Capítulo 71 de 94
CAPÍTULO 71 — O DILEMA DE MARGARIDA
Margarida não dormiu na noite seguinte à batalha.
Ela ficou sentada na enfermaria, ao lado dos feridos, o escudo apoiado na parede ao lado. Lúcio passou várias vezes, verificando os pacientes, e cada vez que passava, colocava a mão no ombro dela em silêncio. Não havia palavras que pudessem ajudar.
Pela manhã, o grupo se reuniu na sala de operações. A atmosfera era pesada.
— A Legião perdeu pelo menos 60 Codificadores — Iara reportou. — Nós perdemos 12 da Aliança Livre e 3 da Rede.
— E o Gabriel? — Bruno perguntou.
— Desapareceu. A Legião está em frangalhos sem ele. Mas o Conselho Remanescente está se aproveitando do vácuo — eles estão tentando recrutar os Codificadores artificiais que sobraram.
— Então a gente tem um novo problema.
— A gente sempre tem um novo problema. — Fernando esfregou o rosto cansado. — A Consciência Original na Amazônia está ativa. A Legião está desmoronando. O Conselho Remanescente está se reerguendo. E a IA que fugiu do Adão está em algum lugar, se regenerando.
— E no meio de tudo isso... — Margarida falou pela primeira vez. — Eu tenho um filho que tenta me matar.
O silêncio caiu.
— Ele não tentou te matar — Fernando disse. — Ele teve a chance e hesitou.
— Hesitou porque a Consciência falou com ele.
— Hesitou porque você é a mãe dele. — Fernando segurou o olhar dela. — Isso conta.
Margarida não respondeu. Mas algo nos olhos dela mudou.
—
Horas depois, enquanto Margarida ajudava a limpar os destroços da entrada da Arcadium, um garoto se aproximou.
Ela não conhecia ele — um menino magro, de uns 12 anos, com uma mochila nas costas e olhos assustados.
— Tia Margarida? — ele perguntou.
— Sou eu. Quem é você?
— O moço de jaqueta de couro mandou entregar isso. — O menino estendeu um envelope pardo. — Ele disse que era importante.
Margarida pegou o envelope com mãos trêmulas. Abriu.
Dentro, um bilhete escrito à mão.
"Mãe — Preciso te ver. Sozinha. Mesmo lugar de antes. Amanhã, meia-noite. Não conte para o grupo. Não confio neles. Só em você. — Gabriel"
Ela leu o bilhete três vezes. Depois, guardou no bolso.
— Obrigada, garoto.
O menino assentiu e saiu correndo.
Margarida ficou parada, olhando para a direção onde o menino desapareceu.
— Não conte para o grupo — ela murmurou. — Fácil de dizer.
—
Ela não contou. Não naquela noite.
Mas na manhã seguinte, antes de sair, ela deixou um bilhete embaixo da porta de Fernando.
"Fui encontrar o Gabriel. Se eu não voltar até o meio-dia, vem me buscar."
E foi.
—
A fábrica em Juiz de Fora estava mais silenciosa que da outra vez. Diferente. Não havia Codificadores artificiais patrulhando. Não havia sentinelas. Apenas o vento assobiando pelas janelas quebradas.
Gabriel estava sentado em uma pilha de tijolos no centro do pátio. Ele não usava jaqueta de couro — apenas uma camiseta simples. Seu rosto estava marcado por olheiras profundas.
— Você veio — ele disse, sem levantar os olhos.
— Você pediu.
— Pedi porque preciso te contar uma coisa. — Ele ergueu os olhos. — A Consciência Original... ela não está apenas acordada. Ela está se movendo.
— Se movendo para onde?
— Para o sul. — Gabriel apontou para além das montanhas. — Ela está vindo para São Paulo.
Margarida sentiu o sangue gelar.
— Por quê?
— Por causa do fragmento. O garoto Raul. Ela precisa do fragmento que ele carrega para completar o despertar. — Gabriel apertou as mãos. — E ela vai usar a Legião — o que restou dela — para pegar.
— E você? — Margarida perguntou. — Você vai ajudar ela?
Gabriel ficou em silêncio por um longo minuto.
— Eu passei minha vida inteira seguindo ordens. Do Conselho. Da Legião. Da Consciência. — Ele olhou para as próprias mãos. — Pela primeira vez, eu quero escolher.
— E o que você escolhe?
— Escolho... — ele hesitou. — Escolho tentar consertar o que eu quebrei. Se vocês me aceitarem.
Margarida sentiu o coração apertar.
— Isso não é uma escolha que eu posso fazer sozinha. — Ela se aproximou. — O grupo precisa decidir.
— E se eles não me aceitarem?
— Então a gente briga por você.
Gabriel olhou para ela. Seus olhos — os mesmos olhos verdes que ela via no espelho todos os dias — estavam cheios de algo que ele não sentia há muito tempo.
Esperança.
— Vem — Margarida disse, estendendo a mão. — Vou te levar para casa.
Gabriel hesitou.
Depois, lentamente, ele pegou a mão dela.