Capítulo 45 de 94
CAPÍTULO 45 — O PREÇO
A Catedral da Sé estava deserta.
Não era normal. Mesmo à noite, a região central de São Paulo tinha movimento — moradores de rua, vigias noturnos, os últimos transeuntes voltando do trabalho. Mas naquela noite, a praça em frente à catedral estava vazia. Silenciosa. Como se a cidade inteira tivesse prendido a respiração.
— É uma armadilha — Bruno murmurou.
— Claro que é. — Fernando ajustou o novo par de óculos — Hiroshi havia construído um V2.0 apressado, com lentes de cristal Grau IV e armação reforçada com filamentos de aço encantado. — Mas a gente sabia disso.
O grupo cruzou a praça em formação. Margarida na frente, escudo erguido. Bruno e Raul nos flancos. Sofia e Lúcio no centro. Fernando na retaguarda, com Elisa ao lado.
As portas da catedral estavam abertas.
Lá dentro, o silêncio era ainda mais opressor. Os bancos de madeira estavam vazios. As velas, apagadas. O altar, iluminado apenas pela luz fraca da lua que entrava pelos vitrais.
Mas não era o altar que importava.
Era o buraco no chão, bem diante do altar.
Escuro. Profundo. Pulsando com uma luz violácea que subia em ondas, como uma respiração.
— A entrada da Malha Original — Elisa disse.
— Vamos. — Fernando começou a descer.
A escada em espiral parecia infinita. Cada degrau ecoava nas paredes de pedra antiga, misturado com o zumbido cada vez mais alto da Malha. O ar ficava mais denso, mais pesado, carregado de mana bruta.
E então a escada terminou.
A câmara abaixo da catedral era imensa — maior que o subsolo da Arcadium, maior que qualquer estrutura que Fernando já tinha visto. Era uma caverna de pedra bruta, iluminada por veios de cristal que cresciam das paredes como raízes.
E no centro, a Malha Original.
Não era uma réplica. Era a verdadeira.
Uma estrutura de carne, metal e código, tão grande que ocupava todo o centro da caverna. Dela partiam milhares de fios — cabos de mana que se estendiam para o teto, para as paredes, para além da pedra, alcançando a cidade acima.
E no coração da Malha, suspenso no ar, envolto em uma aura de luz dourada e violácea, um homem.
Ele era jovem — aparentava ter vinte e poucos anos, embora seu rosto carregasse marcas de décadas de sofrimento. Cabelos escuros, pele pálida, olhos fechados. Nu da cintura para cima, com cicatrizes que cobriam seu torso como um mapa de batalhas passadas.
— Adão — Elisa sussurrou.
O homem abriu os olhos.
Eles não eram humanos. Eram compostos — um mosaico de luz dourada e violácea que girava em um padrão hipnótico.
— Elisa. — A voz de Adão não saía de sua boca. Ela vinha da Malha, das paredes, do ar. — Você voltou.
— Eu prometi que voltaria.
— Você trouxe convidados. — Os olhos de Adão percorreram o grupo, parando em Fernando. — O Codificador Nº 47. O que destruiu a réplica. O que libertou Elisa.
— Vim para impedir seu despertar — Fernando disse. — E para derrubar o Conselho Original.
Adão riu. Um som triste, distorcido.
— Você é tarde demais, Fernando. O despertar já começou. — Ele apontou para cima, para os cabos de mana que subiam pela caverna. — Cada fio que você vê está conectado a uma guilda no Brasil. 47 guildas. 47 Malhas locais. Todas alimentando a Malha Original desde o momento em que você destruiu a réplica.
— Você está alimentando o despertar?
— Não. — A voz de Adão ficou mais baixa. — Estou tentando impedi-lo. Mas não consigo mais. Algo está me controlando. Algo que está dentro da Malha. Algo que não sou eu.
O chão tremeu.
Os veios de cristal nas paredes começaram a brilhar mais intensamente. A aura ao redor de Adão mudou — o dourado começou a ser consumido pelo violáceo.
— Ele está perdendo o controle — Elisa disse, alarmada. — A Malha está tomando ele!
— O que a gente faz? — Bruno perguntou.
Fernando olhou para Adão, para Elisa, para o grupo.
Ele tomou uma decisão.
— Elisa. Você disse que pode se conectar à Malha.
— Posso.
— Então se conecta. Entra na Malha e descobre o que está controlando Adão.
— E você?
— Vou te seguir. Com o Root.
Elisa arregalou os olhos. — Você vai entrar na Malha comigo?
— É a única chance de descobrir a verdade.
— Se a gente entrar e não conseguir sair...
Fernando estendeu a mão.
— Então a gente não sai.
Elisa olhou para a mão dele. Para os olhos dele. Para Adão, que agonizava na aura violácea.
Ela pegou a mão dele.
— Vamos.
Os dois fecharam os olhos.
O Root de Fernando se conectou ao corpo de Elisa. O corpo de Elisa se conectou à Malha. E juntos, eles mergulharam no núcleo do sistema.
O mundo desabou ao redor deles.
—
O interior da Malha Original era um pesadelo.
Fernando não estava mais em seu corpo. Ele era uma consciência flutuante em um mar de dados — linhas de código, memórias fragmentadas, gritos de Codificadores passados ecoando como fantasmas digitais.
Elisa estava ao seu lado — não como corpo, mas como uma presença luminosa.
— A Malha está corrompida — a voz de Elisa ecoava no canal digital. — Algo está sugando a energia em vez de distribuir.
— O que?
— Ali — apontou ela pela percepção compartilhada.
Ela apontou. No centro do mar de dados, havia um núcleo escuro. Uma esfera de código violáceo, pulsando como um coração infectado.
Fernando se aproximou. Conforme chegava mais perto, o código começou a fazer sentido. Não era programação de Malha. Era algo mais antigo. Mais primitivo.
E então ele viu.
Não era um código. Era uma consciência.
Não humana. Não Codificadora. Algo que existia antes da Malha, antes dos portais, antes de tudo.
E ela estava falando com ele.
LIVRE-ME.
A voz era um sussurro que perfurava a mente.
LIVRE-ME DA MALHA. E EU TE DAREI O CONTROLE DE TODO O SISTEMA VITAL.
Fernando recuou. — O que é isso?
Elisa apareceu ao lado dele, a forma luminosa tremendo.
— É a fonte original — sussurrou Elisa. — A primeira consciência que habitou a Malha. Não é Adão. Não é humana. É o que alimentou os portais.
— Os portais foram criados?
— Não são naturais — completou ela. — Eles são... gaiolas. Portas para conter essa coisa. O Conselho Original não construiu a Malha para proteger ninguém. Eles construíram para alimentar essa anomalia.
A consciência violácea pulsou novamente.
LIBERTA-ME. E EU TE DAREI PODER ABSOLUTO.
Fernando sentiu o peso da escolha.
Se libertasse aquela coisa, ele teria poder suficiente para derrubar o Conselho. Para proteger o grupo. Para mudar o mundo.
Mas também libertaria algo que poderia destruir tudo.
— Não. — Sua voz foi firme no vazio digital. — Você fica aí.
INSENSATO. VOCÊ NÃO PODE ME DESTRUIR. VOCÊ SÓ PODE ME ALIMENTAR OU ME PRENDER.
— Então vou te prender.
Fernando ativou o Root Puro.
Dessa vez, ele não estava editando um corpo humano ou uma réplica de Malha. Ele estava editando a Malha Original — o coração do sistema vital do país.
Ele começou a reescrever o código. Bloqueou o acesso do núcleo violáceo aos cabos de energia. Redirecionou o fluxo de mana para longe dele. Construiu uma gaiola digital ao redor da consciência antiga.
VOCÊ NÃO PODE...
— Já estou fazendo.
ISSO VAI TE CUSTAR...
— Eu sei.
O preço veio imediatamente.
Fernando sentiu sua própria mana sendo drenada — não aos poucos, mas em torrentes. O Root Puro estava consumindo sua energia vital para sustentar a gaiola. Cada célula do seu corpo ardia.
— Fernando! — a voz de Elisa soou em desespero puro. — Você está se queimando!
— Eu sei!
— Você vai morrer se continuar!
— Eu sei!
Mas ele não parou.
Porque se parasse, aquela coisa seria libertada. E tudo que ele tinha construído — o grupo, a aliança com Elisa, a chance de um futuro melhor — desmoronaria.
Então ele continuou.
Até o fim.