Capítulo 4 de 94
CAPÍTULO 4 — COLAPSO
O som de passos no túnel escuro não parava.
Fernando ficou imóvel, a mão ainda sobre o peito de Bruno, o cristal de mana vazio reduzido a pó entre seus dedos. Os passos eram ritmados. Calmos. Não eram passos de alguém correndo em pânico, nem de uma criatura caçando.
Eram passos de quem sabia onde estava indo.
— Quem está aí? — Fernando chamou, a voz ecoando no concreto úmido.
Ninguém respondeu. Os passos continuaram. Mais próximos.
RECOMENDO CAUTELA. O SINAL DETECTADO NÃO É HUMANO, NEM ANIMAL, NEM MONSTRO CONHECIDO.
— Então o que é?
NÃO TENHO DADOS SUFICIENTES PARA UMA CLASSIFICAÇÃO PRECISA. MAS O SINAL É... ANTIGO.
Antigo. A palavra pairou na mente de Fernando como uma neblina fria. Ele olhou ao redor, procurando algo — qualquer coisa — que pudesse usar como arma. Uma barra de ferro. Um pedaço de concreto. Nada.
Os passos pararam a alguns metros de distância. Na escuridão, Fernando conseguiu distinguir uma silhueta.
Era alta. Mais alta que um homem normal. Vestia algo que parecia um casaco comprido, rasgado e sujo. Mas o rosto... o rosto estava na sombra, mesmo sem luz suficiente para projetar sombras.
— Você ouviu — disse a silhueta. A voz era distorcida, como se viesse de um rádio mal sintonizado. — O sistema falou com você.
Fernando engoliu em seco. — Quem é você?
— Não importa quem eu sou. Importa o que você ouviu.
A silhueta deu um passo à frente. A luz pálida do fungo bioluminescente no teto revelou fragmentos de um rosto humano — ou algo que imitava um. A pele era cinzenta, marcada por linhas finas que brilhavam com a mesma luz violácea da fenda.
— Você tocou o código — a figura continuou. — Poucos conseguem. Menos ainda sobrevivem à primeira edição. Você é um achado.
— Eu não sei do que você está falando — Fernando disse, recuando instintivamente. — Eu só... eu só queria salvar ele.
— E salvou. — A criatura inclinou a cabeça, como um pássaro examinando algo curioso. — Mas a um custo. Usou o cristal. Drenou o ambiente. Queimou mana que não era sua. Cada edição feita sem preparo deixa um rastro. E rastros atraem coisas piores do que monstros de Rank C.
A figura apontou para cima, para o buraco no teto. As silhuetas ainda estavam lá, imóveis, observando.
— Eles sentiram. Foi por isso que pararam. Não porque estão esperando. Porque estão ouvindo. Tentando entender de onde veio o pulso.
— Que pulso?
— Quando você editou a malha vital do seu amigo, soltou uma onda de mana codificada. Para a maioria dos monstros, é apenas ruído. Para certas criaturas... — a figura mostrou o que parecia ser um sorriso, cheio de dentes afiados demais para uma boca humana — ...é um convite.
Fernando sentiu o sangue gelar. — O que você quer?
— Quero te dar um aviso. De graça. Porque você me lembra alguém. — A figura recuou um passo, começando a se dissolver na escuridão. — Esconde o que você sabe. Não conta para a guilda. Não usa o poder em público. E nunca, nunca edite a malha de alguém sem entender completamente o que está mudando.
— Espera! — Fernando deu um passo à frente. — Quem era a pessoa que eu lembro?
A figura já estava quase invisível na escuridão. Mas sua voz chegou clara, cortante como uma lâmina:
— Alguém que também ouviu o sistema. E que pagou caro por isso.
Silêncio.
Os passos recuaram, desaparecendo nas profundezas do túnel.
Fernando ficou parado, o coração batendo tão forte que doía. A criatura tinha ido embora. Mas a sensação de que algo fundamental havia mudado — algo que ele ainda não compreendia — permaneceu.
Bruno gemeu ao lado.
— Fernando...? — a voz do guerreiro era fraca, confusa. — Onde... o que aconteceu...?
— Fica quieto. — Fernando ajoelhou ao lado dele. — Você está ferido. Mas vai ficar bem. Só... só descansa.
Bruno tentou sentar, mas caiu de volta com uma careta.
— O peito... não dói mais tanto. O que você fez?
Fernando hesitou. O aviso da criatura ecoou na sua mente: Não conta para a guilda. Não usa o poder em público.
— Nada. Só... te arrastei para cá. Você se safou.
Bruno franziu a testa, mas não tinha forças para questionar. Seus olhos se fecharam.
Lá em cima, os sons de movimento recomeçaram. Gritos. Passos apressados. Sirenes ao longe.
A guilda estava chegando.
Fernando olhou para as próprias mãos. O brilho dourado tinha sumido completamente. Mas ele sabia que estava lá, dormente, esperando.
Ele havia salvado Bruno.
Mas por dentro, uma sensação nova crescia — não de heroísmo, mas de fome.
Ele queria editar de novo. Queria entender os limites. Queria saber tudo que o sistema podia fazer.
E isso era a coisa mais assustadora de todas.