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CAPÍTULO 6 — DRENO FORÇADO

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Capítulo 6 de 94

CAPÍTULO 6 — DRENO FORÇADO


O "lugar do encontro" era uma lanchonete de beira de estrada, escondida entre depósitos de carga e oficinas mecânicas, a poucos quarteirões do Shopping Dom Pedro. Fernando chegou às 19:45, sentou em uma mesa de plástico no fundo do salão, e pediu um café que não pretendia beber.

Bruno apareceu às 20:03.

O guerreiro estava diferente. Não apenas fisicamente — embora a cicatriz no ombro ainda estivesse visível sob a camisa — mas na postura. Havia uma leveza em seus movimentos que não estava lá antes.

— Você está melhor — Fernando observou quando Bruno se sentou.

— Estou. — Bruno apoiou os cotovelos na mesa e inclinou o corpo para frente. — Os médicos disseram que minha recuperação foi "milagrosa". Disseram que o ferimento fechou sozinho, o que é impossível para uma lesão daquele tamanho. Disseram que eu tive sorte.

— E você não acredita neles.

— Não. — Bruno baixou a voz. — Eu vi o que você fez, Fernando. Antes de apagar. Eu vi suas mãos brilharem. Eu senti algo entrando em mim — algo que não era cura normal.

Fernando sustentou o olhar de Bruno por um longo momento. Uma conversa inteira aconteceu no silêncio entre os dois. Confiança. Medo. Necessidade.

— Você contou para alguém? — Fernando perguntou finalmente.

— Não.

— Por quê?

Bruno soltou uma risada curta, amarga. — Porque eu passei cinco anos sendo tratado como lixo pela guilda. Cinco anos vendo meu rank cair, meu núcleo rachar, minha dignidade ser moída em missões de merda. Você me salvou. E você fez algo que nenhum curandeiro da Arcadium conseguiu em meia década de tratamento.

Ele estendeu a mão sobre a mesa. Sua pele tinha um brilho saudável que Fernando não havia notado antes.

— Meu vazamento de mana diminuiu. Os médicos não sabem explicar. Mas eu sei. Foi você.

Fernando olhou para a mão de Bruno. Ela não tremia mais.

— Eu não sei exatamente o que fiz — ele confessou. — Foi instinto. Desespero. Eu vi seu status como se fosse uma planilha, arrastei uma linha para fora, e...

— E me salvou. — Bruno fechou a mão. — E agora você precisa me ensinar.

— Ensinar o quê?

— A fazer o que você fez. Ou pelo menos, a entender o que é.

Fernando balançou a cabeça. — Eu não sei se consigo ensinar. Eu nem sei como aconteceu. Foi só...

— Foi só o que?

UM DESPERTAR. O PRIMEIRO CONTATO ENTRE UM CODIFICADOR E O SISTEMA VITAL.

A voz silenciosa do sistema ecoou na mente de Fernando. Ele não tinha dito nada, mas Bruno o olhava como se esperasse uma resposta.

— Foi um despertar — Fernando disse, repetindo as palavras do sistema. — Pelo menos foi o que me chamaram.

— Te chamaram? Quem?

Fernando hesitou. A criatura no túnel. O aviso. O medo.

— Lá embaixo, quando você estava desmaiado, algo apareceu. Não era humano. Falou comigo. Disse que eu precisava esconder o que sei. Disse o que eu tinha feito... deixava rastros.

Bruno franziu a testa. — Algo não humano te deu conselhos?

— Eu sei como soa.

— Parece loucura. — Bruno se recostou na cadeira. — Mas considerando que você curou uma ferida fatal com as mãos brilhantes, estou disposto a aceitar algumas loucuras.

O guerreiro chamou o garçom e pediu dois cafés de verdade. Quando as xícaras chegaram, ele bebeu um gole longo antes de falar de novo.

— A guilda está mentindo. — A afirmação veio simples, direta. — Eu tive acesso aos relatórios internos. Aquele portal não era Rank F. A classificação foi alterada no sistema três dias antes do incidente.

— Alterada por quem?

— Não sei. O registro foi apagado. Mas alguém sabia que aquela fenda era perigosa. E mandou uma equipe de limpeza despreparada para lá.

Fernando sentiu um frio na espinha. — Eles nos usaram como isca?

— Como descarte. — Bruno apertou a xícara. — Se eu fosse paranóico, diria que queriam ver o que saía daquela fenda sem gastar caçadores de verdade.

— E o que saiu?

Os dois ficaram em silêncio. A resposta estava no que Fernando havia se tornado.

— Eu preciso de mais informação — Fernando disse finalmente. — Sobre o sistema, sobre o que eu posso fazer, sobre o que está escondido. Mas não posso fazer isso dentro da guilda. Eles vão me monitorar.

— Então a gente não faz dentro da guilda. — Bruno inclinou o corpo para frente. — Ainda tem uma dungeon aberta no subsolo do shopping. A Arcadium isolou o perímetro mas não selou a fenda. Disseram que vão "estudar" antes de fechar.

— Você quer voltar lá?

— Não. — Bruno sorriu. — Quero que você volte. Sozinho. Para testar.

Fernando sentiu o coração acelerar. A ideia era absurda. Perigosa. Ele era um avaliador de logística, não um caçador.

Mas a interface pulsava no canto da sua visão, faminta.

— Preciso de equipamento. Não vou enfrentar monstros com uma camisa social.

Bruno assentiu. — Conheço um lugar. Um ferreiro que trabalha fora do sistema da guilda. As peças dele são... digamos, criativas. Mas ele não trabalha para qualquer um.

— Por que ele trabalharia para mim?

— Porque você vai levar algo que ele nunca viu antes. — Bruno apontou para a cabeça de Fernando. — Um problema interessante.

Fernando respirou fundo.

— Quando?

— Amanhã. Te busco às 22h. — Bruno se levantou, jogou uma nota de vinte na mesa. — E, Fernando?

— Hm?

— Bem-vindo ao submundo.

O guerreiro virou as costas e saiu, desaparecendo na noite.

Fernando ficou sentado, o café esfriando na xícara, o brilho dourado pulsando suavemente em sua mão direita.

Amanhã, ele começaria a testar os limites do Root.


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