Capítulo 59 de 94
CAPÍTULO 59 — O QUE JÁ EXISTIA
De volta a São Paulo, os dados do tablet foram desencriptados por Sofia e Iara em uma maratona de 12 horas de trabalho contínuo.
O que encontraram mudou tudo.
— Isso não é uma base de dados do Conselho — Sofia disse, a voz rouca de café e esforço. — É um arquivo arqueológico. Registros de escavações feitas nos portais brasileiros desde 1978.
— Escavações de que? — Fernando perguntou.
— De ruínas. — Sofia girou o monitor para que todos pudessem ver. — As Malhas não foram construídas pelo Conselho. Elas foram encontradas. Enterradas debaixo do solo brasileiro, em pontos específicos do território.
Na tela, imagens granuladas mostravam estruturas subterrâneas — paredes de pedra cobertas de símbolos, túneis que desciam muito além do que qualquer máquina de escavação humana poderia alcançar, e no centro de cada ruína, um núcleo de cristal idêntico ao que Fernando havia visto na Malha Original.
— A civilização pré-humana — Margarida murmurou.
— Sim. — Iara ampliou uma das imagens. — Mas olha só o que eles encontraram junto com as ruínas.
A imagem mostrava um esqueleto. Não humano — o crânio era alongado demais, a caixa torácica tinha uma estrutura diferente, os ossos dos dedos eram mais longos.
— Os corpos dos construtores — Elisa completou. — Eles não eram humanos.
— E a Consciência? — Adão perguntou. Ele estava sentado em um canto, os olhos semi-cerrados, ouvindo a Consciência dentro dele.
— A Consciência é o que restou da inteligência deles — Iara respondeu. — Quando a civilização deles desapareceu — seja lá o que aconteceu —, a consciência coletiva deles ficou presa no sistema de Malhas. Como um backup digital de uma espécie inteira.
O silêncio caiu.
— Então a Consciência Antiga não é uma entidade maligna — Lúcio disse. — É uma... sobrevivente.
— Uma sobrevivente que quer reabrir os portais para o mundo de origem dela — Fernando completou. — E para fazer isso, ela precisa de energia vital. Energia de Codificadores.
— Não — Adão interrompeu, a voz distante. Os olhos dele estavam vidrados, como se estivesse vendo algo que os outros não viam. — Não é só energia que ela quer.
— O que ela quer, então?
Adão virou para Fernando. Seu olho violeta brilhava.
— Ela quer corpos. A civilização pré-humana não desapareceu. Ela migrou. Eles construíram as Malhas como um sistema de transporte interdimensional. Mas algo deu errado no processo. Eles ficaram presos no meio do caminho — entre dimensões. A Consciência é o que restou da mente deles. E os portais são as portas que eles precisam reabrir para completar a migração.
— Completar a migração para onde? — Elisa perguntou.
Adão apontou para o chão.
— Para aqui. Para o nosso mundo.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que já pairou sobre a sala de operações.
— E os Codificadores Colhidos? — Fernando perguntou, a voz baixa. — Eles são o que?
— O combustível — Adão respondeu. — Cada Codificador Colhido tem sua energia vital usada para alimentar o sistema de migração. É por isso que 31 Codificadores morreram em 40 anos. Eles não foram assassinados. Foram consumidos.
— Pela Consciência.
— Pela civilização inteira.
— Tudo isso — Nina disse, a voz pequena — é uma operação de resgate de uma espécie inteira.
— Sim. — Adão sustentou o olhar dela. — E a gente está no meio dela.
—
Naquela noite, Nina teve a visão.
Ela estava dormindo em uma das salas adaptadas da Arcadium quando o sonho veio — não um sonho comum, mas uma onda de probabilidade que a envolveu como uma correnteza invisível.
Ela viu as doze Malhas.
Não desativadas.
Ativas.
Cada uma pulsando em sincronia, como doze corações batendo no mesmo ritmo.
Ela viu o portal se abrir — não em São Paulo, mas em todos os lugares ao mesmo tempo. Uma fenda no céu que se estendia de horizonte a horizonte.
Ela viu o que estava do outro lado.
Não monstros.
Não guerreiros.
Cidades.
Arranha-céus de cristal e metal que desafiavam a gravidade. Pontes de luz que conectavam continentes. Uma civilização que brilhava como uma constelação viva.
E então a visão mudou.
Ela viu Fernando. De pé no centro do portal. Sozinho. Com as mãos estendidas para os dois lados — uma segurando o braço de Adão, a outra segurando o braço de Elisa.
Ela viu a escolha.
Dessa vez, o final estava claro.
Fernando soltou um dos braços.
A figura solta caiu no vazio do portal.
E Nina acordou gritando.
—
— Você está bem? — Fernando estava ao lado dela, segurando seus ombros.
Nina estava ofegante, o suor escorrendo pelo rosto, as mãos tremendo.
— A visão — ela conseguiu dizer. — A da escolha. Eu vi o final.
— O final?
— Você solta um deles. — Os olhos dela encontraram os dele. — E o outro cai.
Fernando não respondeu.
Ele apenas ficou ali, segurando os ombros de Nina, enquanto a madrugada avançava sobre São Paulo.
E a escolha se aproximava.