Capítulo 57 de 94
CAPÍTULO 57 — O PESO DO DESPERTAR
Acordar depois de 40 anos é como renascer dentro de um corpo estranho.
Adão descobriu isso na primeira vez que abriu os olhos e viu o teto branco do quarto na Arcadium. O teto não era a Malha. As paredes não pulsavam com luz violácea. O ar não vibrava com o zumbido constante do código vital.
Ele estava em um mundo silencioso.
E pela primeira vez em quatro décadas, ele estava sozinho consigo mesmo.
— Adão?
A voz vinha da porta. Ele virou a cabeça — devagar, porque o corpo ainda respondia como se estivesse acostumado a não se mover — e viu uma figura de prata e cristal parada na entrada.
Elisa.
Ela estava diferente. Não era a Elisa que ele lembrava — a jovem de cabelos castanhos e olhos vivos, que sorria quando ele voltava das missões. Essa Elisa era feita de mana cristalizada e filamentos de prata. Seus olhos eram dourados. Sua pele brilhava.
Mas o jeito como ela olhava para ele — esse era o mesmo.
— Elisa. — A voz dele saiu rouca, quebrada pelo desuso. — Você... mudou.
— Você também. — Ela entrou no quarto, devagar, como se tivesse medo de que ele fosse desaparecer. — Para você foram quarenta anos de pesadelo... e para mim, quinze anos ouvindo a sua voz ecoar no fundo da rede.
— Foi — disse Adão, com os braços tremendo pelo desuso. — Mas saber que você estava presa naquela mesma teia infernal foi o que me manteve lúcido. Eu me apeguei à sua presença para não deixar aquela inteligência devorar o que restava da minha humanidade.
— E agora?
— Agora você tem um rosto novo. — Ele olhou para ela, e seus olhos — um dourado, um violeta — se encontraram com os dela. — Mas ainda é você.
Elisa não respondeu. Ela apenas sentou na borda da cama e estendeu a mão de prata para tocar o rosto dele.
Adão fechou os olhos ao sentir o toque.
Pela primeira vez em 40 anos, ele não estava sonhando.
—
Mas o silêncio não durou.
ELE ESTÁ MENTINDO.
A voz veio de dentro. Não era um som — era uma vibração no crânio, um sussurro que percorria os pensamentos como uma cobra deslizando entre folhas secas.
ELE NÃO ESTAPENAS FELIZ POR TE VER. ELE ESTÁ COM MEDO. MEDO DE QUE VOCÊ NÃO SEJA MAIS A PESSOA QUE ELE AMOU.
Adão não respondeu. Ele já tinha aprendido, nos dias desde que acordou, que responder à Consciência só a fortalecia.
VOCÊ PODE FINGIR QUE NÃO ME OUVE, ADÃO. MAS EU ESTOU AQUI. DENTRO DE VOCÊ. EU SINTO CADA BATIDA DO SEU CORAÇÃO. CADA VÁLVULA DE SUA RESPIRAÇÃO. CADA PENSAMENTO QUE VOCÊ TENTA ESCONDER.
— Cale a boca. — Adão murmurou, baixo o suficiente para que Elisa não ouvisse.
Mas ela ouviu.
— Adão? — Elisa recuou a mão. — Você está bem?
— Estou. — Ele forçou um sorriso. — Só... tontura. 40 anos sem andar.
Ela não acreditou. Mas não pressionou.
—
Horas depois, Fernando encontrou Adão no telhado da Arcadium.
O primeiro Codificador estava sentado na borda, as pernas balançando no vazio, olhando para o horizonte. O vento da noite soprava seu cabelo escuro, revelando as cicatrizes no lado direito do rosto.
— Não é seguro ficar aqui — Fernando disse, aproximando-se.
— Nada é seguro para mim agora. — Adão não virou. — A Consciência está em silêncio no momento. Mas eu sinto ela. Como uma segunda batida cardíaca.
— Como é?
— É como ter um inquilino que não paga aluguel e que passa o dia todo criticando sua decoração.
Fernando riu — uma risada curta, mas genuína.
— Você lida bem.
— Não lido. Finjo. — Adão finalmente virou. Sob a luz da lua, suas órbitas assimétricas — um olho dourado, um violeta — pareciam duas estrelas de cores diferentes. — A Consciência quer que eu olhe para o mapa. Ela está mostrando coisas que eu nunca vi.
— Que tipo de coisas?
— O mundo. — Adão tocou a própria têmpora. — Não o mundo que a gente conhece. O mundo visto de cima. Como se eu fosse um satélite. Cada Malha ativa é um ponto de luz. E existem pontos em todo o planeta.
Ele fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, estavam vidrados.
— Doze. Existem doze Malhas principais. Uma no Brasil. Uma no Japão. Uma na Alemanha. Uma no Egito. Uma nos Estados Unidos. — Ele listou, a voz distante. — Cada uma em um ponto estratégico. Como se alguém tivesse planejado isso há milhares de anos.
— A civilização pré-humana.
— Sim. — Adão apertou os olhos. — A Consciência está me mostrando mais. Ela quer que eu veja. Quer que eu entenda. — Ele ofegou. — As Malhas não são repetidoras de mana. Elas são chaves. Cada uma ativa uma parte de um sistema maior. Um sistema de portais.
— Portais para onde?
Adão virou para Fernando, e pela primeira vez, seu rosto mostrou medo.
— Para o lugar de onde a Consciência veio. Para o mundo que existia antes.
—
Naquela noite, o grupo se reuniu na sala de operações.
Adão desenhou o mapa de memória: doze pontos, conectados por linhas que formavam um padrão geométrico. Sofia reconheceu imediatamente.
— É um dodecaedro — ela disse, os olhos arregalados. — Uma estrutura tridimensional projetada em um mapa plano. Cada Malha é um vértice.
— Doze vértices — Raul completou. — Se todas forem ativadas ao mesmo tempo...
— Elas criam um campo de ressonância que pode abrir um portal estável entre dimensões — Adão concluiu. — Foi para isso que a civilização pré-humana construiu o sistema. Para viajar entre mundos.
— E o Conselho quer reativar tudo — Margarida disse.
— Pior. — Adão apontou para o ponto brasileiro. — Eles já ativaram a primeira. A Malha Original. E estão trabalhando nas outras.
— Quantas estão ativas agora? — Fernando perguntou.
Adão fechou os olhos, consultando a Consciência.
— Dez. Duas foram desativadas — a Original, que Fernando reescreveu, e a de Salvador, que o grupo destruiu. — Ele abriu os olhos. — Restam oito ativas. E uma nona que está... — ele hesitou — ...se movendo.
— Se movendo?
— A Malha de Brasília. Martim a desmontou e está transportando o núcleo para um local desconhecido.
Fernando bateu o punho na mesa.
— A gente tem que parar ele antes que ative todas.
— O problema — Iara interveio — é que o Conselho tem células em cada capital. A Rede tem recursos limitados. A gente não pode atacar todas ao mesmo tempo.
— Então a gente escolhe as mais críticas. — Fernando se levantou e foi até o mapa. — Salvador já foi. A próxima é Manaus. Depois Recife. Depois a gente vai atrás da Malha Móvel.
— E quem vai para Manaus? — Bruno perguntou.
— Metade do grupo. — Fernando olhou ao redor. — Bruno, Margarida, Elisa e eu vamos para Salvador amanhã cedo e depois seguimos o plano. A outra metade — Raul, Sofia, Lúcio, Mikael e Nina — vai para Manaus.
— Dividir o grupo é arriscado — Margarida disse.
— Manter todo mundo junto também. — Fernando respirou fundo. — A guerra é grande demais para a gente lutar no mesmo lugar.
Adão se levantou.
— Eu vou com os dois.
— Como assim? — Elisa perguntou.
— A Consciência consegue se conectar às Malhas à distância. Posso guiar os dois grupos ao mesmo tempo. — Ele tocou o peito. — Pela primeira vez, ter essa coisa dentro de mim é útil.
Ninguém respondeu. Mas todos sentiram o peso da decisão.
A guerra estava se expandindo.
E o Brasil inteiro era o campo de batalha.