Capítulo 48 de 94
CAPÍTULO 48 — O DESPERTAR EM MASSA
Três dias depois, o primeiro relato chegou.
Não era um boletim oficial — a mídia ainda não entendia o que estava acontecendo. Era uma mensagem de texto, enviada para o telefone de contato que o grupo havia divulgado discretamente entre caçadores de confiança.
"Um cobrador de ônibus em Recife. Nome: Jorginho. 34 anos. Durante uma tentativa de assalto, ele segurou a faca do assaltante e o metal derreteu nas mãos dele. Ele não tem treinamento. Nunca entrou em uma dungeon. Acordou há dois dias."
Sofia leu a mensagem em voz alta durante o café da manhã na sala de operações. O grupo comeu em silêncio, processando a informação.
— Um novo Codificador — Lúcio disse. — Espontâneo.
— Não é o único. — Sofia passou o telefone para Fernando. — Tem mais três relatos desde ontem. Uma estudante em Belém que curou o gato atropelado. Um pedreiro em Manaus que quebrou uma parede com um toque. Uma senhora em Porto Alegre que... — ela hesitou — ...ressuscitou o marido. Três minutos depois da morte clínica.
— Ressuscitou? — Raul largou o garfo. — Isso é possível?
— Com o Root, tudo é possível — Elisa respondeu. — O problema é o preço.
— Qual preço?
— A senhora envelheceu 15 anos em três minutos — Sofia disse calmamente. — Ela salvou o marido, mas o esforço queimou a vitalidade dela. Ela está viva, mas... reduzida.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Isso vai se espalhar — Fernando disse, colocando o telefone na mesa. — O pulso que a Consciência Antiga liberou quando eu reescrevi a Malha atingiu todos os Covis...
Isso é algo que também aconteceu com a Elisa?
— Atingiu locais com alta concentração de mana. E o Brasil inteiro tem. — Elisa cruzou os braços. — Mas não foi só a reescrita da Malha. A Consciência quer ser encontrada. Ela está acelerando o despertar de novos Codificadores para criar caos. Quanto mais Codificadores existirem, mais difícil será para o Conselho — ou para nós — controlar a situação.
— Então a gente precisa encontrar esses novos Codificadores antes do Conselho — Bruno disse.
— E treinar eles — Margarida acrescentou. — Se eles não souberem controlar o poder, vão acabar como a senhora de Porto Alegre. Ou pior.
Fernando se levantou. — Então é isso. A gente expande o Centro de Acolhimento. Cria uma rede de contatos em cada estado. E descobre quem são os novos Codificadores antes que o Conselho chegue neles primeiro.
— E o Conselho? — Raul perguntou.
— O Conselho sabe o que está acontecendo. Eles também estão atrás dos novos Codificadores. A diferença é que a gente quer ajudar eles. O Conselho quer controlar eles.
— Como a gente sabe que eles não vão querer ser controlados? — Lúcio perguntou, a voz baixa. — Se o Conselho oferecer poder, segurança, dinheiro... por que um Cobrador de ônibus escolheria a gente?
Porque a gente oferece dignidade... — Fernando olhou para cada um. — A gente sabe o que é ser invisível. E a gente não vai deixar ninguém passar por isso de novo.
—
Dois dias depois, o cobrador de ônibus chegou.
Ele não veio sozinho.
A porta do Centro de Acolhimento se abriu — quebrada, porque o conserto ainda não tinha sido feito — e Jorginho entrou com uma mochila nas costas e uma expressão de quem não sabia se devia ter medo ou esperança.
Atrás dele, uma garota magra de 16 anos, com cabelos pintados de roxo e um olhar desafiador. E atrás dela, um homem de terno amarrotado, com uma pasta debaixo do braço e um crachá que pendia torto no bolso do paletó.
O homem de terno se adiantou e estendeu a mão para Fernando.
— Mikael. Ex-policial civil. Ex-Codificador do Conselho Original. — Ele esperou Fernando apertar a mão. — Agora, desempregado e com uma dívida de gratidão com você.
Fernando franziu a testa. — Gratidão?
— Você destruiu a réplica da Malha. Isso me libertou. — Mikael abriu a pasta e tirou uma pasta de documentos. — Eu fui o primeiro Codificador "artificial". O Conselho não esperou o despertar espontâneo. Eles criaram Codificadores em laboratório. Eu era um deles. Passei 10 anos como fantoche deles. Até você quebrar o sistema.
— E agora?
— Agora eu vim pagar a dívida. — Mikael colocou a pasta na mesa. — O Conselho quer encontrar você. Eles querem negociar. Mas eles não vão vir até aqui. Eles querem que você vá até eles.
— Onde?
— Um teatro abandonado. Centro de São Paulo. Amanhã, meia-noite. — Mikael olhou nos olhos de Fernando. — Eles vão enviar representantes. Três pessoas. Duas eu conheço. Uma não.
— Quem são os representantes?
— A Doutora Helena. A cientista que criou o Projeto Codificador. O Senhor Martim. O empresário que financiava o Conselho. — Ele hesitou. — E uma mulher de cabelos brancos. Eu nunca vi ela antes.
— Uma Codificadora — Elisa disse, se aproximando.
— Sim. E pela assinatura de mana... — Mikael engoliu em seco. — Ela é mais poderosa que qualquer um que eu já vi.
Elisa e Fernando trocaram um olhar.
— Amanhã, meia-noite — Fernando repetiu.
— Amanhã, meia-noite.
Mikael olhou para os dois novos Codificadores atrás dele — Jorginho e a garota de cabelo roxo.
— Eles também precisam de ajuda. O Jorginho quase matou a própria mãe sem querer. A Nina... — ele apontou para a garota — ...ela vê coisas que não deveria existir.
A garota de cabelo roxo — Nina — olhou diretamente para Fernando.
— Você é o que quebrou a Malha — ela disse. A voz era jovem, mas os olhos eram velhos. — Eu vi você. No meio do código. Você tava sozinho, cercado de luz violácea. Você tava gritando. Mas você não parou.
Ela deu um passo à frente.
— Eu vejo coisas. Probabilidades. Futuros possíveis. — Ela tocou o braço de Fernando. — E tem uma coisa que eu vi que você precisa saber.
— O que?
Nina inclinou a cabeça, os olhos vidrados, como se estivesse vendo algo além da sala.
— Você vai ter que escolher. Salvar o Adão... ou salvar a Elisa. Não dá para salvar os dois.
O silêncio caiu.
Fernando sentiu o sangue gelar.
— Quando?
— Não sei. — Nina piscou, voltando ao normal. — Só sei que a escolha vai chegar. E quando chegar... — ela olhou para Elisa, depois para Fernando — ...não vai ter resposta certa.