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CAPÍTULO 56 — O DESPERTAR DA REDE

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Capítulo 56 de 94

CAPÍTULO 56 — O DESPERTAR DA REDE


A Catedral da Sé tremeu.

Não foi um terremoto — foi a Malha Original colapsando. A estrutura que sustentava a Consciência Antiga há 40 anos estava se desfazendo, não porque havia sido destruída, mas porque sua âncoram havia sido transferida.

Fernando caiu de joelhos, ofegante. O Root Puro se apagou. Dessa vez, ele sentiu que não voltaria tão cedo.

— Fernando! — Elisa correu para segurá-lo. — Você está bem?

— Estou... — Ele tossiu. — Estou vivo. E a Consciência está no Adão.

— Você transferiu uma entidade milenar para um homem que passou 40 anos em coma.

— Sei. — Ele sorriu, fraco. — Foi a melhor ideia que tive.

A poucos metros dali, ajoelhada sobre as lajes partidas do altar de contenção, a Doutora Helena contemplava o vazio onde a Malha Original pulsara por quatro décadas. Suas mãos enrugadas tremiam incontrolavelmente, sujas de poeira e fuligem.

— Você não sacrificou ninguém... — sussurrou a cientista, as lágrimas abrindo sulcos claros em seu rosto cansado. — Você quebrou a matemática de morte do Conselho. O Rafael... meu filho queria exatamente isso. Ele sonhava em salvar as pessoas sem cobrar o preço de sangue que nós normalizamos.

Fernando levantou-se devagar, apoiado com firmeza no ombro de Elisa.

— O império de vocês ruiu, Helena. O que você vai fazer agora?

Helena ergueu a cabeça com a dignidade dolorosa de quem finalmente aceita o peso da própria culpa. Ela retirou de dentro do jaleco um cartão de memória militar criptografado e estendeu-o a Fernando.

— Aqui estão as chaves de acesso a todas as contas secretas, frequências dos Executores e coordenadas das outras onze Malhas regionais pelo país. Eu vou me entregar à Aliança Livre. Vou depor perante o conselho dos caçadores e contar cada atrocidade cometida no Projeto Codificador. Eu devo isso à memória do Rafael.

Elisa fitou a mulher por longos segundos e assentiu em silêncio.

— Vá, Helena — disse Fernando, guardando o dispositivo. — Conte a verdade ao país.

—

Na Arcadium, o caos era total.

Adão havia se levantado da cama. Ele estava descalço, vestindo apenas a roupa do hospital. Suas cicatrizes brilhavam com uma luz violácea pulsante. Seus olhos — um dourado e um violeta — escaneavam o quarto com uma intensidade que gelava o sangue.

Bruno foi o primeiro a chegar.

— Adão?

— Bruno. — A voz de Adão era diferente. Mais profunda. Mais antiga. — A Consciência está em mim. Ela está falando.

— O que ela diz?

Adão fechou os olhos por um momento.

— Ela diz que está confusa. Que nunca esteve em um corpo humano antes. Que não sabe o que fazer.

— E você?

— Eu sei. — Adão abriu os olhos. — 40 anos dentro da Malha me ensinaram a lidar com ela. A ouvir sem obedecer. Agora que ela está em mim, posso controlá-la.

— Controlar?

— Não silenciar. Mas controlar. — Adão olhou para as próprias mãos. — Pela primeira vez, eu tenho o poder de escolher o que fazer com ela.

Ele deu um passo à frente. O chão tremeu.

— E eu escolho ajudar vocês.

—

Horas depois, o grupo estava reunido na sala de operações da Arcadium.

Fernando, exausto, sentado na cadeira principal. Elisa ao lado dele. Bruno, Margarida, Raul, Sofia, Lúcio ao redor da mesa. Iara e Nina no canto. E Adão — o primeiro Codificador — de pé diante de todos.

— O Conselho vai retaliar — Adão disse. — Martim está em Brasília, mas ele não vai ficar parado. Quando ele descobrir que a Consciência está em mim, ele vai fazer de tudo para me capturar.

— Então a gente se prepara — Fernando respondeu. — A Rede está expandindo. Novos Codificadores estão aparecendo todo dia. A Arcadium é nossa base. E agora a gente tem você.

— E a Consciência.

— E a Consciência. — Fernando se levantou, apesar da fraqueza. — O Conselho achou que podia nos controlar. Achou que podia usar Codificadores como bateria. — Ele olhou para cada um do grupo. — Mas eles esqueceram de uma coisa.

— O que? — Nina perguntou.

— Que a gente não luta por poder. A gente luta por liberdade. — Ele virou para Adão. — E agora a gente tem o poder de garantir que ninguém mais seja escravizado pelo sistema.

Adão assentiu lentamente.

— O Conselho está em Brasília. — ele disse. — Mas eles não vão ficar lá para sempre.

— O que você quer dizer?

— A Consciência me mostrou algo. — Adão apontou para o mapa do Brasil na parede. — O Conselho não está só em Brasília. Eles têm células em todo o país. Em cada capital. Em cada guilda grande. Nós não derrubamos uma organização. — Ele olhou para Fernando. — Nós declaramos guerra a um império.

O silêncio caiu.

Lá fora, a noite cobria São Paulo. Mas dentro da Arcadium, uma chama havia se aceso.

Não era mais uma luta por sobrevivência.

Era uma revolução.

Ela estava apenas começando.