Capítulo 69 de 94
CAPÍTULO 69 — O FANTASMA DO PASSADO
Margarida encontrou o envelope debaixo da porta do seu quarto na manhã seguinte.
Não tinha remetente. Não tinha selo. Apenas o nome dela escrito em caligrafia firme: "Margarida".
Ela abriu com as mãos tremendo.
Dentro, uma fotografia.
Era antiga — o papel amarelado, as bordas desgastadas. Mostrava uma mulher jovem, de cabelos castanhos e olhos cansados, segurando um bebê envolto em um cobertor azul. A mulher era ela. O bebê era o filho que ela deu para adoção há 30 anos.
Margarida virou a foto. No verso, uma data e uma mensagem:
"22 de março de 1996. Ele está vivo. E ele quer te ver. MG — Base da Legião. Venha sozinha."
O chão pareceu sumir sob os pés dela.
— Gabriel — ela sussurrou.
Ela nunca tinha dado um nome a ele. Quando o entregou para adoção, ela pediu que a família escolhesse. Nunca soube qual nome deram. Gabriel. O nome que ela teria escolhido, se tivesse tido coragem.
— Margarida? — A voz de Bruno veio do corredor. — Tudo bem?
Ela escondeu a foto no bolso rapidamente.
— Tudo. Só cansaço.
Bruno franziu a testa, mas não perguntou mais.
—
Margarida passou o dia inteiro em silêncio.
Ela não contou para ninguém sobre a carta. Não contou sobre a foto. Não contou sobre o filho que ela nunca mencionou em todos os meses que passou com o grupo.
Como ela poderia? Eles confiavam nela. E aqui estava ela, escondendo um segredo que poderia mudar tudo.
Naquela noite, enquanto o grupo dormia, Margarida pegou o escudo, uma mochila com suprimentos mínimos e saiu pela porta dos fundos da Arcadium.
Ela não disse para onde ia.
Ela não disse se voltava.
—
A base da Legião em Minas Gerais ficava em uma antiga fábrica têxtil abandonada, na periferia de Juiz de Fora. Margarida chegou ao amanhecer, depois de uma viagem de ônibus de seis horas.
A fábrica era grande — três andares de concreto enferrujado, janelas quebradas, e um silêncio que não combinava com o tamanho da estrutura.
Mas ela sentia a mana. Muita mana. Codificadores artificiais, dezenas deles, espalhados pelos andares.
— Você veio.
A voz veio das costas dela.
Margarida se virou.
O homem era jovem — aparentava 25 anos, talvez 30. Cabelo castanho claro, olhos verdes, estatura mediana. Ele estava vestido com roupas simples — calça jeans, jaqueta de couro — e não carregava armas visíveis.
Mas seus olhos.
Margarida reconheceu aqueles olhos. Eram os olhos do pai dele. Eram os dela.
— Gabriel — ela disse.
— Mãe.
A palavra atravessou Margarida como uma lança. Ela sentiu os joelhos fraquejarem.
— Você está vivo — ela conseguiu dizer. — Todos esses anos, eu pensei que você...
— Que eu estava morto? — Gabriel terminou a frase. — O Conselho queria que você pensasse assim. Era mais fácil. Se você soubesse que eu estava vivo, poderia tentar me encontrar. E eles não queriam que você me encontrasse.
— Por que?
— Porque eu era útil para eles. — Gabriel deu um passo à frente. — O Conselho me treinou desde criança. Me transformou em arma. Me ensinou que o poder é a única coisa que importa. — Ele parou a dois metros de distância. — E eles estavam certos.
Margarida apertou o escudo.
— Você lidera a Legião.
— Lidero. — Gabriel não negou. — E em três dias, a Legião vai atacar São Paulo. A Arcadium vai cair. E eu quero que você esteja do lado certo quando isso acontecer.
— Do lado certo? — Margarida avançou. — Você está lutando ao lado de uma Consciência que quer escravizar a humanidade!
— Não. — A voz de Gabriel ficou mais dura. — Estou lutando ao lado do futuro. A Consciência Original vai abrir os portais. E do outro lado dos portais, existe um mundo inteiro esperando para ser conquistado. A humanidade não vai ser escravizada. A humanidade vai expandir.
— Isso é loucura.
— Isso é estratégia. — Gabriel virou as costas. — Você tem três dias, mãe. Pense sobre o que eu disse.
— Gabriel!
Ele parou.
— Por que você me chamou aqui? — Margarida perguntou, a voz trêmula. — Se você me odeia, por que me chamou?
Gabriel não virou.
— Eu não te odeio, mãe. — A voz dele estava diferente. Mais baixa. Menos dura. — Eu só queria que você visse o que eu me tornei. Para que você soubesse que, apesar de tudo, eu não me tornei uma pessoa má.
Ele entrou na fábrica e desapareceu nas sombras.
Margarida ficou sozinha no pátio, a foto ainda no bolso, o coração partido.
—
Ela voltou para São Paulo no mesmo dia.
Não contou para o grupo sobre o encontro. Não contou sobre Gabriel. Mas naquela noite, ela encontrou Fernando no telhado da Arcadium.
— Preciso te contar uma coisa. — Ela sentou ao lado dele. — Algo que devia ter contado há muito tempo.
Fernando ouviu em silêncio enquanto ela contava tudo — o filho que ela deu para adoção, o Conselho que o treinou, o encontro em Juiz de Fora.
Quando ela terminou, Fernando ficou em silêncio por um longo minuto.
— Você vai ter que escolher — ele disse finalmente.
— Escolher?
— Entre ele e o grupo. — Fernando virou para ela. — Se a Legião atacar, e o Gabriel estiver na linha de frente, você vai ter que decidir. E eu não vou poder ajudar você com essa escolha.
Margarida apertou as mãos.
— Eu sei.
Ela não dormiu naquela noite.
Nem na seguinte.
—