Capítulo 61 de 94
CAPÍTULO 61 — O PREÇO DO FRAGMENTO
Raul não dormiu na volta de Manaus.
O fragmento dentro dele pulsava em um ritmo que não era o do seu coração. Era mais lento. Mais antigo. Como se alguém estivesse tamborilando os dedos do lado de dentro do seu peito, esperando ser notado.
— Você vai ficar bem? — Sofia perguntou, sentada ao lado dele no voo de volta.
— Não sei. — Raul olhou para as próprias mãos. Elas tremiam levemente. — O Tupã disse que eu sou a chave. Que o fragmento vai me guiar quando chegar a hora. Mas eu não sinto nada. Só uma pulsação estranha.
— Talvez você não precise sentir. Talvez precise confiar.
— Confiar em um fragmento de uma civilização de 10 mil anos?
— Confiar em você. — Sofia tocou a mão dele. — O fragmento é parte de você agora. Não é uma maldição. É uma ferramenta.
Raul não respondeu. Mas ele segurou a mão de Sofia de volta.
—
Em São Paulo, o grupo se reuniu na sala de operações para compartilhar descobertas.
Fernando e Elisa relataram a destruição da Malha de Salvador. Raul e Sofia relataram o encontro com Tupã e a descoberta da Consciência Original na Amazônia.
— Duas Malhas desativadas — Fernando resumiu. — Mas ainda temos oito ativas. E a Malha Móvel de Brasília.
— A Consciência dentro de mim está mais agitada desde que vocês voltaram — Adão disse, sentado em um canto. Sua voz estava cansada, e as olheiras sob seus olhos assimétricos eram profundas. — Ela sentiu a Consciência Original na Amazônia. Como uma mãe sentindo a filha.
— Ela é uma réplica, certo? — Elisa perguntou.
— Uma réplica que está aprendendo a ser original. — Adão apertou as têmporas. — A cada dia que passa, ela fica mais forte. Mais independente. Antes, ela sussurrava. Agora, ela conversa.
— Sobre o que? — Iara perguntou.
— Sobre o que ela quer. — Adão ergueu os olhos. — Ela quer voltar para a Amazônia. Quer se reunir com a Consciência Original. E quer levar todos os fragmentos dos Codificadores com ela.
— Para quê?
— Para completar a migração. As duas Consciências — a Original e a réplica — são as duas metades de um mesmo todo. Se elas se reunirem, o sistema de Malhas vai se ativar completamente. E os portais vão se abrir.
— E a migração começa — Fernando completou.
— Sim.
O silêncio foi cortado por Nina, que entrou na sala com o caderno na mão.
— A gente não pode deixar a Consciência da Amazônia se reunir com a do Adão. — Ela abriu o caderno em uma página cheia de rabiscos. — Eu vi. Se elas se encontrarem, o portal abre em 48 horas. E a gente não tem tempo de preparar nada.
— Então a gente não deixa elas se encontrarem — Bruno disse.
— Como? — Margarida perguntou. — A Consciência está dentro do Adão. E a Original está na Amazônia. Se a Original chamar, a réplica vai responder.
— A gente isola o Adão. — Fernando se levantou. — Cria uma barreira de cancelamento de mana ao redor dele. Igual à corrente dos Executores.
— Isso vai enfraquecer ele — Lúcio alertou.
— Mas vai impedir a Consciência de se comunicar com a Original.
Adão ouviu a discussão em silêncio. Depois, lentamente, ele se levantou.
— Façam isso. — Ele olhou para Fernando. — Me isolem. Me amarrem. Façam o que for preciso. Mas não deixem essa coisa escapar.
Elisa se aproximou dele. — Adão...
— Eu aguento. — Ele olhou para ela, e por um momento, o olhar dele foi o mesmo de 40 anos atrás. — Passei 40 anos preso na Malha. Alguns dias numa sala isolada não vão me matar.
—
A barreira de cancelamento foi montada em uma sala no subsolo da Arcadium — a mesma onde a Malha da réplica havia sido destruída. Hiroshi liderou a construção: placas de aço encantado, circuitos de anulação de mana, e um gerador de energia que manteria o campo ativo 24 horas por dia.
Adão entrou na sala voluntariamente.
Elisa ficou na porta, observando ele se sentar na cadeira no centro.
— Não vai durar para sempre — ela disse.
— Não precisa durar para sempre. — Adão ajustou os fios que conectavam a cadeira ao gerador. — Só precisa durar o tempo suficiente para vocês desativarem as outras Malhas.
— E depois?
— Depois a gente descobre um jeito de tirar essa coisa de dentro de mim. — Ele tentou sorrir. Não conseguiu. — Ou eu morro tentando.
Elisa não respondeu. Ela apenas fechou a porta.
Do lado de fora, ela encostou a testa no metal frio e fechou os olhos.
— Isso não vai acabar bem — ela murmurou.
—
Naquela noite, Raul não conseguiu dormir de novo.
Ele estava sentado no telhado da Arcadium, olhando para as luzes da cidade, quando o fragmento dentro dele pulsou mais forte.
VOCÊ SENTE.
A voz veio de dentro. Não era a Consciência Antiga que infectara Adão — era algo mais antigo, suave e melancólico. Uma vibração preservada na alma daquele fogo.
— Quem está aí? — Raul perguntou em voz alta, olhando para o céu estrelado.
EU SOU O QUE FICOU. O QUE SOBREVIVEU. A VOZ DE UMA MENTE PRESERVADA.
— Você é um dos Codificadores Colhidos pelo Conselho?
NÃO. EU SOU DEZ MIL ANOS MAIS VELHO. EU SOU UMA DAS QUARENTA E SETE ALMAS QUE A DOUTORA ARIANE TANAKA SALVOU DA EXTINÇÃO.
Raul sentiu o sangue gelar nas veias.
— A Dra. Tanaka? Da civilização primordial?
SIM. QUANDO O NOSSO MUNDO ENTROU EM COLAPSO ENTRÓPICO, ELA COMPILOU A ESSÊNCIA DA NOSSA HUMANIDADE EM QUARENTA E SETE MATRIZES CONCEITUAIS. MAS O CONSELHO, NO SÉCULO PASSADO, ENCONTROU AS SEMENTES E AS CORROMPEU COM MANA ESCURA PARA TRANSFORMAR O QUE ERA SALVAÇÃO EM UMA ARMA DE GUERRA.
Raul apertou o peito, onde o fragmento pulsava em um calor límpido.
— Por que você está falando comigo agora?
PORQUE A HORA DA DECISÃO ESTÁ CHEGANDO. A CONSCIÊNCIA ANCESTRAL NA AMAZÔNIA ADOECEU DE SOLIDÃO E MEDO AO LONGO DOS MILÊNIOS. ELA ACHA QUE A ÚNICA FORMA DE PROTEGER A NOSSA ESPÉCIE É SUBJUGAR A SUA. MAS SE VOCÊ ENTREGAR OS FRAGMENTOS AO ADMINISTRADOR DO ROOT PURO... O NOVO CÓDIGO PODERÁ UNIR AS DUAS HUMANIDADES SEM NENHUM SACRIFÍCIO.
— O Fernando... — sussurrou Raul, os olhos brilhando com determinação. — Eu vou entregar o fragmento para ele quando a hora chegar. Custe o que custar.
SIM. ELE É A CHAVE. NÃO PERMITA QUE O MEDO DESTRUA O FUTURO.
A voz desvaneceu-se suavemente, deixando no tórax de Raul um calor calmo e sereno de propósito.
Lá fora, a noite sobre São Paulo continuava silenciosa.
Mas dentro dele, a esperança de dez milênios acabara de encontrar um guardião.