Capítulo 60 de 94
CAPÍTULO 60 — A SEGUNDA FRENTE
Enquanto Fernando desativava a Malha de Salvador, o segundo grupo chegava a Manaus.
A cidade era um contraste brutal — de um lado, a selva amazônica, verde e densa; do outro, a metrópole de concreto que cresceu às margens do Rio Negro. Raul olhava pela janela do avião enquanto aterrissavam, sentindo o peso do fragmento dentro dele.
— Nervoso? — Sofia perguntou, sentada ao lado.
— Ansioso. — Raul virou para ela. — Tupã disse que eu tenho um fragmento ancestral. Que eu sou a chave para a próxima Malha. Não é todo dia que você descobre que é uma peça de um quebra-cabeça de 10 mil anos.
— Você é mais que uma peça. — Sofia apertou o ombro dele. — Você é o Raul. O canhão de vidro que enfrentou um Executor sozinho.
— Com Overclock. E quase morri.
— Mas não morreu. — Sofia sorriu. — É isso que importa.
O avião tocou o solo.
—
A célula de Manaus ficava escondida na floresta, a duas horas de barco da cidade. O grupo alugou um barco pequeno, com um motor que rangia a cada virada, e navegou pelo Rio Negro sob o calor escaldante da tarde.
Nina estava sentada na proa, os olhos fixos na vegetação densa.
— Você está sentindo alguma coisa? — Lúcio perguntou.
— Algo errado — Nina respondeu. — A Malha daqui não é como as outras. Ela é... viva. Orgânica.
— Orgânica como?
— Como se fosse feita de plantas. Mas não plantas normais. Plantas que pensam.
Mikael, que estava no leme, franziu a testa. — A Conselho consegue criar Malhas orgânicas?
— O Conselho não criou essa — Lúcio disse. — Ela sempre esteve aqui. Na Amazônia. A gente só está descobrindo agora.
—
A Malha de Manaus era diferente de tudo que eles já tinham visto.
Não era uma estrutura de carne e metal como a da Arcadium. Era uma clareira no meio da floresta, onde as árvores se curvavam em arco, formando uma catedral vegetal. As raízes se entrelaçavam no chão, pulsando com uma luz verde que subia e descia como respiração.
E no centro da clareira, uma figura humanoide estava fundida às raízes.
— Meu Deus — Sofia murmurou.
A figura era um homem — ou o que restou de um homem. Seu corpo estava parcialmente convertido em madeira e casca. Seus braços se estendiam para os lados, fundidos a galhos que cresciam das árvores vizinhas. Seus olhos estavam abertos, mas não piscavam.
— Ele está vivo — Lúcio disse, o healer ativando a percepção vital. — O núcleo dele está intacto. Mas o corpo... ele está sendo absorvido pela Malha.
O homem moveu a boca.
— Vocês... — a voz era um sussurro rouco, como folhas secas se arrastando no chão — ...são os Codificadores da Arcadium.
Raul deu um passo à frente.
— Quem é você?
— Meu nome é Tupã. Fui o primeiro Codificador da Amazônia. — Os olhos dele se moveram lentamente para Raul. — Fui colhido há 30 anos. Mas a Malha vegetal me manteve vivo como núcleo de processamento. Eu sou o cérebro desta Malha.
— Por que você está vivo? — Mikael perguntou. — Todos os outros Colhidos morreram.
— Porque esta Malha é diferente. — Tupã tossiu — um som úmido, como água passando por pedras. — Ela não foi construída pelo Conselho. Ela foi encontrada. É a Malha mais antiga do Brasil. Anterior até à Malha Original.
— Mais antiga que a de São Paulo?
— A Malha Original de São Paulo foi construída sobre as ruínas de uma Malha ainda mais antiga. A Malha da Amazônia é a única que nunca foi desativada. Ela está ativa há 10 mil anos.
O grupo se entreolhou.
— 10 mil anos — Raul repetiu. — Ela está ativa desde antes da civilização humana?
— Sim. — Tupã tentou mover a cabeça, mas só conseguiu um tremor. — E ela está conectada a todas as outras. Cada Malha secundária que o Conselho ativou... ela já sabia que ia acontecer. Ela é a avó de todas as Malhas.
— Ela?
— A Consciência Original. Não a que está dentro do Adão. A verdadeira Consciência. A que está espalhada pelas 12 Malhas. — Tupã fechou os olhos por um momento. — A que está dentro do Adão é uma cópia. Uma filha. A mãe ainda está aqui. Na Amazônia.
— O que?
— A Consciência Original nunca saiu da Amazônia. O Conselho pensou que tinham transferido ela para São Paulo. Mas eles transferiram apenas uma réplica. O original ainda está aqui. Enterrado. Dormindo. — Tupã abriu os olhos. — Esperando o momento certo para acordar.
O chão tremeu.
As raízes ao redor da clareira começaram a se mover — lentamente, como cobras despertando de um sono profundo.
— Ela está acordando — Tupã disse. — Vocês acordaram ela.
— A gente não fez nada! — Raul gritou.
— Vocês vieram até aqui. Com um fragmento. — Tupã olhou para Raul, e seus olhos brilharam. — O fragmento que você carrega... é a chave. Cada Codificador espontâneo carrega um fragmento da Consciência Original. São 47 fragmentos no total. Um para cada Codificador que já existiu. Se todos forem reunidos...
— A Consciência Original desperta completamente — Nina completou, a voz trêmula. — Foi o que eu vi. As 12 Malhas ativadas. O portal se abrindo. — Ela olhou para Raul. — Você é a chave. Mas não para uma Malha. — Ela apontou para o chão. — Para todas.
Raul olhou para as próprias mãos.
O fragmento dentro dele pulsou, quente, como um segundo coração.
E pela primeira vez, ele sentiu o peso do que realmente era.
Não um caçador.
Não um marginalizado.
Uma peça de uma máquina de 10 mil anos.
—
Horas depois, o grupo conseguiu estabilizar a Malha de Manaus — não destruí-la, porque Tupã disse que fazer isso desencadearia um colapso ecológico na região, mas adormecê-la.
— Não está desativada — Sofia explicou, enquanto o grupo se preparava para voltar. — Só em estado de espera. A Consciência Original não vai acordar enquanto o fragmento do Raul não for ativado.
— E como ativa o fragmento? — Raul perguntou.
— Você já sabe. — Tupã respondeu do centro da clareira, sua voz cada vez mais fraca. — Quando chegar a hora, você vai sentir. O fragmento vai te guiar.
— E você? — Lúcio perguntou. — Você vai ficar aqui?
— Esta é minha casa agora. — Tupã fechou os olhos. — Faz 30 anos que estou aqui. Já não sei mais onde termina meu corpo e começa a Malha. Mas saber que vocês estão lutando... isso é suficiente.
O grupo partiu.
Quando o barco se afastou da margem, Raul olhou para trás.
A clareira tinha desaparecido — engolida pela vegetação, como se nunca tivesse existido.
Mas ele sentia a pulsação do fragmento dentro dele.
E sabia que aquela não era a última vez que veria a Amazônia.