Capítulo 54 de 94
CAPÍTULO 54 — O VIDENTE EM PERIGO
O retorno a São Paulo foi tenso.
Fernando passou a viagem no banco de trás do carro — um veículo comum, descaracterizado, que Iara havia providenciado — com o caderno de Nina aberto no colo. A garota dormia no banco ao lado, exausta do esforço de manter as visões sob controle.
O telefone vibrou. Bruno.
— Fernando. Temos um problema.
— O que foi?
— A Arcadium foi invadida. Há uma hora. — A voz de Bruno estava tensa. — Não foram Executores. Foram mercenários. Pagos pelo Martim.
— Alguém se feriu?
— Funcionários. Os que estavam no centro de acolhimento. Três caçadores levaram tiros. Lúcio está cuidando. — Uma pausa. — Mas eles levaram alguém.
Fernando apertou o telefone. — Quem?
— A costureira. A Codificadora que estava na Rede. A que edita tecidos vivos.
Fernando fechou os olhos. Não era a pior perda possível — mas era um aviso.
— Martim sabe que a Rede está ativa.
— Sabe. E ele quer que a gente saiba que sabe. A costureira foi levada viva. Ele quer trocar ela.
— Trocar por que?
— Por você. — Bruno respirou fundo. — Ele quer você no lugar do selamento. Sozinho. Sem o grupo. Sem a Rede. Em troca, ele liberta a costureira e para de atacar o centro de acolhimento.
— Você não vai aceitar. — A voz de Iara veio do banco da frente.
— Eu sei. Mas se eu não aceitar, a costureira morre.
— Se você aceitar, você morre. Ou pior.
Fernando olhou para Nina, dormindo. Ela tinha dito: "Você vai ter que escolher."
Talvez a escolha não fosse entre Adão e Elisa.
Talvez fosse entre ele e os outros.
— A gente vai resgatar ela — Fernando disse, a voz firme. — Antes do selamento. Antes de Martim fazer qualquer coisa.
— Como? — Iara perguntou.
— A Rede tem localizadores de mana. A costureira tem uma assinatura única. A gente rastreia ela.
— Já fizemos isso — Iara respondeu. — Ela está em um prédio no centro. Antiga sede de uma guilda fantasma do Conselho. Protegida.
— Protegida por quantos?
— Pelo menos 20 mercenários. E um Executor.
— Claro. — Fernando rangeu os dentes. — Sempre tem um Executor.
—
O plano foi montado em duas horas.
Margarida e Bruno dariam a cobertura frontal — ataque direto à entrada do prédio. Raul entraria pelos fundos com Overclock cronometrado. Sofia desligaria os sistemas elétricos do prédio com uma sobrecarga de mana. Lúcio ficaria na retaguarda para curar.
Fernando e Elisa entrariam pelo meio — infiltrados pelo subsolo, onde a costureira estava sendo mantida.
— O Executor vai estar no andar dela — Elisa disse, examinando o mapa. — Você consegue neutralizar ele?
— Meu Root ainda está reduzido. — Fernando apertou o peito, onde a cicatriz dourada brilhava. — Mas posso tentar uma edição rápida.
— Rápida não é suficiente contra um Executor.
— Então a gente improvisa.
A operação começou às 23h.
Os primeiros tiros ecoaram na fachada do prédio — Margarida e Bruno avançando, escudo e espada em sincronia perfeita. As luzes apagaram — Sofia havia sobrecarregado o transformador. A confusão era total.
Fernando e Elisa entraram pelo bueiro na esquina.
O subsolo era um labirinto de canos e concreto. Mas a assinatura de mana da costureira pulsava como um farol no Root reduzido de Fernando.
— É por aqui.
Eles subiram uma escada de serviço, saíram em um corredor escuro. Dois mercenários estavam de guarda — Elisa os neutralizou em segundos, o corpo de prata se movendo em silêncio absoluto.
A porta da cela estava aberta.
A costureira estava lá — amarrada a uma cadeira, amordaçada, mas viva.
E ao lado dela, o Executor.
Não era o mesmo que eles haviam enfrentado no teatro. Esse era menor, mais magro, com olhos que brilhavam em verde. Ele segurava uma corrente de anulação — igual à do outro — mas seus dedos tremiam levemente.
— Codificador Nº 47 — o Executor disse. — O Martim avisou que você viria.
— E você avisou o Martim que eu ia passar por cima de você.
— Não vai ser tão fácil.
O Executor ativou a corrente.
O campo de cancelamento se expandiu, atingindo Fernando em cheio.
O Root dele desapareceu.
Por um momento, ele foi apenas Fernando. O avaliador. O homem sem poderes.
Ele caiu de joelhos.
— Você é fraco sem o sistema — o Executor disse, se aproximando. — Sem o Root, você é nada.
— Engano seu.
A voz de Elisa veio das costas do Executor.
Ela não havia sido afetada — o campo de cancelamento não funcionava em corpos artificiais.
— Eu não preciso de Root — Elisa disse, cravando a espada de mana nas costas do Executor. — Pra te derrotar.
O Executor caiu. A corrente de anulação se apagou.
O Root de Fernando retornou.
Ele se levantou, ofegante, e correu até a costureira.
— Você está bem?
Ela assentiu, os olhos cheios de lágrimas.
— Vamos. A gente tira você daqui.
Eles saíram pelo subsolo enquanto o combate ecoava nos andares superiores.
Quando emergiram do bueiro, o grupo já estava lá — todos vivos, todos inteiros.
— Costureira resgatada — Fernando anunciou.
— Martim vai ficar furioso — Bruno disse, limpando o sangue de um corte no braço.
— Que ele fique. — Fernando olhou para o horizonte. — O selamento é amanhã.