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CAPÍTULO 41 — O VOTO

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Capítulo 41 de 94

CAPÍTULO 41 — O VOTO


A decisão estava tomada — mas o trabalho estava apenas começando.

Fernando convocou Hiroshi para o subsolo, onde os restos da Malha da Arcadium ainda jaziam como uma carcaça de metal e carne morta. O ferreiro chegou apoiado em uma bengala improvisada, o rosto ainda pálido, mas os olhos atentos.

— Precisa de mim? — Hiroshi perguntou, a voz rouca.

— Preciso de você, dos seus equipamentos, e de toda a matéria-prima de mana que conseguirmos encontrar neste prédio.

— Pra quê?

— Pra construir um corpo.

Hiroshi piscou. Depois soltou uma risada seca. — Moço novo, você tem cada ideia...

— É a ideia da Elisa, na verdade. — Fernando apontou para o Codex. — Mas ela tem o projeto. E eu tenho o Root. Você tem as ferramentas.

O ferreiro examinou os símbolos na página por um longo tempo. Seus dedos calejados traçaram as linhas de mana impressas no papel envelhecido.

— Isso é engenharia vital. — Hiroshi murmurou. — Muito além do que eu já fiz.

— Você construiu meus óculos. Construiu as luvas de interface. Você é o melhor ferreiro que eu conheço.

— O único ferreiro que você conhece. — Hiroshi ergueu uma sobrancelha. Mas havia um brilho nos olhos dele — aquele mesmo brilho que Fernando vira quando ele examinou os óculos pela primeira vez. O brilho de um desafio. — Vai precisar de materiais específicos. Cristal de mana Grau V no mínimo. Filamentos de prata encantada. Um núcleo condensador.

— A Arcadium tem tudo isso no estoque.

— Então vamos começar.

—

Enquanto Hiroshi listava os materiais necessários — uma lista que Fernando transmitiu para Raul e Sofia, que partiram para vasculhar os depósitos —, Fernando sentou no chão do subsolo, de frente para os restos da Malha.

Ele fechou os olhos.

Elisa.

Estou aqui.

— O que você não me contou?

Muita coisa.

— Me conta o essencial.

Silêncio. Depois, a presença de Elisa se intensificou, como se ela estivesse se aproximando.

Quando Adão foi capturado pelo Conselho, ele não lutou. Ele se entregou.

— Por quê?

Porque eu implorei. O Conselho ameaçou me matar se ele resistisse. Adão se entregou para me salvar.

A informação caiu como uma pedra no estômago de Fernando. — Você se sente culpada.

Todos os dias há 15 anos.

— E a proposta de construir um corpo novo... é pra você se redimir?

É pra eu consertar o que eu quebrei. Adão está preso na Malha Original por minha causa. Se eu conseguir um corpo, posso ajudar a libertar ele.

— E o que acontece depois?

Depois?

— Depois que a gente derrotar o Conselho e libertar Adão. O que você faz com a liberdade?

Silêncio novamente. Dessa vez, diferente.

Nunca pensei nisso. Passei 15 anos presa. A única coisa em que eu pensava era em sair. O depois... não existe.

Fernando abriu os olhos.

— Então a gente vai descobrir juntos.

—

Horas depois, o grupo se reuniu novamente no subsolo.

Hiroshi havia transformado o centro da câmara em uma estação de trabalho improvisada. Cabos de mana cruzavam o chão como veias metálicas. Um núcleo condensador — uma esfera de cristal do tamanho de uma bola de basquete, avaliada em mais de R$ 500 mil — flutuava no centro, sustentado por um campo magnético.

— Materiais conferidos — Raul anunciou, colocando uma caixa de filamentos de prata no chão. — Tudo dentro do especificado.

— Núcleo condensador instalado — Sofia completou, limpando as mãos na calça. — Pronto para receber a matriz vital.

Fernando se levantou. Ele estava cansado — não dormia há quase 48 horas — mas a adrenalina segurava seu corpo.

— Então vamos começar.

Ele caminhou até o núcleo condensador e colocou as mãos sobre sua superfície fria.

Sistema.

PRONTO.

— Elisa. Você está pronta?

A presença dourada emergiu do peito de Fernando, fluindo pelo ar até o núcleo. Ela pairou sobre a superfície de cristal, pulsando com uma luz suave.

Estou.

Bruno deu um passo à frente. — Fernando, espera. — Ele olhou para o núcleo, para o grupo, e depois para Fernando. — A gente não discutiu o que acontece se ela tomar o corpo e nos trair.

— Discutimos. Margarida impôs a condição.

— Eu sei. Mas a condição é sua. — Bruno segurou o ombro de Fernando. — Se der errado, você vai ter que matar ela. Você está preparado pra isso?

Fernando engoliu em seco.

— Estou.

— Mentira. — Bruno apertou o ombro. — Mas eu confio que você vai fazer o que precisa ser feito. É por isso que eu estou aqui.

Margarida se aproximou, colocou a mão no outro ombro de Fernando. Raul se juntou ao lado, depois Lúcio, depois Sofia. Em círculo, em silêncio.

— Voto unânime — Margarida disse. — A gente vai até o fim com você.

Fernando olhou para cada um deles. O guerreiro rachado. A tanker aposentada. O canhão de vidro. A maga silenciada. O healer que escolheu confiar. E o ferreiro na tela, observando com um sorriso cansado.

Eles eram marginalizados. Rejeitados. Gente que o sistema tinha descartado.

Mas ali, naquele subsolo escuro, eles eram a única coisa que importava.

— Obrigado.

Fernando virou para o núcleo condensador.

Colocou as mãos sobre o cristal.

E ativou o Root Puro.

MATRIZ VITAL — INICIANDO CONSTRUÇÃO...

O cristal brilhou.

E o trabalho começou.