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CAPÍTULO 3 — A FENDA NEGRA

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Capítulo 3 de 94

CAPÍTULO 3 — A FENDA NEGRA


DETECTADO: ACESSO ROOT DISPONÍVEL. DESEJA EDITAR?

A mensagem pulsava no ar, dourada e insistente, como se esperasse uma resposta. Fernando piscou. Ela não sumiu. Esfregou os olhos com a mão suja de sangue. Ela CONTINUOU lá.

— Eu estou alucinando — murmurou. — Bati a cabeça. É isso. Concussão.

NEGATIVO. SUA ESTRUTURA NEURAL ESTÁ DENTRO DOS PARÂMETROS NORMAIS. AS ALUCINAÇÕES NÃO SÃO UMA EXPLICAÇÃO PLAUSÍVEL.

Fernando congelou.

— Você... respondeu?

SIM. ESTOU CONECTADO À SUA CONSCIÊNCIA DESDE O MOMENTO DA EXPOSIÇÃO AO COLAPSO DE MANA. VOCÊ ESTAVA PERTO DA FENDA QUANDO ELA SE ROMPEU.

O som de passos lá em cima. Mais perto agora.

BRUNO S. ESTÁ PERDENDO 0,8% DE SUA CAPACIDADE SANGUÍNEA POR SEGUNDO. EM 38 SEGUNDOS, A PERDA SERÁ IRREVERSÍVEL.

— Como eu paro isso? — Fernando perguntou, a voz saindo mais alta do que pretendia.

TOQUE O FERIMENTO. VISUALIZE A ÁREA AFETADA COMO UM CÓDIGO QUE PODE SER REESCRITO. EU GUIAREI O PROCESSO.

— Isso é loucura.

28 SEGUNDOS.

Fernando olhou para Bruno. O guerreiro estava branco como papel. Seu peito mal se movia.

— Merda.

Ele ajoelhou ao lado de Bruno e colocou a mão sobre o ferimento aberto. O sangue escorreu entre seus dedos, quente e pegajoso. Ele fechou os olhos.

Visualize o código.

Nada.

Visualize o código, Fernando.

Ele respirou fundo. Ignorou o cheiro de sangue e mana queimada. Ignorou os passos que se aproximavam. Ignorou o próprio coração disparado. E imaginou.

Não o ferimento. Não o sangue. O que estava por trás.

E então, como se uma cortina se abrisse na sua mente, ele viu.

Linhas de texto dourado fluíam diante dos seus olhos fechados. Não em português. Não em nenhum idioma que ele reconhecia. Mas ele entendia. Era como olhar para uma planilha mal formatada e saber exatamente onde o erro estava.

*[STATUS: BRUNO S.]

HP: 312/4.200 — CRÍTICO] [MANA: 43/890 — VAZAMENTO ATIVO] [CONDIÇÕES ATIVAS: HEMORRAGIA: 23% DE PERDA POR MINUTO // NÚCLEO FISSURADO: 18% DE EFICIÊNCIA MÁGICA // CHOQUE TRAUMÁTICO: RISCO DE FALÊNCIA CARDÍACA

No canto inferior direito, um cursor piscava. Como um prompt de comando esperando instrução.

EDITAR?

Fernando não sabia o que fazer. Mas seu instinto — ou algo dentro dele — sabia.

Ele mentalmente "selecionou" a linha [HEMORRAGIA] e "arrastou" para fora.

REMOÇÃO DE CONDIÇÃO: HEMORRAGIA. CUSTO: 120 MANA. MANA DISPONÍVEL: 14.

— Não tenho mana suficiente — Fernando murmurou.

A MANA PODE SER EXTRAÍDA DE FONTES EXTERNAS. SUGIRO O CRISTAL DE MANA EM SEU BOLSO ESQUERDO.

Fernando tateou o bolso. O cristal de avaliação. Aquele que ele usava para testar a pureza das amostras. Pequeno, do tamanho de uma moeda, mas pulsando com energia azul.

Ele o apertou contra a palma da mão, ainda sobre o ferimento de Bruno.

DRENANDO... CRISTAL DE MANA — GRAU III. MANA OBTIDA: 80. MANA TOTAL: 94. INSUFICIENTE.

— Droga!

O AMBIENTE CONTÉM MANA RESIDUAL DA FENDA. AUTORIZAÇÃO NECESSÁRIA PARA DRENAGEM.

— AUTORIZO! — Fernando quase gritou.

O ar ao redor pareceu vibrar. Filamentos finos de energia, invisíveis até então, começaram a se acumular sobre sua mão como eletricidade estática. A pele dele ardia. Os dentes doíam. Mas a mana entrou.

MANA AMBIENTAL DRENADA: 60. MANA TOTAL: 154. REMOÇÃO DE [HEMORRAGIA] INICIADA.

A carne sob seus dedos começou a se fechar.

Não magicamente — não como uma cura instantânea de conto de fadas. Era mais como... compressão. Como se as fibras do músculo estivessem sendo realinhadas, os vasos selados, o sangue redirecionado.

O cursor piscou novamente.

CONDIÇÃO REMOVIDA. DESEJA EDITAR MAIS ALGO?

Fernando abriu os olhos. O ferimento de Bruno estava fechado. Não cicatrizado — ainda havia uma cicatriz feia, vermelha e inchada — mas não sangrava mais. A respiração do guerreiro estava mais profunda, mais regular.

— Funcionou — Fernando sussurrou, incrédulo. — Funcionou mesmo.

O PROCESSO DE EDIÇÃO VITAL CONSOME RECURSOS SIGNIFICATIVOS. RECOMENDO REPOUSO DO SISTEMA POR 12 HORAS. VOCÊ ESTÁ OPERANDO COM 34% DE MANA PESSOAL.

— Eu tenho mana pessoal?

TODO SER VIVO TEM. A SUA É INEXPRESSIVA EM COMPARAÇÃO COM UM CAÇADOR TREINADO, MAS SUFICIENTE PARA OPERAÇÕES BÁSICAS.

Fernando olhou para as próprias mãos. O brilho dourado tinha sumido. Mas a sensação — a certeza de que ele havia feito algo que não deveria ser possível — permanecia.

Lá em cima, os passos pararam.

Depois, silêncio.

— Eles foram embora? — Fernando murmurou.

NEGATIVO. ELES ESTÃO PARADOS NA BORDA DA RACHADURA. PARECEM ESTAR OBSERVANDO.

Uma gota de suor escorreu pela testa de Fernando. Ele olhou para cima. Para o buraco no teto. Para as silhuetas escuras que se recortavam contra a luz alaranjada.

Elas estavam paradas. Imóveis. Olhando para baixo.

— Por que não descem? — ele perguntou, a voz trêmula.

NÃO TENHO DADOS SUFICIENTES PARA RESPONDER. MAS AS CRIATURAS NÃO PARECEM INTERESSADAS EM VOCÊ. ELAS PARECEM... ESTAR ESPERANDO.

— Esperando o quê?

O silêncio que respondeu era mais ensurdecedor do que qualquer grito.

E então, no fundo do túnel escuro à sua frente, Fernando ouviu algo.

Passos.

Passos humanos.

Alguém — ou algo — estava vindo das profundezas.

O cursor dourado piscou no canto da sua visão.

NOVA CONEXÃO DETECTADA. ORIGEM: DESCONHECIDA. SINAL: INCOMPATÍVEL.


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