Capítulo 49 de 94
CAPÍTULO 49 — O ENCONTRO
O Teatro Municipal abandonado ficava na região central de São Paulo, a poucas quadras da Catedral da Sé.
A ironia não escapou a Fernando enquanto ele subia os degraus de pedra desgastada, acompanhado por Mikael e Elisa. O mesmo chão que ele havia pisado semanas atrás, quando enfrentou a Consciência Antiga, agora o levava a um novo encontro com o Conselho.
— Você tem certeza que quer entrar sozinho? — Elisa perguntou.
— O Mikael vai comigo. E você vai ficar de vigia lá fora.
— Se algo der errado...
— Você entra. — Fernando parou e virou para ela. — Mas só se algo der errado. Se o Conselho nos vir em maioria, eles podem recuar. E a gente precisa das informações que eles têm.
Elisa não gostou. Mas ela assentiu.
— Três minutos de atraso. Se não ouvir nada em três minutos, entro.
— Combinado.
Fernando e Mikael entraram.
O teatro era uma sombra do que já foi. As cortinas de veludo estavam rasgadas. As poltronas, cobertas por lençóis empoeirados. O palco estava vazio, exceto por três figuras sentadas em cadeiras de madeira, iluminadas por um único foco de luz vindo do teto quebrado.
Três pessoas.
A primeira era uma mulher de jaleco branco, cabelos grisalhos presos em um coque apertado, óculos de aro fino. Doutora Helena. A cientista. Seu rosto transmitia inteligência e cansaço — o peso de 40 anos de experimentos e arrependimentos.
A segunda era um homem de terno caro, com anéis de ouro nos dedos e um sorriso que não alcançava os olhos. Senhor Martim. O empresário. Ele exalava o cheiro de dinheiro e sangue.
E a terceira era uma mulher.
Cabelos brancos como neve, cortados curtos. Pele morena, olhos escuros. Ela vestia roupas simples — calça jeans, camiseta preta, uma jaqueta de couro desgastada. Nada que combinasse com o Conselho. Nada que combinasse com a Doutora ou o Empresário.
Ela estava sentada separada dos outros dois, como se não pertencesse ao mesmo grupo.
— Codificador Nº 47 — a Doutora Helena disse, sem rodeios. — Ou devo chamar de "O Administrador"? A mídia está adotando o apelido.
— Fernando está bom. — Ele parou no centro do palco, Mikael ao lado. — Para que vocês me chamaram?
— Para negociar — o Senhor Martim respondeu, a voz untuosa. — O Conselho Original reconhece seu poder e sua influência. Reconhece que você reescreveu a Malha e assumiu o controle da Arcadium. E quer propor uma aliança.
— Uma aliança?
— O mundo está mudando, Fernando. — Helena se levantou. — Novos Codificadores estão despertando em massa. A Consciência Antiga está ativa. O equilíbrio de poder que mantivemos por 40 anos está desmoronando. Sozinho, você não consegue controlar isso. Nem nós. Mas juntos...
— Juntos vocês me usariam como controlaram Adão.
— Adão foi um sacrifício necessário. — A voz de Helena foi firme, mas algo vacilou em seus olhos. — Ele sabia disso. Ele aceitou.
— Ele aceitou porque vocês ameaçaram a Elisa.
O silêncio foi a resposta.
Fernando avançou um passo.
— Eu sei de tudo. Sei que vocês criaram Codificadores para alimentar a Malha. Sei que usaram a Consciência Antiga para amplificar o poder de vocês. Sei que Colheram 31 Codificadores em 40 anos. — Ele olhou para cada um dos três. — E sei que vocês estão desesperados porque a Consciência está escapando do controle de vocês.
Martim franziu a testa. — Você não entende o que está lidando.
— Entendo mais do que você pensa.
— Não. — A terceira figura falou pela primeira vez.
A mulher de cabelos brancos se levantou.
Sua voz era calma, mas carregava uma autoridade que fez até Martim ficar em silêncio.
— Você não entende, Fernando. Porque eles mentiram para você. — Ela deu um passo à frente. — O Conselho não criou o Projeto Codificador para controlar a Consciência Antiga. Eles criaram para alimentá-la. E a Consciência não é um monstro aprisionado. Ela é a chave para algo maior.
— Chave para o que?
A mulher parou a um metro de distância.
— Para a verdade sobre os portais. Sobre de onde eles vieram. E sobre o que está do outro lado.
Ela estendeu a mão.
— Meu nome é Iara. Sou a Codificadora Nº 8. A última Codificadora "natural" antes do Conselho começar a criar artificiais. — Ela segurou o olhar de Fernando. — E eu sou a mensageira de uma facção que o Conselho não sabe que existe.
Helena se levantou, alarmada. — Iara! Você não estava autorizada a...
— Cale a boca, Helena. — Iara não desviou o olhar de Fernando. — Eu vim aqui por minha própria vontade. Não pelo Conselho. — Ela baixou a mão. — Eu vim para te avisar, Fernando. O Conselho está dividido. Metade deles — a facção de Helena — quer te recrutar para fortalecer o selo da Consciência. A outra metade — a facção de Martim — quer te usar como combustível para libertar a Consciência de vez.
— E você? Qual facção representa?
Iara sorriu. Era um sorriso triste.
— Eu represento uma terceira facção. A dos Codificadores que sobreviveram. Que se esconderam. Que esperaram 40 anos por alguém que pudesse enfrentar o Conselho. — Ela apontou para Fernando. — E esse alguém é você.
Martim ergueu a mão, e o anel em seu dedo brilhou.
— Chega de conversa. — Sua voz perdeu a untuosidade. — O Conselho não tolera traição, Iara. Você será levada para julgamento.
— Não hoje. — A voz de Elisa veio das cortinas do palco.
Ela apareceu das sombras, o corpo de prata brilhando sob a luz do teatro.
— Fernando, eles chamaram reforços. Tem carros chegando. Cinco. Um deles é o Executor novo.
— O Conselho tem Executores de reserva? — Fernando perguntou.
— Sempre tem — Iara respondeu. — E se eles te pegarem aqui, você não sai vivo.
Martim abriu um sorriso. — Tarde demais. Os Executores já estão no perímetro.
Helena hesitou. Olhou para Martim, depois para Fernando. — Martim... o plano era negociar.
— O plano era capturar. Sempre foi. — Martim ajustou o paletó. — Você é ingênua, Helena. Acha que 40 anos de Conselho acabariam em uma mesa de negociação?
Fernando sentiu o Root pulsar em seu peito — fraco, mas presente. Ele olhou para Elisa, para Mikael, para Iara.
— Saída?
— Pelos fundos — Iara disse. — Mas a gente precisa de tempo.
Elisa sorriu.
— Tempo eu tenho.
Ela se virou para a entrada do teatro, onde os primeiros passos dos Executores já ecoavam no saguão.
— Vão. Eu seguro eles.
— Elisa... — Fernando começou.
— 15 anos presa. — Ela olhou para ele por cima do ombro. — Deixa eu gastar um pouco da raiva.
Ela avançou.
Fernando, Mikael e Iara correram para os fundos.
—
O corredor dos bastidores estava escuro, cheio de cenários quebrados e equipamentos enferrujados. Iara guiava o grupo com uma familiaridade que vinha de anos de clandestinidade.
— Por que você está nos ajudando? — Fernando perguntou, enquanto corria.
— Porque eu cansei de me esconder. — Iara chutou uma porta dos fundos, que se abriu para um beco. — E porque você fez algo que nenhum de nós teve coragem de fazer: enfrentou o Conselho de frente.
— Ainda não venci.
— Não. — Ela parou na saída e olhou para ele. — Mas você está vivo. O que é mais do que muitos Codificadores podem dizer.
Lá dentro, o som de vidro quebrando e metais se chocando ecoou pelo teatro.
Elisa estava lutando.
Fernando apertou os punhos.
— A gente vai voltar para buscá-la?
— Não precisa. — Iara apontou para o telhado. Uma silhueta prateada saltou do segundo andar e aterrissou suavemente no beco ao lado deles.
Elisa, inteira.
— Três Executores — ela disse, ajustando o braço que estava levemente deslocado. — Dois neutralizados. Um fugiu. A Helena deixou eu ir.
— Ela te deixou ir?
— Ela sussurrou antes de eu pular. — Elisa franziu a testa. — "Diga ao Fernando que Martim não é o único problema. Tem um sétimo membro no Conselho. Alguém que nunca apareceu publicamente."
— O sétimo — Fernando repetiu.
— Acho que a gente acabou de descobrir que "Sete" não são só os membros do Conselho. — Elisa olhou para a noite. — É algo mais.