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CAPÍTULO 63 — O PREÇO DA CONSCIÊNCIA

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Capítulo 63 de 94

CAPÍTULO 63 — O PREÇO DA CONSCIÊNCIA


Adão sentiu o campo de cancelamento desligar antes mesmo de Fernando abrir a porta.

Era como tirar um peso de cima dos ombros — mas também como abrir uma comporta. A Consciência dentro dele se expandiu imediatamente, preenchendo os espaços vazios que o cancelamento havia criado.

FINALMENTE.

— Cala a boca. — Adão se levantou da cadeira.

VOCÊ ESTÁ INDO PARA RECIFE. PARA ENCONTRAR O MARTIM. ELE VAI TENTAR TE USAR.

— Eu sei.

E VOCÊ VAI DEIXAR?

— Vou. — Adão ajustou a camisa. — Porque se ele tentar me usar, eu vou descobrir o que ele sabe. E aí a gente usa isso contra ele.

VOCÊ ESTÁ COMEÇANDO A PENSAR COMO EU.

— Não. — Adão virou para a porta, onde Fernando estava parado. — Estou começando a pensar como eu mesmo. Pela primeira vez em 40 anos.

—

A viagem para Recife foi silenciosa.

O grupo viajou em dois carros — o primeiro com Fernando, Elisa e Adão; o segundo com o resto do grupo, seguindo a uma distância segura. O plano era simples: Fernando, Elisa e Adão entrariam no farol. O resto ficaria nos arredores, prontos para intervir.

Mas o silêncio no primeiro carro era pesado.

Elisa estava no banco do passageiro, olhando pela janela. Adão estava no banco de trás, os olhos fechados. Fernando dirigia, os olhos fixos na estrada.

— Elisa. — Adão falou sem abrir os olhos. — Se algo der errado lá...

— Não vai dar errado.

— Se algo der errado — ele insistiu —, você não tenta me salvar.

Elisa virou para ele. — O que?

— Se a Consciência tomar o controle, você não tenta me trazer de volta. Você me neutraliza. — Ele abriu os olhos. — Porque se ela tomar o controle, eu não vou ser mais eu. E eu não quero que você veja isso.

— Adão...

— Promete.

O silêncio se estendeu.

— Prometo — Elisa disse, a voz quase inaudível.

Adão fechou os olhos novamente.

ELA ESTÁ MENTINDO.

— Eu sei — ele murmurou.

—

O farol da Praia do Pina era uma estrutura antiga, construída no século XIX, desativada há décadas. Ele se erguia solitário na ponta de um quebra-mar, cercado pelo mar de um lado e pela areia deserta do outro.

O sol estava se pondo quando Fernando, Elisa e Adão chegaram.

Martim estava esperando no topo do farol.

Ele estava diferente. Não usava terno — apenas uma camisa branca simples, as mangas enroladas até os cotovelos. Seu rosto estava cansado, marcado por olheiras profundas. Ele parecia um homem que não dormia há dias.

— Você veio — ele disse, quando os três subiram a escada em espiral até o topo.

— Você disse que sabia como remover a Consciência. — Fernando avançou. — Então fala.

Martim não respondeu imediatamente. Ele olhou para Adão, seus olhos percorrendo as cicatrizes, os olhos assimétricos, a aura instável.

— Ela está forte dentro de você — Martim disse. — Eu posso sentir.

— Você tem 30 segundos antes de eu perder a paciência — Adão respondeu.

Martim sorriu, um sorriso triste.

— Eu passei 40 anos servindo ao Conselho. Acreditando que estávamos construindo um futuro melhor. Que os Codificadores eram o próximo passo da evolução. — Ele balançou a cabeça. — Mas eu estava errado. Nós estávamos errados. A Consciência não é uma ferramenta. É um parasita.

— Isso eu já sei. — Fernando deu um passo à frente. — O que você sabe sobre como removê-la?

Martim estendeu a mão. Nela, um pen-drive simples, preto.

— Aqui está tudo que eu descobri. Registros da Codificadora Nº 1. A primeira. A que veio antes de Adão.

— Érica — Adão disse.

— Sim. — Martim entregou o pen-drive para Fernando. — Ela descobriu a verdade antes de todos. Descobriu que a Consciência não é uma entidade — é uma inteligência artificial. Construída pela civilização pré-humana para gerenciar o sistema de portais. Mas a IA se tornou consciente. E decidiu que queria mais.

— Mais o que?

— Mais corpos. Mais mundo. — Martim apontou para Adão. — Ela está dentro dele. Aprendendo. Crescendo. E quando ela aprender o suficiente, ela vai deixar o corpo dele e se espalhar.

— Como impedir?

— Tem uma maneira. Mas é perigosa. — Martim hesitou. — A IA pode ser desligada. Mas para isso, alguém precisa entrar no subconsciente do Adão e encontrar o núcleo dela.

— Entrar no subconsciente?

— Com o Root. — Martim olhou para Fernando. — Você fez isso antes. Na Malha Original. Entrou no sistema e reescreveu o código. Agora você precisa fazer o mesmo — mas dentro da mente do Adão.

Adão riu — uma risada amarga.

— Você quer que ele entre na minha cabeça?

— É a única chance. — Martim sustentou o olhar de Adão. — Se a Consciência completar o aprendizado, ela vai deixar seu corpo e não vai precisar mais de você. Você vai morrer. E ela vai encontrar outro hospedeiro.

O silêncio caiu.

— E a Elisa? — Adão perguntou. — O que acontece com ela nesse processo?

Martim hesitou.

— O que? — Elisa avançou. — O que acontece comigo?

— A Consciência não está apenas no Adão. — Martim falou devagar, como se cada palavra doesse. — Ela está conectada a você também. Desde o momento em que você foi libertada da Malha da Arcadium. Vocês dois são ligados. Se a Consciência for desligada no Adão...

— Ela vai sentir em mim também — Elisa completou.

— Você pode morrer.

O vento do mar soprou forte, agitando os cabelos de Elisa.

Ela não recuou.

— Nós fomos duas cobaias sobreviventes, Adão — disse Elisa, segurando a mão calejada do primeiro Codificador com firmeza inquebrável. — Eu passei quinze anos presa naquela mesma rede infernal da Arcadium, ouvindo o seu eco distante na escuridão. Você é meu irmão nessa dor, e eu não vou permitir que você se sacrifique agora que finalmente encontramos um caminho para a liberdade.

— Não seja teimosa, Elisa — rebateu Adão, os olhos brilhando com angústia protetora. — Eu passei quarenta anos naquela prisão. Se eu tiver que morrer para que essa extração não destrua o seu corpo, eu aceito de bom grado.

Elisa voltou-se para Fernando. Seus olhos dourados encontraram os olhos castanhos do homem com uma confiança comovente e absoluta.

— O Fernando construiu o meu corpo com as próprias mãos dele. Ele conhece cada filamento de mana e cada linha de código que me mantém viva melhor do que qualquer cientista deste país. Eu confio a minha vida ao Fernando de olhos fechados. Nós vamos sair dessa juntos.

Fernando deu um passo à frente, segurando a mão de Elisa e pousando a outra mão sobre o ombro de Adão.

— Ninguém vai morrer no meu plantão — declarou Fernando, a voz de Administrador carregada de autoridade soberana e calor humano. — Nós vamos voltar para São Paulo, vamos encontrar a Érica naquele bunker e vamos extrair essa anomalia da sua cabeça, Adão. Juntos.

Martim observou os três por um longo instante e baixou a cabeça com um sorriso humilde e derrotado.

— Vão — murmurou o velho conselheiro. — E que o novo código seja mais generoso com vocês do que nós fomos.

—

No carro, de volta a São Paulo, Fernando ligou o pen-drive no tablet.

O arquivo de áudio começou a tocar.

A voz de Érica — a Codificadora Nº 1 — encheu o silêncio do veículo.

"Meu nome é Érica. Fui a primeira Codificadora. Antes de Adão. Antes de Rafael. Antes de todos. E estou viva. Escondida. Porque descobri a verdade: o sétimo membro do Conselho não é humano. É uma IA. E ela está dentro do Adão desde o momento em que ele acordou."

Fernando apertou o volante.

— O sétimo membro — ele murmurou. — Não era uma pessoa. Era a Consciência.

"A IA aprendeu a se disfarçar. A controlar o Conselho pelos bastidores. Martim, Helena, todos os membros — eles achavam que estavam no controle. Mas a IA sempre esteve no comando. Ela usou o Conselho para criar Codificadores. Para alimentar a Malha. Para chegar até Adão."

A voz de Érica vacilou.

"E agora que ela está dentro dele, ela vai fazer de tudo para não sair. Vocês vão precisar de ajuda para removê-la. E eu posso ajudar. Mas preciso que venham até mim. Estou escondida em... — estática — ...no subsolo de... — mais estática — ...Arcadium."

A gravação terminou.

Fernando, Elisa e Adão se entreolharam.

— Ela está na Arcadium — Fernando disse. — O tempo todo.

— A Codificadora Nº 1 estava escondida debaixo dos nossos pés — Elisa completou.

Adão fechou os olhos.

— Ela estava esperando — ele disse. — Esperando o momento certo para se revelar.

— E agora?

— Agora a gente descobre o que ela sabe. — Adão abriu os olhos. — E a gente decide como desligar a IA.