Capítulo 7 de 94
CAPÍTULO 7 — SORTE CEGA
A segunda-feira chegou como sempre chegava: com o som do despertador do celular, o cheiro de café passado na pressa, e a sensação de que ele nunca deveria ter voltado àquele escritório.
Fernando sentou em sua cadeira no 23º andar da Guilda Arcadium e ligou o monitor. Nove mensagens não lidas. Três convocações para reunião. Uma planilha atualizada de estoque para conferir.
Como se nada tivesse acontecido.
— Fernando! — A voz do Sr. Alves veio antes da batida na divisória. — Na sala do conselho. Agora.
Ele seguiu o gerente pelos corredores de vidro e aço escovado. Caçadores passavam por ele sem olhar. Como sempre.
Mas algo era diferente. Ele percebia agora.
Não era que eles o ignoravam. Era que ninguém o enxergava como uma ameaça. Na hierarquia da guilda, ele estava abaixo do radar. Invisível. Inofensivo.
Um trunfo que a criatura no túnel havia chamado de "esconder o que sabe".
A sala do conselho era pequena, com uma mesa de madeira escura e três cadeiras. Dois homens o aguardavam. Um era o supervisor de segurança do interrogatório pós-incidente. O outro era o homem de terno preto.
— Sente-se, senhor Andrade. — O supervisor indicou a cadeira. — Temos algumas perguntas finais sobre o incidente.
Fernando sentou. Manteve as mãos sobre a mesa. Respirou devagar.
— O relatório interno está quase concluído — o supervisor continuou. — Precisamos apenas confirmar alguns detalhes. O senhor disse que viu a cor do portal mudar antes do colapso?
— Sim. Azul para um tom violáceo.
— E não tocou em nada dentro da fenda? Nenhum cristal, nenhum resíduo?
— Só o chão. Caí de cara quando o prédio desabou.
O homem de terno preto não desviava o olhar. Seus olhos escaneavam Fernando como um leitor de código.
— O guerreiro Bruno Sousa — o homem de terno disse — apresentou uma recuperação incomum. Os médicos não esperavam que ele sobrevivesse. Muito menos que andasse em três dias.
— Fico feliz por ele.
— O senhor não acha estranho? Um guerreiro com núcleo fissurado, ferimento letal, se recupera sem sequelas?
Fernando sustentou o olhar. — Não sou médico. Sou avaliador de logística. Sei catalogar cristais, não milagres.
O homem de terno inclinou a cabeça, como se avaliasse a resposta. Depois de um longo silêncio, ele se levantou.
— Obrigado pela cooperação, senhor Andrade. Pode voltar ao trabalho.
Fernando saiu da sala com as pernas tremendo. Passou pelo corredor sem ver nada. Sentou na cadeira e encarou a planilha no monitor sem ler uma única linha.
Eles desconfiam. Mas não têm provas.
Ele abriu o sistema interno da guilda. Com seu acesso de avaliador, conseguia ver relatórios de missões, classificações de fendas, histórico de extração. Nada ultrassecreto — mas suficiente para notar padrões.
E o padrão estava ali.
Nos últimos seis meses, três fendas de Rank F haviam sido reclassificadas para Rank D após "análise secundária". Duas delas estavam na mesma região — Zona Sul de São Paulo, próximas a estações de metrô. A terceira era a do Shopping Dom Pedro.
Alguém estava rebaixando a classificação de portais perigosos. E enviando equipes despreparadas.
A pergunta era: por quê?
Ele salvou os dados em um pen drive — pequeno, discreto, escondido no bolso interno do paletó.
Não era mais só sobre o poder. Era sobre descobrir o jogo que estavam jogando com ele.
Naquela noite, Fernando não dormiu.
Ficou sentado na cama do seu conjugado, a interface dourada pulsando no canto da visão, o pen drive morno na mão.
— Sistema — ele disse em voz alta.
SIM, CODIFICADOR.
— Como você apareceu? De onde veio?
ORIGEM DESCONHECIDA. MEU CÓDIGO FOI ATIVADO POR SUA EXPOSIÇÃO AO COLAPSO DE MANA NA FENDA DO SHOPPING DOM PEDRO.
— Eu não tinha isso antes?
NEGATIVO. A CAPACIDADE DE ACESSAR O SISTEMA VITAL PARECE SER INATA EM UMA MINORIA DA POPULAÇÃO. MAS A ATIVAÇÃO REQUER UM GATILHO ESPECÍFICO — EXPOSIÇÃO A MANA DE ALTA DENSIDADE EM CONDIÇÕES DE ESTRESSE EXTREMO.
— Então não foi sorte. Foi condição.
CORRETO.
Fernando absorveu a informação. Não era um acidente. Era um despertar.
— Quantos como eu existem?
NÃO TENHO DADOS SUFICIENTES PARA CALCULAR. MAS SUA ESPÉCIE OS CHAMA DE... "CODIFICADORES".
Codificadores. Plural.
Ele não era o único.
A pergunta que ficava era: onde estavam os outros?