Pular para o conteúdo principal

CAPÍTULO 49 — O ENCONTRO

⏱️ ~7 min
🌿 Modo Zen ativo· Toque para ver controles
👈 Deslize p/ AnteriorDeslize p/ Próximo 👉

Capítulo 49 de 94

CAPÍTULO 49 — O ENCONTRO


O Teatro Municipal abandonado ficava na região central de São Paulo, a poucas quadras da Catedral da Sé.

A ironia não escapou a Fernando enquanto ele subia os degraus de pedra desgastada, acompanhado por Mikael e Elisa. O mesmo chão que ele havia pisado semanas atrás, quando enfrentou a Consciência Antiga, agora o levava a um novo encontro com o Conselho.

— Você tem certeza que quer entrar sozinho? — Elisa perguntou.

— O Mikael vai comigo. E você vai ficar de vigia lá fora.

— Se algo der errado...

— Você entra. — Fernando parou e virou para ela. — Mas só se algo der errado. Se o Conselho nos vir em maioria, eles podem recuar. E a gente precisa das informações que eles têm.

Elisa não gostou. Mas ela assentiu.

— Três minutos de atraso. Se não ouvir nada em três minutos, entro.

— Combinado.

Fernando e Mikael entraram.

O teatro era uma sombra do que já foi. As cortinas de veludo estavam rasgadas. As poltronas, cobertas por lençóis empoeirados. O palco estava vazio, exceto por três figuras sentadas em cadeiras de madeira, iluminadas por um único foco de luz vindo do teto quebrado.

Três pessoas.

A primeira era uma mulher de jaleco branco, cabelos grisalhos presos em um coque apertado, óculos de aro fino. Doutora Helena. A cientista. Seu rosto transmitia inteligência e cansaço — o peso de 40 anos de experimentos e arrependimentos.

A segunda era um homem de terno caro, com anéis de ouro nos dedos e um sorriso que não alcançava os olhos. Senhor Martim. O empresário. Ele exalava o cheiro de dinheiro e sangue.

E a terceira era uma mulher.

Cabelos brancos como neve, cortados curtos. Pele morena, olhos escuros. Ela vestia roupas simples — calça jeans, camiseta preta, uma jaqueta de couro desgastada. Nada que combinasse com o Conselho. Nada que combinasse com a Doutora ou o Empresário.

Ela estava sentada separada dos outros dois, como se não pertencesse ao mesmo grupo.

— Codificador Nº 47 — a Doutora Helena disse, sem rodeios. — Ou devo chamar de "O Administrador"? A mídia está adotando o apelido.

— Fernando está bom. — Ele parou no centro do palco, Mikael ao lado. — Para que vocês me chamaram?

— Para negociar — o Senhor Martim respondeu, a voz untuosa. — O Conselho Original reconhece seu poder e sua influência. Reconhece que você reescreveu a Malha e assumiu o controle da Arcadium. E quer propor uma aliança.

— Uma aliança?

— O mundo está mudando, Fernando. — Helena se levantou. — Novos Codificadores estão despertando em massa. A Consciência Antiga está ativa. O equilíbrio de poder que mantivemos por 40 anos está desmoronando. Sozinho, você não consegue controlar isso. Nem nós. Mas juntos...

— Juntos vocês me usariam como controlaram Adão.

— Adão foi um sacrifício necessário. — A voz de Helena foi firme, mas algo vacilou em seus olhos. — Ele sabia disso. Ele aceitou.

— Ele aceitou porque vocês ameaçaram a Elisa.

O silêncio foi a resposta.

Fernando avançou um passo.

— Eu sei de tudo. Sei que vocês criaram Codificadores para alimentar a Malha. Sei que usaram a Consciência Antiga para amplificar o poder de vocês. Sei que Colheram 31 Codificadores em 40 anos. — Ele olhou para cada um dos três. — E sei que vocês estão desesperados porque a Consciência está escapando do controle de vocês.

Martim franziu a testa. — Você não entende o que está lidando.

— Entendo mais do que você pensa.

— Não. — A terceira figura falou pela primeira vez.

A mulher de cabelos brancos se levantou.

Sua voz era calma, mas carregava uma autoridade que fez até Martim ficar em silêncio.

— Você não entende, Fernando. Porque eles mentiram para você. — Ela deu um passo à frente. — O Conselho não criou o Projeto Codificador para controlar a Consciência Antiga. Eles criaram para alimentá-la. E a Consciência não é um monstro aprisionado. Ela é a chave para algo maior.

— Chave para o que?

A mulher parou a um metro de distância.

— Para a verdade sobre os portais. Sobre de onde eles vieram. E sobre o que está do outro lado.

Ela estendeu a mão.

— Meu nome é Iara. Sou a Codificadora Nº 8. A última Codificadora "natural" antes do Conselho começar a criar artificiais. — Ela segurou o olhar de Fernando. — E eu sou a mensageira de uma facção que o Conselho não sabe que existe.

Helena se levantou, alarmada. — Iara! Você não estava autorizada a...

— Cale a boca, Helena. — Iara não desviou o olhar de Fernando. — Eu vim aqui por minha própria vontade. Não pelo Conselho. — Ela baixou a mão. — Eu vim para te avisar, Fernando. O Conselho está dividido. Metade deles — a facção de Helena — quer te recrutar para fortalecer o selo da Consciência. A outra metade — a facção de Martim — quer te usar como combustível para libertar a Consciência de vez.

— E você? Qual facção representa?

Iara sorriu. Era um sorriso triste.

— Eu represento uma terceira facção. A dos Codificadores que sobreviveram. Que se esconderam. Que esperaram 40 anos por alguém que pudesse enfrentar o Conselho. — Ela apontou para Fernando. — E esse alguém é você.

Martim ergueu a mão, e o anel em seu dedo brilhou.

— Chega de conversa. — Sua voz perdeu a untuosidade. — O Conselho não tolera traição, Iara. Você será levada para julgamento.

— Não hoje. — A voz de Elisa veio das cortinas do palco.

Ela apareceu das sombras, o corpo de prata brilhando sob a luz do teatro.

— Fernando, eles chamaram reforços. Tem carros chegando. Cinco. Um deles é o Executor novo.

— O Conselho tem Executores de reserva? — Fernando perguntou.

— Sempre tem — Iara respondeu. — E se eles te pegarem aqui, você não sai vivo.

Martim abriu um sorriso. — Tarde demais. Os Executores já estão no perímetro.

Helena hesitou. Olhou para Martim, depois para Fernando. — Martim... o plano era negociar.

— O plano era capturar. Sempre foi. — Martim ajustou o paletó. — Você é ingênua, Helena. Acha que 40 anos de Conselho acabariam em uma mesa de negociação?

Fernando sentiu o Root pulsar em seu peito — fraco, mas presente. Ele olhou para Elisa, para Mikael, para Iara.

— Saída?

— Pelos fundos — Iara disse. — Mas a gente precisa de tempo.

Elisa sorriu.

— Tempo eu tenho.

Ela se virou para a entrada do teatro, onde os primeiros passos dos Executores já ecoavam no saguão.

— Vão. Eu seguro eles.

— Elisa... — Fernando começou.

— 15 anos presa. — Ela olhou para ele por cima do ombro. — Deixa eu gastar um pouco da raiva.

Ela avançou.

Fernando, Mikael e Iara correram para os fundos.

—

O corredor dos bastidores estava escuro, cheio de cenários quebrados e equipamentos enferrujados. Iara guiava o grupo com uma familiaridade que vinha de anos de clandestinidade.

— Por que você está nos ajudando? — Fernando perguntou, enquanto corria.

— Porque eu cansei de me esconder. — Iara chutou uma porta dos fundos, que se abriu para um beco. — E porque você fez algo que nenhum de nós teve coragem de fazer: enfrentou o Conselho de frente.

— Ainda não venci.

— Não. — Ela parou na saída e olhou para ele. — Mas você está vivo. O que é mais do que muitos Codificadores podem dizer.

Lá dentro, o som de vidro quebrando e metais se chocando ecoou pelo teatro.

Elisa estava lutando.

Fernando apertou os punhos.

— A gente vai voltar para buscá-la?

— Não precisa. — Iara apontou para o telhado. Uma silhueta prateada saltou do segundo andar e aterrissou suavemente no beco ao lado deles.

Elisa, inteira.

— Três Executores — ela disse, ajustando o braço que estava levemente deslocado. — Dois neutralizados. Um fugiu. A Helena deixou eu ir.

— Ela te deixou ir?

— Ela sussurrou antes de eu pular. — Elisa franziu a testa. — "Diga ao Fernando que Martim não é o único problema. Tem um sétimo membro no Conselho. Alguém que nunca apareceu publicamente."

— O sétimo — Fernando repetiu.

— Acho que a gente acabou de descobrir que "Sete" não são só os membros do Conselho. — Elisa olhou para a noite. — É algo mais.