Capítulo 42 de 94
CAPÍTULO 42 — O ATAQUE DO CONSELHO
Nove horas de trabalho contínuo. Nove horas de Fernando com as mãos grudadas no núcleo condensador, o Root Puro operando no limite da exaustão. O suor escorria pelo seu rosto em rios, manchando a camisa, formando poças no chão de concreto.
O corpo de Elisa estava tomando forma.
Não era um corpo biológico — não exatamente. A estrutura que emergia do núcleo era uma malha de filamentos de prata entrelaçados com mana cristalizada, formando uma silhueta humana. As proporções eram femininas, mas não havia traços faciais ainda — apenas uma superfície lisa onde o rosto deveria estar, pulsando com uma luz dourada suave.
— Falta a matriz de consciência — Hiroshi disse, observando da tela. — Sem ela, o corpo é só uma casca vazia.
— Eu sei. — Fernando respirou fundo, sentindo a drenagem no seu núcleo de mana. [MANA: 7/23. NÍVEL DE EDIÇÃO: CRÍTICO.] — Elisa, você está pronta?
A presença dourada pairou sobre o núcleo. Dessa vez, sua resposta veio em palavras — não impressões, mas uma voz clara, feminina, cansada, mas firme.
"Estou. Mas uma vez que eu entrar nesse corpo, não tem volta. Se falhar, minha consciência se dissipa."
— Não vou falhar.
"E se o Conselho aparecer durante o processo?"
— O grupo está vigiando.
Como se o universo estivesse esperando por aquela linha, o alarme disparou.
O som era agudo, cortante — um alerta de invasão que ecoou por todo o edifício. As luzes do subsolo piscaram e mudaram para vermelho.
— Fernando! — A voz de Bruno veio pelo rádio, urgente. — Temos visita. Três carros pretos acabaram de parar na entrada principal. E não são amigos.
Fernando não tirou as mãos do núcleo. — Quantos?
— Pelo menos doze. Todos de terno preto. — Uma pausa. — E um deles é diferente. Maior. A aura de mana dele... não consigo ler.
— O Conselho enviou um Executor — a voz de Elisa ressoou tensa na mente dele. — É o que eles chamam de "caçador de Codificadores".
— O que ele faz?
— Ele neutraliza o Root — continuou ela. — Tem um dispositivo que cria um campo de cancelamento de mana ao redor dele. Se ele chegar perto de você, você perde o acesso ao sistema vital por completo.
— Quanto tempo até ele chegar aqui?
— Cinco minutos. Talvez menos — alertou a consciência de Elisa.
Fernando olhou para o corpo de Elisa. Incompleto. Frágil. Faltava a matriz de consciência, a parte mais crítica do processo.
— Bruno. — Sua voz estava calma. — Segura eles pelo máximo de tempo que conseguir.
— E você?
— Vou terminar o trabalho.
—
No andar térreo, Bruno ajustou o cinto de combate e rangeu os dentes.
— Vocês ouviram o chefe. — Ele puxou a espada. — Cinco minutos.
— Quatro e meio — Margarida corrigiu, plantando o escudo na entrada principal. Ela estava ao lado de Bruno, com Raul e Sofia logo atrás, e Lúcio posicionado na retaguarda para curar. — O primeiro carro já parou.
As portas de vidro da Arcadium explodiram.
Não foram abertas. Foram desintegradas por uma onda de pressão de mana que fez o chão tremer. Doze figuras de terno preto entraram em formação, síncronas, como soldados de um exército invisível.
E no centro deles, um homem.
Ele era grande — não obeso, mas maciço, como um touro empinado em duas pernas. Seu terno estava apertado contra músculos que pareciam esculpidos em concreto. Mas o mais perturbador era o que ele carregava: uma corrente de metal escuro que se arrastava pelo chão, cada elo gravado com símbolos que brilhavam em vermelho.
— Executor — Margarida murmurou. — Já ouvi falar. Dizem que ele já matou três Codificadores.
— Vai ser o primeiro a falhar. — Bruno avançou.
O confronto foi imediato e brutal.
Bruno atacou primeiro — uma estocada diagonal que visava o pescoço do Executor. Mas antes que a lâmina chegasse a meio metro do alvo, a corrente do Executor se moveu como uma serpente viva, enrolando-se na espada e torcendo-a com força suficiente para arrancá-la da mão de Bruno.
— Ele anula a mana das armas! — Bruno gritou, recuando. — Não adianta usar equipamento encantado contra ele!
— Então a gente usa força bruta. — Margarida avançou com o escudo, colidindo contra o Executor com todo o peso do corpo.
O impacto foi ensurdecedor. Mas o Executor não recuou um centímetro.
— Tanker aposentada — ele disse, a voz profunda como um motor. — Nível de mana em declínio. Núcleo danificado. Você está longe do seu auge.
— Ainda tô longe de você, seu filho da puta.
Margarida girou o escudo e acertou a lateral da cabeça do Executor. Ele cambaleou — meio passo, mas foi o suficiente.
— Raul! Agora!
Raul surgiu das sombras do teto — ele havia escalado a parede silenciosamente, usando a agilidade que o Overclock refinado agora permitia. Sua adaga brilhou, mirando a nuca do Executor.
Mas a corrente se moveu mais rápido.
Ela se enrolou no braço de Raul e o arremessou contra a parede com uma força que rachou o concreto. Raul caiu, tossindo sangue, o braço direito pendendo em um ângulo estranho.
— Lúcio! — Sofia gritou, enquanto lançava um feixe de mana comprimido contra os seguranças que avançavam. — Ele precisa de cura!
Lúcio já estava em movimento, as mãos brilhando com luz verde, correndo em direção a Raul.
Mas o Executor não deu tempo.
Ele estendeu a mão, e a corrente voou — não em direção a Raul, mas em direção ao subsolo. Direto para onde Fernando estava.
— Não! — Bruno pulou na frente da corrente, mas ela o atravessou como se ele fosse feito de névoa.
A corrente não era física. Era pura anulação de mana.
E ela estava se dirigindo direto para o núcleo condensador.
—
Lá embaixo, Fernando sentiu antes de ver.
O ar mudou. O Root Puro, que estava fluindo suavemente para o corpo de Elisa, começou a oscilar.
ALERTA: CAMPO DE CANCELAMENTO DE MANA DETECTADO. DISTÂNCIA: 20 METROS. TEMPO ESTIMADO PARA IMPACTO: 10 SEGUNDOS.
— Droga.
Fernando olhou para o corpo de Elisa. A matriz de consciência ainda não estava completa. Se ele parasse agora, o corpo morreria. Se ele continuasse, o campo de cancelamento atingiria o núcleo e destruiria tudo.
— Elisa. Você confia em mim?
— Com a minha vida — respondeu a presença de Elisa, a determinação vibrando no código.
— Então segura firme.
Ele não parou a transferência. Em vez disso, ele redirecionou o fluxo. Em vez de canalizar sua própria mana, ele começou a sugar a mana do ambiente — dos restos da Malha morta, do chão, do ar, de tudo ao redor.
O corpo de Elisa começou a brilhar mais intensamente. A silhueta se completou. Os traços faciais começaram a se formar.
CAMPO DE CANCELAMENTO: 5 METROS.
— Vamos... — Fernando rangeu os dentes, sentindo a pressão aumentar. — Vamos, vamos, vamos...
3 METROS.
O corpo de Elisa abriu os olhos.
Eram dourados. Brilhantes. Vivos.
— Elisa?
Ela piscou. Olhou para as próprias mãos. Para o corpo novo. Para Fernando.
— Eu... — a voz dela soou mais clara agora, quase humana. — Eu estou viva...
O campo de cancelamento atingiu o núcleo.
Fernando foi jogado para trás como se tivesse levado um murro no peito. O Root se desfez. O corpo de Elisa caiu do núcleo, desabando no chão.
O Executor entrou no subsolo.
— Codificador — ele disse. — Sua brincadeira acabou.
Fernando tentou se levantar. Não conseguiu. A exaustão e a drenagem o mantinham de joelhos.
Mas então uma mão tocou seu ombro.
Ela era fria — feita de filamentos de prata e mana cristalizada. Mas o toque era suave.
— Agora — a voz de Elisa disse, firme — a brincadeira é minha.
Ela se levantou.
Pela primeira vez em 15 anos, Elisa tinha um corpo.
E ela estava com raiva.