Pular para o conteúdo principal

CAPÍTULO 52 — A OFERTA DO CONSELHO

⏱️ ~9 min
🌿 Modo Zen ativo· Toque para ver controles
👈 Deslize p/ AnteriorDeslize p/ Próximo 👉

Capítulo 52 de 94

CAPÍTULO 52 — A OFERTA DO CONSELHO


A mensagem chegou no início da tarde através de um canal que parecia esquecido pelo tempo.

O telefone fixo de baquelite preto no canto da sala de operações da Arcadium — um aparelho dos anos 90 que servia apenas como peso de papel — tocou com um estrépito metálico que fez todos empunharem suas armas. Sofia atendeu por puro reflexo profissional.

— Alô?

— Passe para o senhor Fernando Andrade — disse uma voz feminina, gélida, precisa, destituída de qualquer hesitação. — Diga a ele que é a Conselheira Helena.

Sofia cobriu o bocal com a palma da mão, os olhos arregalados. — É a Helena. A própria cúpula do Conselho.

O grupo inteiro congelou. Bruno deu um passo à frente, a mão fechando-se no punho da espada de treino. Fernando respirou fundo, puxou a gola da camisa social e pegou o fone.

— Fernando falando.

— Senhor Andrade. Ou talvez eu deva chamá-lo pelo protocolo: Administrador. — O tom de Helena carregava uma exaustão que não combinava com o mito intocável dos líderes de guildas. — Quero me desculpar pelo circo armado no teatro. O Conselheiro Martim agiu sob histeria de facção. Ele acreditou que Executores resolveriam um problema estrutural de quarenta anos.

— Ele tentou me abrir em uma mesa de autópsia para arrancar meu núcleo vital — rebateu Fernando, sem alterar o tom de voz.

— Ele tentou. E fracassou vergonhosamente. Martim foi destituído da mesa deliberativa esta manhã. A facção ultranacionalista que ele liderava perdeu a maioria após a sua fuga. O que me deixa na posição de lhe fazer uma proposta legítima. Sem emboscadas. Sem executores.

— Que tipo de proposta?

— O fechamento definitivo das Fendas Negativas. A entrega de todos os arquivos de engenharia do Projeto Codificador. E a garantia de imunidade vitalícia para você e para os caçadores renegados que você acolheu.

Fernando franziu a testa, desconfiado. — Ninguém no Conselho entrega monopólios por caridade. O que vocês querem em troca?

— A sua permissão de Root Puro. E apenas a sua. Sem o seu destacamento armado. Sem a interferência da guerrilha da Aliança Livre. — A voz de Helena baixou uma oitava, tornando-se quase íntima. — A contenção da Consciência Antiga está ruindo. Adão não aguenta mais cinco meses de sobrecarga antes de queimar por completo. Se o sistema central colapsar sem um administrador vivo para transferir as chaves de acesso, as Malhas secundárias vão explodir como bombas termonucleares subterrâneas. O Sudeste inteiro se tornará uma cratera de mana negra.

— E por que eu deveria acreditar em uma única palavra de uma mulher que ajudou a criar essa máquina de moer gente?

Houve uma pausa longa do outro lado da linha. O som de uma respiração pesada, seguida pelo estalo de um isqueiro e uma exalação de fumaça.

— Porque eu sou a mãe biológica de Rafael.

O silêncio na sala da Arcadium foi tão denso que o zumbido das lâmpadas fluorescentes pareceu ensurdecedor. Fernando sentiu o peito contrair-se.

— O que você disse?

— Rafael era meu filho. Eu o concebi em 1988, antes de o primeiro complexo industrial de mana ser erguido em Cubatão. — A voz de Helena perdeu a armadura de autoridade, revelando uma ferida aberta e purulenta. — Eu era uma jovem geneticista. Quando o Conselho descobriu que Rafael possuía uma mutação rara nos canais de mana compatível com a Malha, eles me prometeram que ele seria o pioneiro de uma nova era. Disseram que ele salvaria o país da ruína. Eu assinei os termos de cessão achando que estava servindo à pátria. Em vez disso, entreguei meu único filho a um matadouro tecnomágico.

Fernando apertou o plástico do telefone com tanta força que os nós dos dedos empalideceram.

— Onde e quando?

— Palácio do Planalto. Brasília. Anexo Leste, subsolo três. Amanhã, exatamente às vinte e duas horas. Venha sozinho. Se os sensores de perímetro detectarem mana militar da Aliança Livre ou dos seus combatentes, o protocolo de anulação será ativado automaticamente.

Fernando desligou sem se despedir.

A sala irrompeu em indignação. Bruno protestou violentamente; Margarida cruzou os braços com a severidade de uma mãe que fareja perigo mortal a quilômetros de distância. Mas Fernando ergueu a mão, pedindo calma.

— Eu não vou desarmado — declarou ele. — E não vou sozinho. Nina vai comigo.

A garota de cabelo roxo ergueu os olhos do caderno de croquis, onde desenhava uma cúpula de concreto branco cercada por linhas de luz dourada. — A visão não mostrou sangue em Brasília, Fernando. Mostrou duas pessoas sentadas em uma mesa de jacarandá, assinando um pacto de fantasmas. Eu preciso estar lá para ancorar a probabilidade.

—

Brasília, 21h45 da noite seguinte.

A esplanada estava deserta, sob a brisa seca e fria do planalto central. O Palácio erguia-se como um monumento de mármore e vidro sob o céu sem estrelas. Dois oficiais sem insígnia conduziram Fernando e Nina pelos corredores subterrâneos do Anexo Leste, passando por portas blindadas com isolamento arcano até uma sala ampla e austera.

Helena estava sentada diante de uma mesa redonda de jacarandá. Cabelos grisalhos presos num coque impecável, taça de água intocada, pastas de arquivo com o brasão da República Federativa do Brasil do início da década de 1980.

Ela olhou para Fernando e, em seguida, fixou os olhos em Nina. Um lampejo de dor cruzou seu rosto austero.

— Você trouxe uma criança, senhor Andrade.

— Trouxe uma Codificadora livre — corrigiu Fernando, puxando a cadeira pesada para se sentar. — Algo que você não permitiu que seu filho fosse.

Helena sustentou o olhar sem recuar. Ela abriu a primeira pasta sobre a mesa. Documentos datilografados em papel vegetal, carimbados com "ULTRASECRETO — COMISSÃO NACIONAL DE CONTENÇÃO ARCANÍFICA".

— Você acha que nós somos monstros que lucram com o sofrimento alheio por pura ganância de mercado, não acha, Fernando? — Helena deslizou as fotografias amareladas pelo tampo de madeira.

Fernando olhou para as imagens: crateras fumegantes no vale do Paraíba, fendas roxas rasgando estradas em 1985, céus corrompidos por relâmpagos de mana negra.

— Em 1985, o mundo inteiro descobriu as Fendas — disse Helena, a voz firme e cortante. — Os Estados Unidos tinham a DARPA e reatores nucleares convertidos; os soviéticos tinham batalhões blindados com runas siberianas; as potências asiáticas tinham linhagens milenares de clãs marciais. O Brasil? O Brasil estava em transição civil, quebrado pela dívida externa, sem um único artefato de Rank A e com uma inflação de oitocentos por cento ao ano. Quando a Fenda Primária se abriu sob o leito do Rio Tietê, em São Paulo, o cálculo da comissão de cientistas foi unânime: em quarenta e oito horas, a mana negra desintegraria o Sudeste inteiro. Quarenta milhões de brasileiros teriam seus órgãos vitais liquefeitos.

Ela inclinou-se para a frente, as unhas cravadas na beirada da mesa.

— O Adão tinha dezenove anos. Ele era um órfão sem família, com uma anomalia genética rara que o permitia absorver carga vital sem morrer na hora. Nós tínhamos duas escolhas: assistir à extinção da maior metrópole da América Latina ou colocar aquele garoto em uma câmara criogênica de drenagem para servir de aterramento elétrico para a Malha. Nós escolhemos que um homem morresse lentamente na escuridão para que vinte milhões de trabalhadores pudessem continuar pegando o metrô da Estação da Sé todas as manhãs sem saber que o inferno existia a dez metros abaixo dos seus trilhos!

Fernando permaneceu em silêncio por alguns segundos. O ar da sala parecia denso demais para ser respirado.

— E depois? — perguntou Fernando, com uma frieza cirúrgica. — Depois que São Paulo foi salva... por que vocês não desligaram a máquina? Por que transformaram a sobrevivência em um monopólio de caçadores de elite, de contratos corporativos milionários e de descarte de veteranos como lixo hospitalar?

Helena desviou o olhar para as próprias mãos enrugadas.

— Porque o poder vicia mais rápido do que o medo. E porque o sistema... a Malha... parou de aceitar apenas estabilização. Ela começou a exigir colheita. Quando percebemos, as guildas já eram maiores do que os ministérios.

— Vocês compraram tempo sacrificando a carne de inocentes e depois chamaram isso de pragmatismo — disse Fernando, a voz carregada de autoridade de Administrador. — O sangue de Adão, de Elisa e de Rafael não foi o preço da ordem. Foi a dívida que vocês acumularam enquanto fingiam que o mundo estava sob controle. Eu não vim aqui negociar um novo contrato de escravidão. Eu vim reescrever as permissões de acesso da República inteira.

Nina tocou a mão de Fernando sobre a mesa. Os olhos da garota brilharam com um tênue reflexo arroxeado.

> [SISTEMA: DETECTADA CONCORDÂNCIA MORAL DE ALTA INTENSIDADE]

> [INTERFERÊNCIA DE PROTOCOLO: AVALIAÇÃO DE INTEGRIDADE APROVADA]

Helena empurrou a pasta final em direção a Fernando. Não havia contratos jurídicos nela. Apenas um cilindro de liga de titânio contendo uma chave criptográfica de hardware.

— O núcleo da Malha não está em Brasília nem em São Paulo — disse Helena, a voz quase inaudível. — As guildas acham que controlam as Fendas, mas todas as doze Malhas do continente convergem para um único servidor biológico adormecido a duzentos metros de profundidade no coração da Amazônia. É lá que o primeiro código foi compilado há dez mil anos. Se você quer libertar Adão e acabar com o Conselho... você precisará marchar para a selva. E que Deus tenha piedade de nós se você falhar.

Fernando pegou a chave de titânio. Ela era fria e pesada como um veredito.

— Eu não vou falhar — disse ele, levantando-se. — Porque, diferente de vocês, eu não luto para preservar uma corporação. Eu luto para que ninguém mais precise ser sacrificado no escuro.