Capítulo 51 de 94
CAPÍTULO 51 — O PREÇO DA LIBERDADE
O galpão da Rede ficou mais cheio nas horas seguintes.
Fernando convocou o grupo da Arcadium para conhecer o esconderijo. Bruno, Margarida, Raul, Sofia, Lúcio — todos vieram. E ao entrarem, cada um sentiu o que Fernando sentiu: o peso de décadas de sobrevivência clandestina.
— Isso é maior do que eu imaginava — Bruno murmurou, os olhos percorrendo os rostos dos Codificadores escondidos.
— Quinze anos — Iara repetiu, sentada em uma cadeira dobrável, uma xícara de café esfriando nas mãos. — Quinze anos vendo amigos sendo Colhidos. Vendo o Conselho crescer. Vendo o mundo se afundar na ignorância.
— Por que vocês não lutaram antes? — Raul perguntou, e a pergunta saiu mais dura do que ele pretendia.
Iara não se ofendeu.
— Porque a gente não tinha chance. O Conselho tinha Executores. Tinha a Malha. Tinha o controle das guildas. — Ela olhou para Fernando. — Até ele aparecer.
— Eu não fiz isso sozinho. — Fernando sentou na cadeira ao lado dela. — O grupo lutou junto.
— E é por isso que a gente pode fazer algo agora. — Iara virou o caderno de Nina para todos verem. — A Rede tem 14 Codificadores ativos. Alguns treinados, outros brutos. A Arcadium tem vocês cinco — mais o Hiroshi, que vale por três. E temos a Elisa, que é uma arma viva.
— E o Adão? — Margarida perguntou. — Ele acordou de vez?
— Ainda não. — Elisa respondeu. — Mas a atividade cerebral dele está aumentando. Ele está se preparando para acordar.
— O problema — Iara continuou — é que enquanto ele não acorda, a gente está voando cego. Adão é a única pessoa que passou 40 anos dentro da Malha. Ele sabe onde a Consciência Antiga está vulnerável. Sabe como o Conselho pensa. Sabe o que o sétimo membro pode ser.
— A Nina não consegue ver o sétimo membro — Fernando disse.
— Porque o sétimo membro não é uma pessoa fixa — Iara respondeu. — É um conceito. Uma função. Algo que pode ser ocupado por diferentes pessoas ao longo do tempo.
O silêncio caiu.
— O que você quer dizer com "uma função"? — Sofia perguntou, os olhos estreitados.
— Que o sétimo membro não é um indivíduo — Iara explicou. — É um cargo. Quando um sétimo membro morre, outro assume. A função é proteger a Consciência Antiga. Eles são imunes ao Root. Imunes à edição. Imunes a tudo.
— Imunes — Fernando repetiu. — Como o Homem de Preto.
— Augusto era um sétimo membro. — Iara confirmou. — O mais fraco deles. Mas ainda assim imune. O verdadeiro sétimo membro... — ela fez uma pausa — ...está em Brasília. No palácio do governo.
— O governo sabe?
— O governo é o Conselho. Não todo o governo. Mas pessoas-chave. Gente que ocupou cargos estratégicos nas últimas quatro décadas. — Iara tomou um gole de café. — O Conselho não é apenas uma organização. É um sistema. E a gente precisa derrubar o sistema inteiro.
—
Enquanto o grupo discutia estratégia, Nina se aproximou de Fernando.
— Posso falar com você? Sozinho?
Fernando se afastou com ela para um canto do galpão, onde prateleiras de cristais de mana criavam uma ilha de privacidade.
— O que você viu?
— Mais coisas. — Nina estava pálida. Mais pálida que antes. — A visão da escolha... ela ficou mais forte. E mais perto. — Ela apertou os olhos. — Eu vi o local. Não sei o nome, mas vi. É uma sala branca. Muito branca. Com luzes no teto. E duas camas.
— Duas?
— Adão e Elisa. Os dois deitados. Conectados por fios. — Nina engoliu em seco. — E você no meio. Com as mãos sobre eles. E uma luz violeta saindo do seu peito.
— Eu estava fazendo o que?
— Escolhendo. — Nina segurou o braço dele. — Na visão, você coloca a mão sobre o peito de um deles. E o outro... apaga. — Sua voz tremeu. — Eu não consegui ver em quem você colocou a mão. A imagem ficava escura nessa parte.
Fernando ficou em silêncio por um longo tempo.
— Você não vai conseguir impedir a visão — Nina continuou. — Mas você pode se preparar para ela.
— Como se prepara para uma escolha impossível?
— Sabendo que, não importa o que escolha, vai doer. — Nina olhou para ele com olhos que tinham visto coisas que nenhuma garota de 16 anos deveria ver. — E sabendo que, não importa o que escolha, a pessoa que ficar vai precisar de você para seguir em frente.
—
Naquela noite, Fernando não dormiu.
Ele ficou sentado no telhado do galpão, olhando para as luzes distantes de São Paulo. A cidade que ele havia passado a vida inteira ignorando. A cidade que agora era seu campo de batalha.
Elisa subiu para se juntar a ele.
— Não consegue dormir? — ela perguntou.
— Corpo artificial não precisa. — Ele riu, mas era uma risada sem graça. — Você também não.
Elisa sentou ao lado dele.
— A Nina contou sobre a visão.
— Você sabe?
— Eu sinto. Não preciso de visão para perceber que algo está pesando em você. — Ela ficou em silêncio por um momento. — O que ela viu?
— Uma escolha. Entre você e Adão.
Elisa não respondeu imediatamente. Quando falou, sua voz estava calma demais.
— Se for preciso, escolhe ele.
— O que?
— O Adão passou quarenta anos preso naquela prisão enquanto eu sofri por quinze. Se alguém nesta sala merece viver em paz sob a luz do sol, é ele. — Ela virou para Fernando. — Eu já vivi minha vida. Perdi 15 anos na Malha. Ganhei um corpo novo. Tive uma segunda chance. Se essa chance terminar amanhã ou daqui a 20 anos, já valeu a pena.
— Não vou escolher.
— Você vai ter que escolher.
— Então vou encontrar um terceiro caminho. — Fernando se levantou. — Foi o que eu fiz na Malha Original. Quando a Consciência Antiga ofereceu poder em troca de liberdade, eu disse não e encontrei outro jeito. Vou fazer o mesmo agora. — Ele olhou para Elisa. — Não vou deixar você morrer. Não vou deixar o Adão morrer. Vou encontrar um jeito de salvar os dois.
Elisa não respondeu. Mas quando Fernando desceu do telhado, ela ficou olhando para a cidade.
E pela primeira vez em 15 anos, Elisa sentiu medo.
Não da Consciência Antiga.
Não do Conselho.
Mas da certeza de que Fernando ia tentar o impossível — e talvez se destruir no processo.