Capítulo 70 de 94
CAPÍTULO 70 — O FILHO DA MURALHA
A Legião atacou no terceiro dia.
Não foi um ataque surpresa — Iara tinha espiões em Juiz de Fora que avisaram com 12 horas de antecedência. O grupo teve tempo de se preparar. Barricadas foram montadas. A Rede foi convocada. A Aliança Livre enviou 50 caçadores para reforçar a defesa.
Margarida passou as horas antes da batalha no quarto dela, sozinha.
Ela escreveu uma carta.
Não para Gabriel. Para o grupo.
"Se eu não voltar, quero que saibam que foi uma honra lutar ao lado de vocês. Vocês me deram uma família quando eu achava que não merecia mais ter uma. E se eu encontrar Gabriel no campo de batalha, vou fazer o que precisa ser feito. Mas quero que saibam: parte de mim vai torcer para que ele desista."
Ela dobrou a carta, colocou no bolso, e foi para a batalha.
—
O ataque começou ao meio-dia.
A Legião não veio em silêncio. Eles vieram em formação — centenas de Codificadores artificiais marchando em sincronia, suas armas brilhando com mana cristalizada. À frente deles, uma figura familiar.
Gabriel.
Ele não usava armadura. Não carregava armas. Apenas uma corrente de anulação — igual à dos Executores — enrolada no braço.
— Margarida! — A voz dele ecoou pelo campo de batalha. — Sua última chance!
Margarida não respondeu. Ela apenas ergueu o escudo e assumiu posição na frente da Arcadium.
— A última chance é sua, Gabriel.
A batalha começou.
O choque foi brutal. Os Codificadores artificiais eram disciplinados — cada um sabia seu papel, cada um atacava em sincronia com os outros. Mas o grupo da Arcadium também sabia lutar junto. Bruno e Margarida formavam a muralha. Raul e Sofia atacavam das laterais. Lúcio curava em tempo real. Mikael editava o terreno para criar obstáculos.
Fernando coordenava tudo do centro, o Root reduzido pulsando em um ritmo que ele mesmo não entendia.
E no meio do caos, Margarida enfrentou Gabriel.
— Mãe. — Gabriel não atacava. Ele apenas se defendia, desviando dos golpes com uma facilidade que gelava o sangue de Margarida. — Você não consegue me vencer.
— Não preciso vencer você. Preciso te impedir.
— Me impedir de que? De construir um futuro melhor?
— De destruir o presente.
Gabriel avançou. A corrente de anulação se moveu como uma cobra, enrolando-se no escudo de Margarida e puxando com força. Ela segurou firme, mas sentiu o braço tremer.
— Você é forte. — Gabriel estava perto agora. Perto o suficiente para que ela visse os olhos dele em detalhes. — Sempre foi. Por que você me abandonou?
A pergunta atingiu Margarida como um golpe no estômago.
— Porque eu era jovem. Porque eu era pobre. Porque eu não sabia como ser mãe e caçadora ao mesmo tempo.
— Você podia ter tentado.
— Eu tentei. — A voz dela falhou. — Por três anos, tentei. Até que percebi que você merecia mais do que eu podia dar.
Gabriel não respondeu. Mas a corrente de anulação afrouxou ligeiramente.
— Gabriel — Margarida disse, a voz suplicante. — A Consciência Original não quer te libertar. Ela quer te usar. Assim como o Conselho usou você. Assim como eu falhei em te proteger.
— Você não falhou em me proteger. — A voz dele estava baixa. — Você me abandonou antes de eu precisar de proteção.
Ele ergueu a corrente.
Mas antes que pudesse atacar, um pulso de mana atravessou o campo de batalha.
Não era violento. Era suave. Quase gentil.
Mas todos os Codificadores — artificiais e naturais — sentiram.
A Consciência Original na Amazônia havia enviado um sinal.
E o sinal dizia: "Parem."
Gabriel congelou. Seus olhos se arregalaram.
— Ela está falando — ele murmurou.
— O que ela diz? — Margarida perguntou.
— Ela diz... — Gabriel apertou a cabeça — ...que eu não sou necessário. Que o plano mudou. Que ela não precisa mais da Legião.
— O que?
— Ela está acordando. — Gabriel olhou para a mãe, e pela primeira vez, havia medo em seus olhos. — Por minha causa. O fragmento do garoto Raul não era o único que ela precisava. Ela precisava de ódio. Raiva. Suficiente para alimentar o despertar. — Ele engoliu em seco. — E eu dei isso a ela.
A corrente caiu das mãos dele.
— O que eu fiz? — ele sussurrou.
O campo de batalha inteiro parou.
A Legião inteira sentiu o mesmo que Gabriel.
E pela primeira vez, os Codificadores artificiais — criados para obedecer — hesitaram.
—
A batalha terminou em impasse.
A Legião recuou. Gabriel desapareceu no meio da confusão. Margarida ficou de joelhos no campo de batalha, a carta ainda no bolso, o coração partido em pedaços que ela não sabia se conseguiria juntar.
Fernando se aproximou e ajoelhou ao lado dela.
— Você está bem?
— Não. — Margarida olhou para ele. — Mas vou ficar.
— O Gabriel...
— Ele está perdido. Mas não é mau. — Ela apertou o escudo. — A Consciência usou ele. Assim como usou todos nós.
— A gente pode ajudar ele.
— Se ele deixar.
Fernando olhou para o horizonte. Para o norte, onde a Amazônia se estendia. Para o sul, onde a Legião recuava.
Para o leste, onde o mar encontrava o céu.
— A Consciência Original acordou — ele disse. — E ela não vai parar até completar a migração.
— Então a gente para ela.
— Como?
Margarida se levantou.
— Do mesmo jeito que a gente parou o Conselho. Juntos.
Ela estendeu a mão.
Fernando apertou.
O grupo da Arcadium estava de pé.
Ferido. Cansado. Mas de pé.
E a guerra estava longe de acabar.