Capítulo 5 de 94
CAPÍTULO 5 — SOB OS ESCOMBROS
As horas seguintes foram um borrão de holofotes, macas e perguntas repetitivas.
A equipe de resgate da Guilda Arcadium chegou com a eficiência de quem já havia feito aquilo centenas de vezes. Iscaram os corpos dos membros da equipe de limpeza. Isolaram o perímetro. Estabilizaram Bruno e o levaram para a enfermaria da guilda.
Fernando foi submetido a três interrogatórios diferentes.
O primeiro foi de um paramédico, que verificou seus sinais vitais e declarou que ele estava "milagrosamente ileso".
O segundo foi de um supervisor de segurança, que quis saber "exatamente" o que ele tinha visto.
— Você estava no subsolo quando o portal rompeu — o supervisor insistiu. — Viu alguma coisa anormal?
— Tudo era anormal — Fernando respondeu, mantendo a voz neutra. — As criaturas eram diferentes de qualquer coisa que eu já cataloguei. Maiores. Mais agressivas. A cor do portal mudou antes do colapso.
O supervisor anotou tudo, o rosto ilegível.
O terceiro interrogatório foi o mais estranho. Um homem de terno preto, sem crachá, que apareceu na sala de espera e se sentou ao lado de Fernando como se fossem velhos amigos.
— Você teve contato com alguma substância estranha lá embaixo? — o homem perguntou, sem se apresentar.
— Poeira. Sangue. Mana residual.
— E sentiu alguma coisa? Tontura, zumbido no ouvido, visão dupla?
Fernando pensou no brilho dourado. Nas linhas de código. Na criatura que falou com ele no túnel.
— Nada. Só medo.
O homem de preto o estudou por um longo momento. Depois se levantou.
— Fique à disposição. Podemos ter mais perguntas.
Ele saiu sem dizer mais nada.
Fernando ficou sentado na cadeira de plástico, observando o movimento no corredor. Caçadores entravam e saíam da enfermaria. Equipes de limpeza discutiam sobre logística. Ninguém olhava para ele.
Como sempre.
Mas agora, pela primeira vez, Fernando preferia assim.
Ele foi liberado três horas depois. A guilda deu uma semana de licença médica — "para se recuperar do trauma" — e um pagamento adicional de compensação. Ninguém mencionou o estranho comportamento do portal. Ninguém mencionou os monstros de classe superior que não deveriam estar lá.
No relatório oficial, o incidente foi classificado como "Anomalia de Fenda Grau II — Colapso Estrutural Induzido por Saturação de Mana".
Culparam a saturação do ambiente.
Fernando leu o relatório no conforto do seu apartamento, um conjugado apertado no bairro do Bom Retiro, e sentiu algo que não sentia há muito tempo.
Raiva.
Ele sabia. Sabia que aquilo não era saturação de mana. Sabia que algo estava errado com aquela fenda. Sabia que a criatura no túnel não era fruto da sua imaginação.
Mas a guilda estava encobrindo.
E ele era apenas o avaliador. Invisível. Descartável.
Por três dias, Fernando ficou em casa. Não respondeu mensagens. Não atendeu ligações. Ficou encarando o teto, tentando entender o que havia acontecido.
E, nos momentos mais silenciosos, quando o prédio inteiro parecia dormir, ele estendia a mão e tentava.
No primeiro dia, nada.
No segundo dia, um leve formigamento na ponta dos dedos.
No terceiro dia, às 3 da manhã, o painel apareceu.
INTERFACE DE ADMINISTRAÇÃO VITAL: ONLINE. CONECTADO.
Dessa vez, sem emergência. Sem desespero. Apenas Fernando e o sistema.
Ele passou a madrugada explorando.
A interface era composta de camadas. A primeira mostrava seu próprio status:
NOME: FERNANDO A.] [IDADE: 32] [CLASSIFICAÇÃO: NÃO-CAÇADOR] [MANA PESSOAL: 23] [ENERGIA VITAL: 100%] [ACESSO: ROOT — ATIVO
Abaixo, um menu com opções:
EDITAR STATUS] [ANALISAR ALVO] [DRENAR FONTE] [ACESSAR SISTEMA HOST] [CONFIGURAÇÕES
Ele clicou mentalmente em [EDITAR STATUS].
SELECIONE O CAMPO A SER EDITADO:
— Eu posso me editar? — murmurou.
SIM. RECOMENDA-SE CAUTELA. EDIÇÕES NO PRÓPRIO SISTEMA VITAL TÊM EFEITOS IMEDIATOS E NEM SEMPRE PREVISÍVEIS.
Fernando hesitou. A tentação era imensa. Aumentar a mana. Melhorar o físico. Tornar-se algo que ninguém esperava.
Mas o aviso da criatura ecoou: Cada edição feita sem preparo deixa um rastro.
Ele fechou o menu.
— Depois. Preciso entender primeiro.
Ele olhou pela janela do apartamento. A cidade ainda dormia. Os arranha-céus das guildas brilhavam ao longe — a Arcadium entre eles, imponente, cheia de segredos.
O telefone vibrou. Uma mensagem de Bruno:
"Tô vivo. Precisamos conversar. Amanhã, 20h, onde a gente se encontrou da primeira vez. Vem sozinho."
Fernando leu a mensagem três vezes.
Bruno sabia. Não sabia exatamente o que Fernando tinha feito, mas sabia que algo havia acontecido. Algo que não era "sorte".
O painel de administração ainda pulsava no canto da sua visão, esperando.
Fernando sorriu — um sorriso sem humor, sem alegria, mas cheio de determinação.
— Tá bom, Brunão. Vamos conversar.