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CAPÍTULO 50 — AS DUAS FACES DO CONSELHO

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Capítulo 50 de 94

CAPÍTULO 50 — AS DUAS FACES DO CONSELHO


O galpão na periferia de São Paulo ficava escondido entre uma recicladora e um depósito de sucata. Do lado de fora, parecia abandonado — portas enferrujadas, janelas quebradas, mato crescendo nas frestas do concreto. Mas dentro, era uma fortaleza.

Iara abriu a porta com um código de mana que Fernando mal conseguiu perceber com o Root reduzido. Lâmpadas fluorescentes acenderam automaticamente, revelando um espaço amplo, organizado, vivo.

— Bem-vindos à Rede.

Fernando entrou e parou.

O galpão era um centro de operações completo. Monitores nas paredes exibiam mapas de todo o Brasil, com pontos luminosos marcando locais de atividade de mana. Mesas de trabalho ocupavam o centro, cobertas de equipamentos — cristais, ferramentas, cadernos de anotações. E havia pessoas.

Não muitas. Talvez doze ou treze. Mas cada uma delas olhou para Fernando com uma mistura de curiosidade e esperança.

— A senhora que ressuscitou o marido está ali. — Iara apontou para uma mulher idosa, sentada em uma cadeira de rodas, os cabelos completamente brancos, a pele marcada por rugas profundas. — Ela salvou ele, mas perdeu a própria vitalidade. Não se arrepende.

— A estudante de Belém está lá no fundo, aprendendo a controlar a cura. O pedreiro de Manaus está na área de treinamento.

— Vocês construíram tudo isso em duas semanas? — Mikael perguntou, impressionado.

— A Rede existe há 15 anos. Desde que eu escapei do Conselho. — Iara sentou em uma cadeira. — Nós só estávamos esperando o momento certo para sair das sombras.

Fernando olhou ao redor. Cada uma daquelas pessoas era um Codificador. Cada uma tinha um poder único. Cada uma carregava o peso de ser caçada.

E todas estavam olhando para ele.

— Por que vocês confiam em mim? — ele perguntou.

— Porque você quebrou a Malha — uma voz jovem respondeu.

Era Nina. A garota de cabelo roxo estava sentada em um canto, as pernas cruzadas, um caderno no colo.

— Você entrou no núcleo do sistema e reescreveu o código. — Ela se levantou e caminhou até ele. — Eu vi. A gente viu. A Rede inteira sentiu quando você fez isso. Foi como um choque elétrico no ar. Pela primeira vez em anos, a Consciência Antiga ficou em silêncio.

— Ela está em silêncio?

— Não. — Nina balançou a cabeça. — Ela está esperando. Aguardando. Como um predador.

Iara interrompeu. — Nina tem uma vertente rara do Root. Ela vê probabilidades. Linhas do tempo possíveis. Ela é nossa principal ferramenta de antecipação.

— E o que ela vê para o futuro? — Fernando perguntou.

Nina hesitou. Olhou para Iara, que assentiu.

— Tem uma coisa que eu não te contei no Centro de Acolhimento. — Nina sentou no chão, puxando Fernando para sentar ao lado dela. — A visão que eu tive sobre você escolher entre Adão e Elisa... ela não é a única visão.

— Quantas mais?

— Muitas. — Nina abriu o caderno. Páginas e páginas de rabiscos — linhas, setas, números, anotações. — Toda noite eu vejo fragmentos. Coisas que podem acontecer. Coisas que provavelmente vão acontecer. Coisas que eu espero que não aconteçam.

Ela virou para uma página específica.

— Aqui. Três dias antes de você chegar, eu vi o Conselho. Sete figuras sentadas em uma mesa redonda. Mas uma delas estava... diferente. Como se não estivesse totalmente lá.

— O sétimo membro.

— Sim. — Nina apontou para o desenho. A sétima figura era um esboço vago, sem rosto definido. — Eu não consigo ver o rosto dele. É como se a probabilidade dele existir estivesse... embaralhada. Como se ele não fosse uma pessoa fixa.

— O que isso significa?

— Significa que ele pode estar usando algum tipo de disfarce. Ou que ele não é humano.

O silêncio caiu.

— O que mais você viu?

Nina virou mais páginas. Sua mão parou em um desenho que fez Fernando prender a respiração.

Era a Catedral da Sé. Mas não como ele lembrava. A catedral estava partida ao meio, uma fenda de luz violácea saindo do subsolo. E acima dela, pairando no ar, uma figura humana — ou o que um dia foi humana.

— Adão — Fernando murmurou.

— Não — Nina disse. — É a Consciência Antiga. Usando o corpo do Adão. — Ela ergueu os olhos. — É o que acontece se o Conselho conseguir libertar ela.

— Eu não vou deixar isso acontecer.

— Eu sei. Mas não é só você que decide. — Nina fechou o caderno. — A Consciência está se movendo. Ela não está mais presa na Malha Original. Depois que você reescreveu o código, ela encontrou brechas. Pequenas. Mas suficientes para se comunicar.

— Comunicar com quem?

— Com os novos Codificadores. — A voz de Iara era grave. — Cada despertar espontâneo que está acontecendo pelo Brasil... não é aleatório. É a Consciência chamando. Recrutando. Construindo um exército.

—

Fernando passou horas no galpão da Rede. Conversou com cada Codificador, ouviu cada história. A costureira que editava tecidos vivos. O motorista que acelerava metabolismo. A senhora que havia ressuscitado o marido.

Cada um tinha um fragmento do quebra-cabeça.

Ninguém tinha a peça completa.

No final da noite, enquanto ele se preparava para voltar à Arcadium, Nina o puxou pelo braço.

— Fernando. Tem mais uma coisa.

— O que?

— A visão da escolha. Entre Adão e Elisa. — Ela apertou os olhos, como se estivesse forçando a memória. — Ela não é fixa. Probabilidades mudam. Quando eu te vi pela primeira vez, a chance de você ter que fazer a escolha era de 87%. Agora...

— Agora?

— 94%. — Nina engoliu em seco. — A cada dia que passa, a escolha fica mais certa. Mais próxima. E eu não sei como impedir.

Fernando colocou a mão no ombro dela.

— A gente vai descobrir. Juntos.

Nina não respondeu. Mas seus olhos diziam tudo.

Ela não acreditava que dava para impedir.

Só sobreviver.