Capítulo 46 de 94
CAPÍTULO 46 — O LEGADO
Fernando abriu os olhos sob a claridade suave de um quarto hospitalar impecavelmente limpo.
Não havia o cheiro sulfuroso do núcleo corrompido de Joaquim Viana, nem o ranger das vigas da torre sob o colapso da Malha. Havia apenas o som rítmico e reconfortante de um monitor cardíaco de tecnologia convencional e o cheiro fresco de flores de laranjeira pousadas em um vaso na mesa de cabeceira.
— Ele acordou! — a voz de Bruno ecoou no cômodo, com uma vibração de alívio que parecia prestes a derrubar as paredes.
Passos apressados aproximaram-se da cama. Em segundos, Fernando viu-se cercado pelos rostos cansados, mas radiantes de sua família improvisada: Bruno com uma tipoia no braço direito e um sorriso largo; Margarida com os olhos vermelhos de quem passara noites em oração; Raul e Sofia segurando uma jarra de água; o Padre Lúcio com a mão erguida em uma bênção silenciosa; e Hiroshi, em pé junto à janela, com os braços cruzados sobre o peito.
— Quanto tempo eu fiquei apagado? — conseguiu perguntar Fernando, com a garganta seca como lixa.
— Três dias e quatro noites, Administrador — respondeu uma voz suave, clara e profundamente musical vinda da poltrona ao lado do leito.
Fernando virou a cabeça devagar. Seu coração deu um salto suave no peito.
Sentada ao lado da cama estava Elisa. Não mais um holograma translúcido que piscava nas bordas da rede, e não mais uma consciência aprisionada em arquivos de dados. Ela vestia um suéter de lã cinza e calça jeans. Suas mãos — modeladas na liga prateada de mana viva que Fernando tecera com precisão cirúrgica — descansavam suavemente sobre o lençol branco.
Ela tocou os dedos de Fernando. O contato foi morno, sólido, real.
— O corpo biovital funcionou perfeitamente, Fernando — disse ela com os olhos dourados brilhando de gratidão pura. — A sincronia neural está em noventa e oito por cento. Pela primeira vez em quinze anos... eu consigo sentir o peso do ar, a textura do tecido e o calor de uma mão amiga.
Fernando sorriu de volta, sentindo uma paz indescritível descer sobre seu peito.
— E a Arcadium? — perguntou ele, olhando para Bruno.
O guerreiro puxou uma cadeira de metal e sentou-se ao lado da cama, exibindo uma pasta de couro com o brasão do Tribunal Regional de Justiça de São Paulo.
— Joaquim Viana não existe mais — disse Bruno. — Quando o núcleo da torre ruiu e o Homem de Terno Preto fugiu, a farsa corporativa inteira desabou. Os auditores fiscais e os peritos independentes da Aliança Livre entraram no edifício. Todas as contas secretas foram congeladas e os contratos predatórios de caçadores foram anulados por decreto judicial de emergência.
— E o prédio?
— O edifício inteiro de vinte andares no centro foi transferido para a tutela de um conselho gestor comunitário — anunciou Dona Margarida, aproximando-se e ajeitando o travesseiro de Fernando com carinho de mãe. — A Arcadium não é mais uma empresa, meu filho. A placa na entrada foi trocada ontem à tarde. Agora nós somos o *Centro de Acolhimento e Reabilitação dos Trabalhadores da Mana*.
— Nós transformamos o covil dos carrascos no refúgio dos esquecidos — completou o Padre Lúcio, pousando a mão sobre o ombro de Fernando. — Os caçadores que estavam nos tanques do subsolo foram resgatados e estão recebendo tratamento digno. O bairro inteiro está comemorando.
Fernando olhou para cada um deles. As dores e as cicatrizes dos últimos meses não haviam sumido, mas pela primeira vez elas tinham um propósito sagrado.
> [ROOT CONSOLE: ATUALIZAÇÃO DE BANCO DE DADOS]
> [GUILDA ARCADIUM: STATUS ALTERADO PARA COMUNIDADE LIVRE]
> [MEMBROS ATIVOS: 100% EM ALINHAMENTO SIMBIÓTICO]
> [NOVA DIRETRIZ: PROTEGER A VIDA ACIMA DO LUCRO]
— Nós vencemos a primeira batalha — disse Fernando, apertando suavemente a mão de Elisa. — Mas o Conselho Original ainda tem as chaves da grande máquina no norte do país. Vamos descansar... porque a jornada para libertar Adão e este país está apenas começando.