Capítulo 72 de 94
CAPÍTULO 72 — A PONTE
A porta pesada de madeira maciça da sala de operações da Arcadium abriu-se devagar, e o ranger das dobradiças soou como um tiro de advertência no silêncio tenso da sala.
Dona Margarida entrou primeiro, com o escudo de torre colossal guardado nas costas. Mas quando o homem que vinha logo atrás dela cruzou o umbral, a sala inteira transformou-se em um campo de batalha iminente.
Era Gabriel.
Bruno desembainhou a espada de aço temperado com um reflexo fulminante, a ponta da lâmina cravando-se a um palmo do peito do recém-chegado. Raul saltou da bancada, as duas mãos brilhando em um carmesim fumegante de piromancia pronta para explodir. Sofia posicionou-se atrás da mesa, tecendo runas defensivas de barreira no ar, enquanto o Padre Lúcio erguia a mão em um apelo desesperado de calma.
— Margarida! — a voz de Bruno tremeu de fúria e espanto. — Que loucura é essa? O que o líder dos carrascos da Legião está fazendo dentro da nossa casa?
— Abaixa essa espada agora, Bruno! — trovejou Dona Margarida com uma autoridade que fez o chão de madeira vibrar. Ela interpôs seu próprio corpo maciço entre a lâmina do guerreiro e o peito de Gabriel. — Abaixa agora antes que eu quebre essa lâmina ao meio com a minha manopla!
Bruno não recuou a espada, o peito arfando sob a couraça de batalha.
— Ele liderou o esquadrão que emboscou a nossa patrulha na Radial Leste há três semanas! Doze homens da Aliança Livre foram parar na UTI por causa das correntes dele! Você perdeu o juízo por causa desse garoto?
— Ele é o meu filho, Bruno! — o grito de Margarida carregava a dor concentrada de três décadas de luto. — E ele não está aqui com armas!
Gabriel deu um passo à frente, contornando suavemente a mãe. Ele não fez qualquer movimento agressivo. Seus olhos castanhos — idênticos aos de Margarida — estavam límpidos, embora marcados por uma humilhação profunda.
Com movimentos deliberadamente lentos, ele levou as duas mãos à cintura, desatou os feixes de couro e deixou cair no chão as temidas *Correntes de Anulação*. O metal pesado colidiu contra as tábuas do piso com um clangor oco e estridente.
— O Bruno está coberto de razão — disse Gabriel, sustentando o olhar chamejante do guerreiro. — Eu liderei a Legião. Eu empunhei essas correntes achando que estava lutando para libertar os caçadores da opressão das guildas. Eu acreditava na voz que falava na minha mente durante os transes de mana.
Ele olhou para as próprias mãos calejadas, os dedos trêmulos.
— Eu não sabia que a voz não era uma divindade libertadora. Era a Consciência Antiga me usando como uma ferramenta cega de extermínio. Quando a minha mãe colocou o escudo entre mim e as minhas próprias convicções no Parque da Luz... eu percebi que passei a vida inteira servindo à mesma máquina que arrancou minha infância dos braços dela.
Raul deu um passo à frente, com as chamas em seus punhos ainda crepitando.
— Palavras bonitas não trazem a mana dos caçadores mutilados de volta, Gabriel. O que te impede de trair a gente no minuto em que a batalha começar?
Gabriel virou-se para Fernando, que permanecera sentado na ponta da mesa, em silêncio absoluto.
— Você é o Administrador — disse Gabriel com solenidade. — O meu código vital está aberto. Examine meu núcleo com o Root. Se encontrar um único milímetro de lealdade ao Conselho ou à Consciência Antiga... você pode quebrar o meu barramento agora mesmo. Eu aceitarei a sentença.
Fernando ergueu os olhos devagar. Ajustou os óculos de cristal e ativou o Root em nível de auditoria profunda:
> [ROOT CONSOLE: INSPEÇÃO DE INTEGRIDADE VITAL // GABRIEL O.]
> [STATUS: CORRUPÇÃO DE CONSCIÊNCIA ANULADA POR IMPACTO MATERNAL]
> [NÚCLEO VITAL: 100% DESCONECTADO DO CONTROLE DA LEGIÃO]
> [DIRETRIZ DETECTADA: DESEJO DE REDENÇÃO E PROTEÇÃO FAMILIAR]
As linhas douradas revelaram a verdade nua e crua na alma do rapaz. A dor da culpa era imensa, mas a vontade de lutar para consertar o mundo era absolutamente real.
Fernando levantou-se da cadeira, caminhou até o centro da sala e colocou a mão sobre a lâmina de Bruno, empurrando-a suavemente para baixo.
— Guarde a espada, Bruno — disse Fernando, a voz calma e resoluta. — A nossa revolução nunca foi sobre vingança. Se nós fecharmos a porta para quem genuinamente quer mudar, nós seremos apenas mais uma guilda de carrascos com outro nome.
Fernando estendeu a mão para Gabriel.
— Bem-vindo à Arcadium, Gabriel. Nós temos uma metrópole inteira para proteger amanha cedo.