada, mas o estrondo ensurdecedor de metal maciço colidindo contra titânio encantado.

Dona Margarida estava lá.

A veterana de sessenta e dois anos havia cravado a base do seu escudo colossal de torre — um monólito de aço negro marcado por décadas de guerras de guildas — profundamente na vala aberta do asfalto. Seus joelhos flexionaram-se, os músculos dos ombros e dos braços contraindo-se até o limiar da ruptura biológica.

> [ALERTA DE SISTEMA: CARGA DE IMPACTO CINÉTICO 420% ACIMA DO LIMITE]

> [ESTRUTURA ÓSSEA: PRESSÃO CRÍTICA EM VÉRTEBRAS CERVICAIS]

> [STATUS DA USUÁRIA: PERSISTÊNCIA INQUEBRÁVEL]

— Mãe! — o grito de Gabriel rasgou a garganta.

— Cala a boca e não sai de trás de mim, moleque! — berrou Margarida. O sangue escorria do canto da sua boca enrugada, gotejando sobre a couraça de batalha. As veias do pescoço saltavam como cordas de violoncelo sob a pele morena.

A Raiz Mestra recuou para desferir um segundo golpe, ainda mais brutal. As gavinhas espinhosas vibravam em ressonância com a mana violeta da Consciência Original, prontas para varrer a barricada inteira.

Margarida não hesitou. Ela não olhou para os avisos vermelhos que piscavam na sua percepção periférica. Durante trinta anos, as guildas haviam dito que ela era descartável, que tankers aposentadas eram um estorvo orçamentário, que seu corpo gasto não valia a mana de uma poção de Rank B. Mas ali, diante do filho que lhe fora roubado e dos jovens indefesos que o sistema abandonara, ela era a muralha mais sólida que aquele país já produzira.

— Eu posso ter sido covarde e ficado longe por trinta anos porque o Conselho me quebrou, Gabriel... — Margarida ergueu o queixo, os olhos faiscando com uma ferocidade maternal indomável. — Mas eu nunca deixei de ser sua mãe! E enquanto eu respirar, ninguém toca no meu filho!

Ela girou a manopla de travamento do escudo, acionando o capacitor rúnico arcaico que guardara lacrado desde a sua juventude.

> [PROTOCOLO MANUAL: SOBRECARGA DE BARRAGEM VITAL ATIVADA]

> [OUTPUT DEFENSIVO: EXPANSÃO RADIAL DE 360 GRAUS]

Uma onda de choque dourada e alva irrompeu do monólito de aço. A explosão de energia cinética e mana pura varreu a avenida como um tsunami em sentido contrário. Os espinhos foram triturados no ar; a Raiz Mestra foi estilhaçada em milhares de fragmentos de seiva e madeira estéril que choveram inofensivos sobre o asfalto destruído.

A criatura colapsou. A barricada estava a salvo.

Margarida cambaleou. O escudo caiu pesadamente no chão, partindo a calçada ao meio. Ela desabou para a frente, mas antes que seus joelhos tocassem o entulho, Gabriel a segurou.

O rapaz caiu de joelhos com ela nos braços, tremendo incontrolavelmente. Suas mãos sujas de poeira seguravam os ombros da mãe com um desespero infantil que nenhuma lavagem cerebral do Conselho conseguira extirpar.

— Você é louca... — sussurrou Gabriel, lágrimas grossas abrindo caminhos claros na fuligem do seu rosto. — Por que você fez isso? O impacto podia ter partido a sua coluna ao meio...

Margarida tossiu, cuspindo uma réstia de sangue, mas forçou um sorriso cansado que iluminou cada uma das rugas ao redor dos seus olhos.

— Porque escudo de mãe não quebra, filho. Ele só descansa quando a batalha acaba.

—

Na manhã seguinte, a cidade de São Paulo amanheceu sob um silêncio comovido e solene.

As videiras que haviam sufocado viadutos e estações murchavam em ritmo acelerado com a derrota da manifestação urbana da Consciência. Equipes da Defesa Civil, voluntários da Aliança Livre e caçadores renegados trabalhavam lado a lado limpando os escombros do centro histórico.

Margarida caminhava devagar pela alameda central do Parque da Luz, com o braço esquerdo imobilizado por uma tipóia rúnica confeccionada por Lúcio. Ao lado dela, Gabriel carregava o pesado escudo nas costas, ajustando o passo para acompanhar a marcha lenta da mãe.

— O Conselho me ensinou que amar tornava as pessoas fracas — disse Gabriel, olhando para a copa das árvores centenárias que voltavam a receber a luz do sol da manhã. — Eles me diziam que você tinha me abandonado porque era frágil demais para suportar a grandeza de ser uma arma.

Margarida parou perto do chafariz quebrado e voltou-se para ele.

— E o que você pensa agora?

Gabriel colocou o escudo com cuidado sobre a grama e encarou os olhos castanhos da mãe.

— Agora eu sei que ser uma arma é a coisa mais fácil e vazia do mundo. Qualquer um com mana pode destruir. Mas ser um escudo... segurar o peso da dor dos outros sem desmoronar... é a coisa mais difícil que existe. Você não é fraca, mãe. Você é a mulher mais forte que este país já viu.

As lágrimas que Margarida segurara durante toda a noite finalmente transbordaram por suas faces vincadas pelo tempo.

— Eu te amei em cada segundo desses trinta anos, Gabriel. Cada noite em claro, cada prece que eu fiz sem saber onde você estava... eu nunca deixei de ser sua casa.

Gabriel a abraçou. Um abraço desajeitado, contido pela tipóia e pelas cicatrizes de uma vida inteira de ausência, mas verdadeiro até a raiz dos seus ossos.

— Me ensina, mãe — murmurou ele, com a voz embargada no ombro da veterana. — Me ensina a ser um escudo. Me ensina a ser gente.

Margarida afagou a nuca do filho com a mão boa, sentindo o sol da manhã esquentar seus ombros feridos.

— A gente aprende junto, meu filho. A gente aprende junto.