Capítulo 47 de 94
CAPÍTULO 47 — O NOVO NORMAL
O edifício da Arcadium não era mais o mesmo.
Onde antes havia recepcionistas de terno e crachá, agora havia uma placa de madeira pintada à mão, pendurada na portaria de vidro: "CENTRO DE ACOLHIMENTO — LIVRE". Onde antes o balcão de informações exibia telas com classificações de missões e rankings de caçadores, agora havia mapas da cidade marcados com alfinetes coloridos — cada um representando um ponto de apoio para caçadores marginalizados.
O novo normal.
Fernando subiu as escadas do vigésimo andar com uma caneca de café em cada mão. O sol da manhã entrava pelas janelas quebradas que ainda não tinham sido consertadas — problemas de infraestrutura eram prioridade menor quando se estava reconstruindo um império do zero.
No caminho, ele passou por uma sala que antes era a diretoria financeira. Agora era um dormitório improvisado para três caçadores que haviam chegado na noite anterior — dois carregadores de Rank F sem contrato, expulsos da guilda vizinha por "desempenho insatisfatório". Bruno os havia acolhido sem hesitar.
— Eles são gente — o guerreiro tinha dito, quando Fernando questionou a lotação. — A gente sabe como é ser descartado.
Fernando não argumentou.
Ele continuou subindo. O vigésimo andar agora era o centro de operações. Mesas de reunião cobertas de mapas, uma lousa com rabiscos de estratégia, cabos de energia cruzando o chão como veias improvisadas. Raul estava encostado em uma parede, treinando reflexos com uma faca cega. Sofia estava em outra mesa, soldando componentes elétricos com uma concentração de cirurgiã. Lúcio estava na enfermaria do terceiro andar, como sempre.
— Café.
Fernando estendeu a caneca para a única pessoa sentada na mesa principal.
Margarida pegou o café sem olhar para cima. Ela estava lendo um relatório de ocorrências da noite anterior — três invasões a depósitos de cristal na Zona Sul, possivelmente ligadas ao Conselho.
— Elisa acordou?
— Não dormiu. — Margarida tomou um gole. — Tá no quarto do Adão de novo.
Fernando não respondeu. Ele apenas virou e seguiu pelo corredor.
—
O quarto de Adão era uma sala de reuniões adaptada. As cortinas estavam sempre fechadas. Uma cama hospitalar ocupava o centro, cercada por monitores cardíacos, medidores de mana, e fios que conectavam o corpo inerte de Adão a um sistema de suporte vital improvisado.
Elisa estava sentada ao lado da cama, as mãos de prata entrelaçadas sobre o colo. Seu corpo artificial refletia a luz fraca do monitor cardíaco, criando sombras dançantes nas paredes.
— Você não dormiu de novo. — Fernando parou na porta.
— Não preciso dormir. Lembra? — Elisa tocou o próprio peito, onde o núcleo de cristal pulsava com uma luz suave. — Corpo artificial. Sem ciclo circadiano.
— Mesmo assim. Você precisa descansar a mente.
— Minha mente descansa quando ele acordar.
Fernando puxou uma cadeira e sentou ao lado dela. O silêncio se estendeu por um longo minuto, preenchido apenas pelo bipe rítmico dos monitores.
— Ele vai acordar — Fernando disse.
— Você não sabe disso.
— Sei. — Ele apontou para os monitores. — A atividade cerebral dele está aumentando. Lentamente, mas aumentando. O Root dele está reagindo à reescrita da Malha.
Elisa virou para ele. Seus olhos dourados estavam cansados — não fisicamente, porque ela não tinha corpo físico para se cansar, mas de uma forma que ia além do material.
— E se ele acordar diferente? — ela perguntou. — E se a Consciência Antiga tiver deixado marcas?
— Então a gente ajuda ele a lidar com isso.
— E se ele não for mais o mesmo? E se o Adão que eu conheci tiver morrido dentro da Malha?
Fernando olhou para o homem na cama. O rosto de Adão estava calmo, quase sereno. As cicatrizes no torso pareciam menos vermelhas do que no dia em que eles o resgataram.
— Existe uma diferença entre morrer e mudar — Fernando disse. — Ele mudou. Quarenta anos preso na Malha mudam qualquer um. Mas isso não significa que o que ele era morreu. Significa que ele precisa de ajuda para encontrar quem ele é agora.
Elisa ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, lentamente, ela estendeu a mão de prata e tocou o rosto de Adão.
— Eu esperei 15 anos por ele — ela sussurrou. — Posso esperar mais alguns dias.
O monitor cardíaco de Adão mudou de ritmo.
Um bipe diferente. Mais rápido.
Elisa e Fernando se entreolharam.
— Ele está... — Elisa começou.
— ...respondendo.
O monitor cerebral de Adão disparou. As linhas verdes que antes desenhavam uma reta quase plana começaram a formar picos — irregulares, instáveis, mas ativos.
— Adão? — Elisa se inclinou sobre ele. — Adão, você está aí?
A boca de Adão se moveu. Apenas um milímetro, mas se moveu.
— O que ele disse? — Fernando perguntou.
Elisa aproximou o ouvido dos lábios de Adão.
— Ele disse... — Ela ergueu a cabeça, os olhos arregalados. — "Sete."
—
O grupo foi reunido em minutos.
— Sete — Bruno repetiu, sentado na mesa de operações. — O que significa?
— Sete membros do Conselho Original — Fernando respondeu. — Adão estava preso na Malha por 40 anos. Se ele está dizendo "sete" agora, é porque ele está sentindo eles. Ou sabe onde estão.
— Ou está avisando — Margarida completou. — Sete sombras se aproximando.
— Sete é também o número de Codificadores originais que sobreviveram ao Projeto — Elisa acrescentou. — Adão era o primeiro. Eu era o segundo. Rafael, o terceiro. Depois vieram outros quatro. Seis no total, além de Adão.
— Seis Codificadores originais ainda vivos — Sofia calculou. — Mais os novos que estão despertando.
— O Conselho não são apenas sete membros — Fernando disse, os dedos tamborilando na mesa. — Eles são sete poderes. Cada um com uma vertente diferente do Root. Adão era a Malha. Rafael era a Edição. Elisa é a Conexão. Os outros quatro...
— A gente não sabe o que eles fazem — Elisa completou. — E é isso que me assusta.
O silêncio caiu sobre o grupo. Lá fora, a cidade continuava pulsando. Dentro, o novo normal começava a mostrar suas primeiras rachaduras.
— Então — Bruno disse, puxando a espada para inspecionar o fio — é hora de caçar.
Fernando olhou para a lousa de estratégia. Para os alfinetes no mapa. Para o grupo que havia lutado ao seu lado até o fim.
— É hora de caçar.