Capítulo 58 de 94
CAPÍTULO 58 — A PRIMEIRA CÉLULA
Salvador cheirava a dendê, suor e mana queimada.
Fernando sentiu o cheiro assim que desceu do carro — um veículo descaracterizado que Iara havia providenciado, com placas frias e documentos falsos. A cidade era um contraste de cores: o azul do céu, o branco das construções coloniais, o dourado da luz do sol refletindo no mar.
Mas debaixo da beleza, algo pulsava.
— A Malha fica no subsolo do Pelourinho — Bruno disse, consultando o mapa que Adão havia transmitido mentalmente. — Escondida em uma antiga igreja desativada.
— Igreja de novo — Margarida murmurou. — Esses caras têm fetiche por lugar sagrado.
— É simbólico — Elisa respondeu. — A Consciência se alimenta de fé. Colocar a Malha debaixo de uma igreja é uma forma de usar a energia espiritual do local como escudo.
— Ou de profanar — Fernando completou.
O grupo se infiltrou na cidade. Bruno e Margarida na frente, como um casal de turistas desavisados. Fernando e Elisa atrás, usando a visão de mana para mapear os arredores.
A igreja era pequena, com a fachada desgastada pelo tempo. Uma placa na porta anunciava "FECHADO PARA RESTAURO". Mas os selos de mana nas frestas da porta contavam outra história.
— Está protegida — Elisa disse. — Três camadas. A primeira é uma barreira física — armadilhas. A segunda é uma barreira de mana — alerta se alguém com Root passar. A terceira é...
— É o quê?
— É viva. — Elisa franziu a testa. — A Malha está usando a fé residual do local como sistema de alarme. Se a gente tentar violar a barreira, a Consciência localizada aqui vai sentir.
— A Consciência localizada?
— Cada Malha secundária tem um fragmento da Consciência Original. É como se fossem... filhas. — Ela olhou para Fernando. — A Consciência que está dentro do Adão é a mãe. As outras são cópias imperfeitas.
— Então a gente não pode simplesmente violar a entrada.
— Não. — Elisa apontou para uma janela lateral, no segundo andar. — Mas a gente pode entrar por cima. A proteção é mais fraca perto do telhado.
O plano foi ajustado em segundos.
Bruno e Margarida criariam uma distração na porta principal — barulho suficiente para atrair a atenção dos guardas internos. Fernando e Elisa entrariam pelo telhado, silenciosamente, e iriam direto para o subsolo.
—
A entrada pelo telhado foi mais fácil do que Fernando esperava.
As telhas estavam soltas, e ele as removeu com cuidado, criando uma abertura grande o suficiente para descer. O interior da igreja estava escuro, iluminado apenas por velas que queimavam em suportes de ferro — não velas comuns, mas velas de mana, que exalavam uma fumaça azulada e densa.
— O altar — Elisa sussurrou, apontando para a frente da igreja.
O altar havia sido removido. No lugar dele, um buraco escuro descia para o subsolo.
— Lá embaixo.
Eles desceram.
A câmara era menor que a da Catedral da Sé, mas igualmente perturbadora. A Malha de Salvador era uma estrutura de carne e metal, pulsando com uma luz alaranjada — diferente do violeta da Malha Original. As paredes ao redor estavam cobertas de símbolos gravados, escritos em uma língua que Fernando não reconhecia.
E no centro da câmara, três figuras os esperavam.
Não eram Executores. Eram Codificadores.
Mas não como os que Fernando conhecia. Esses tinham os olhos vazios, a pele marcada por linhas brilhantes que subiam do pescoço até as têmporas. Codificadores artificiais — criados em laboratório pelo Conselho.
— O Administrador — o Codificador do centro disse, a voz mecânica. — Martim avisou que você viria.
— Martim avisa muitas coisas. — Fernando ativou o Root — reduzido, mas presente. — E geralmente está errado.
O combate começou.
Os Codificadores artificiais eram rápidos, fortes, e não sentiam dor. Mas eram previsíveis — usavam sempre os mesmos padrões de ataque, as mesmas sequências de edição. Em três minutos, Elisa havia neutralizado dois. Fernando imobilizou o terceiro com uma edição de restrição muscular.
— Depressa — ele disse, correndo para o centro da Malha. — Preciso desativar isso antes que os guardas cheguem.
Ele colocou as mãos sobre a Malha. O Root ativou.
MALHA SECUNDÁRIA — SALVADOR. STATUS: ATIVA. CONEXÃO: 8/12 NÓS ATIVOS.
— Oito nós ativos — Fernando repetiu. — Faltam quatro.
RECOMENDO DESATIVAÇÃO POR REESCRITA DE CÓDIGO. NÍVEL DE DIFICULDADE: ALTO. MANA DISPONÍVEL: 9/23.
— Não tenho mana suficiente para reescrever.
— Então destrói — Elisa disse.
— Destruir uma Malha pode causar um colapso de mana no subsolo. A igreja pode desabar.
— A igreja já está condenada. — Elisa apontou para as rachaduras nas paredes. — O Conselho não planejava manter isso aqui por muito tempo.
Fernando rangeu os dentes. Ela estava certa.
Ele canalizou toda a mana que tinha para as mãos e puxou — não para reescrever, mas para romper. Os fios de código da Malha se partiram como cordas esticadas demais. A luz alaranjada vacilou. A estrutura começou a tremer.
— Vamos! — Elisa puxou Fernando pelo braço.
Eles correram.
A igreja desabou atrás deles quando chegaram à superfície, uma nuvem de poeira e mana residual subindo em direção ao céu azul de Salvador.
Bruno e Margarida os esperavam na esquina, ofegantes, mas inteiros.
— Malha destruída — Fernando anunciou, tossindo poeira.
— Líder da célula? — Bruno perguntou.
Fernando franziu a testa. — Não tinha líder. Só os Codificadores artificiais.
— Então o líder fugiu. — Margarida apontou para uma marca no chão — uma assinatura de mana que se afastava do local. — Ele se mandou quando a confusão começou.
— Droga.
— Mas ele deixou alguma coisa. — Margarida ergueu um tablet quebrado, encontrado nos escombros. — Dá para recuperar os dados?
Fernando pegou o tablet. A tela estava trincada, mas ainda pulsava com uma luz fraca.
— A gente descobre em São Paulo.
Antes de guardar o tablet, ele viu uma última mensagem na tela, escrita às pressas pelo líder em fuga:
"Você não entendeu, Administrador. Nós não estamos construindo Malhas. Estamos desenterrando o que já existia."
—