Capítulo 53 de 94
CAPÍTULO 53 — A CÚPULA DAS SOMBRAS
A reunião durou duas horas.
Helena explicou tudo — desde o início. O Projeto Codificador não era um experimento para criar super-humanos. Era uma engenharia reversa baseada em artefatos encontrados nos primeiros portais, que apareceram no Brasil em 1978.
— Os portais não são fenômenos naturais — Helena disse, espalhando fotografias antigas sobre a mesa. — Eles são máquinas. Construídas por uma civilização que existiu antes da humanidade. Nós encontramos fragmentos do sistema deles dentro dos portais. O Root é a interface de usuário desse sistema.
— E a Consciência Antiga?
— É o que restou do operador original. A inteligência que controlava o sistema. Ela ficou presa na Malha quando a civilização desapareceu. — Helena ajustou os óculos. — Quando o Conselho descobriu a Malha Original, em 1980, eles tentaram se comunicar com ela. Ela respondeu. Ofereceu poder em troca de liberdade.
— E o Conselho aceitou.
— Não imediatamente. Mas com o tempo... — Helena suspirou. — O poder é tentador. A Consciência ensinou o Conselho a criar Codificadores. Mostrou como extrair mana dos portais. Como construir a Malha. Em troca, ela pedia apenas uma coisa: energia vital.
— Os Codificadores Colhidos.
— Sim. — Helena abaixou a cabeça. — Eu entreguei meu próprio filho para alimentar aquela coisa. Pensei que estava fazendo o bem. Que o Rafael seria lembrado como um herói. — Ela ergueu os olhos, marejados. — Mas ele foi só... combustível.
Nina, sentada em um canto, observava Helena com uma atenção silenciosa. Ela não falava, mas seus olhos percorriam a sala como se estivesse lendo algo invisível.
— O selamento que você propôs — Fernando disse — como funciona?
— A Consciência Antiga está ligada à Malha Original por um núcleo de código vital. Esse núcleo pode ser reescrito — como você fez quando prendeu ela na gaiola digital. Mas a gaiola está enfraquecendo. — Helena abriu uma pasta e mostrou um diagrama complexo. — Para fortalecer o selamento permanentemente, você precisa inserir seu próprio código vital no núcleo. É como criar um cadeado que só você pode abrir.
— E o que acontece comigo?
— Você perde o Root Puro permanentemente. Em troca, a Consciência fica presa para sempre. — Helena olhou nos olhos dele. — É um sacrifício. Mas é o único jeito.
Fernando olhou para o diagrama. Para as fotografias dos portais. Para as anotações de 40 anos de pesquisa.
— E o Conselho? O que acontece com eles?
— Com o selamento completo, a Consciência não pode mais oferecer poder a eles. O Conselho perde a influência. As guildas deixam de ser controladas por eles. — Helena fez uma pausa. — Martim vai lutar contra isso. Ele sabe que sem a Consciência, o império dele desmorona.
— Então a gente precisa fazer o selamento antes que ele descubra.
— Sim. — Helena guardou os documentos. — O selamento precisa acontecer na Câmara Original, abaixo da Catedral da Sé. É o único lugar onde o núcleo da Consciência está acessível.
— Voltar para a Catedral.
— É o único jeito.
Fernando ficou em silêncio. A mesma Catedral onde ele quase morreu. O mesmo subsolo onde ele enfrentou a Consciência pela primeira vez.
— Quando?
— Amanhã à noite. — Helena se levantou. — Martim está em Brasília agora, tentando reunir apoiadores. A janela de oportunidade é pequena.
— Então amanhã à noite.
Helena estendeu a mão.
— Combinado.
Fernando apertou.
—
Mas quando ele e Nina saíram da Sala Leste, a garota puxou o braço dele.
— Ela está mentindo.
Fernando parou. — O que?
— A Helena. — Nina estava pálida. — Ela acredita no que está dizendo. Ela não está mentindo conscientemente. Mas as palavras dela não batem com o que eu vi.
— Viu onde?
— No diagrama. — Nina franziu a testa, como se estivesse forçando a memória. — O selamento que ela mostrou... não é um cadeado. É uma ponte.
— Uma ponte?
— Quando você insere seu código no núcleo, você não prende a Consciência. Você libera ela. E você vira o novo hospedeiro.
O sangue de Fernando gelou.
— Você tem certeza?
— 70%. — Nina apertou os olhos. — Não é fixo. Pode mudar. Mas a intenção da Helena... mesmo sem ela saber... é abrir a porta.
Fernando olhou para trás, para a Sala Leste.
Helena estava sentada à mesa, os documentos espalhados, o rosto enterrado nas mãos.
Ela parecia exausta.
Ela parecia sincera.
Ela parecia estar sendo usada sem saber.
— A gente precisa avisar o grupo — Fernando disse.
— E o selamento?
— A gente vai. Mas preparado. — Ele começou a andar. — Dessa vez, não vou entrar na Câmara sem saber exatamente o que estou fazendo.
Nina correu para acompanhá-lo.
— E se não der tempo de preparar?
— Então a gente improvisa.