Capítulo 44 de 94
CAPÍTULO 44 — A ESCOLHA DE FERNANDO
As horas seguintes foram um borrão.
O grupo se reorganizou. Os corpos dos seguranças da Arcadium foram removidos. O Executor foi preso em uma cela improvisada no subsolo — algemado com as próprias correntes de anulação que ele usava contra Codificadores. Raul foi internado na enfermaria, com Lúcio monitorando seus batimentos cardíacos após o Overclock extremo.
Fernando sentou na cadeira do diretor, pela última vez.
O Codex de Adão estava aberto à sua frente. O corpo de Elisa — agora plenamente funcional, embora ainda frágil — estava sentado na ponta da mesa, testando os movimentos dos dedos como uma criança aprendendo a andar.
— Você salvou minha vida — Elisa disse, sem tirar os olhos das próprias mãos. — Não vou esquecer.
— Você salvou a minha também. Estamos quites.
— Não é assim que funciona. — Ela finalmente olhou para ele. Os olhos dourados brilhavam com uma intensidade que ia além da mana. — O que o Executor disse... sobre o que controla Adão...
— Pode ser verdade. Pode ser mentira. Pode ser o Conselho tentando te manipular mesmo depois de morto.
— E se for verdade?
Fernando fechou o Codex. — Então a gente descobre antes de enfrentar o Conselho.
— Como?
— A Malha Original está em São Paulo? Onde?
Elisa hesitou. — Debaixo da Catedral da Sé.
Fernando parou. — A Sé?
— O Conselho construiu a primeira Malha antes da catedral existir. Quando a igreja foi construída, foi em cima dela. Um disfarce perfeito. Ninguém desconfia que o coração do sistema vital do país está debaixo de uma catedral.
— E Adão está preso lá?
— O corpo dele, sim. A consciência dele está espalhada pela Malha. É por isso que o despertar vai acontecer em — ela calculou — 48 horas agora.
— Então a gente vai até lá.
— Fernando. — Elisa se levantou. — Se a gente for até a Malha Original, o Conselho vai estar esperando. Eles sabem que você destruiu a réplica. Sabem que eu escapei. Sabem que o Executor falhou. Eles vão estar preparados.
— Eu sei.
— E você ainda quer ir?
Fernando olhou para o grupo ao redor. Bruno, enfaixado, mas de pé. Margarida, com o escudo ao lado, pronta para a próxima batalha. Raul, na enfermaria, mas vivo. Sofia, examinando os registros do Executor. Lúcio, monitorando os feridos. Hiroshi, na tela, observando em silêncio.
— Eles não vieram até aqui para desistir agora. — Ele se levantou. — E eu também não.
— Então temos um plano?
— Temos. — Fernando apontou para o Codex. — Adão deixou instruções. Ela apontou para Elisa. — Você tem o conhecimento do interior da Malha. — Ela apontou para o grupo. — E eles têm a força. Agora a gente só precisa de uma coisa.
— O que?
— Um jeito de entrar na catedral sem sermos mortos antes de chegar na Malha.
Elisa sorriu. Era um sorriso cansado, mas genuíno.
— Tenho uma ideia.
—
Quarenta e oito horas.
O relógio na parede do vigésimo andar marcava 21h47 do segundo dia desde a invasão da Arcadium.
O plano estava montado. O grupo estava descansado — o máximo possível, dadas as circunstâncias. Raul havia se recuperado o suficiente para lutar, embora Lúcio tivesse imposto uma condição: Overclock no máximo uma vez, por no máximo 30 segundos.
Margarida estava revisando a rota de invasão. Bruno e Raul conferiam os equipamentos. Sofia programava o sistema de distração — uma sobrecarga de mana nos transformadores da região que apagaria as luzes da catedral por 12 minutos.
Elisa estava sentada no parapeito da janela, olhando para a cidade.
Fernando se aproximou.
— Nervosa?
— Ansiosa. — Ela não virou. — Quinze anos presa. E agora, em algumas horas, vou ver o rosto de Adão de novo.
— Você acha que ele vai reconhecer você?
— Não sei. — Ela baixou a cabeça. — A última vez que ele me viu, eu era humana. Agora sou... isso. — Ela olhou para as próprias mãos de prata e cristal. — Uma casca de mana.
— Você é mais que isso.
— Sou?
Fernando sentou ao lado dela.
— Você sobreviveu 15 anos presa em uma Malha. Você manteve a sanidade, manteve a esperança, manteve o amor por alguém que você não via há décadas. — Ele olhou para ela. — Isso não é uma casca. É uma fortaleza.
Elisa não respondeu. Mas seus olhos brilharam — não com mana, mas com algo mais humano.
— Obrigada, Fernando.
— Não precisa agradecer. A gente se ajuda.
Eles ficaram em silêncio, olhando para as luzes de São Paulo.
Lá embaixo, a Catedral da Sé os esperava.
E dentro dela, o inimigo verdadeiro.