Capítulo 37 de 94
CAPÍTULO 37 — O SILÊNCIO DEPOIS DA TEMPESTADE
O sol da manhã entrava pelas janelas quebradas do vigésimo andar.
Fernando estava sentado na cadeira do diretor — a cadeira de Joaquim Viana, ou melhor, do fantoche que ocupava o cargo há anos. A sala era ampla, com carpetes manchados de poeira e fuligem, e uma vista panorâmica de São Paulo que se estendia até a Serra da Cantareira.
— Café?
Ele virou a cabeça. Bruno estava na porta, segurando duas canecas de porcelana — uma preta, uma com leite. O guerreiro estava com o braço enfaixado e manchas de sangue seco na bochecha, mas seu semblante irradiava uma paz que ele não conhecia há décadas.
— Desde quando você serve café?
— Desde que a máquina era da Arcadium. — Bruno colocou a caneca na mesa. — Aproveitar os recursos do inimigo derrotado é protocolo militar básico.
Fernando pegou o café. Preto, quente, amargo. Exatamente o que seu corpo exausto pedia.
— Como está o pessoal lá embaixo?
— O prédio está seguro — relatou Bruno, sentando-se na beirada da mesa com um suspiro aliviado. — Dona Margarida assumiu a triagem dos caçadores que estavam presos nos tanques do subsolo dois. Padre Lúcio, mesmo com a mana zerada, está na enfermaria consolando os feridos que ele resgatou da capela. Raul e Sofia montaram guarda na portaria principal.
— E o Luan? Conseguiu novo contato?
— Conseguiu, faz meia hora. — Bruno sorriu. — A prima dele está instalada na casa da tia em Campinas. O garoto comprou um roteador industrial em um ferro-velho e montou um nó clandestino da Rede. Ele disse que, se a gente precisar de auditoria de dados ou interceptação de chamadas do Conselho, ele é o nosso hacker de retaguarda.
— Fico feliz por ele. Aquele garoto merecia paz.
— E o Augusto Campos? — perguntou Fernando, a voz endurecendo ao lembrar da batalha no Núcleo.
— Inconsciente, sob guarda armada rigorosa na cela médica de contenção de mana do subsolo — relatou Bruno. — O choque de dados da Malha fritou completamente os implantes neurais que a diretoria havia soldado no crânio dele. Os médicos arcanos disseram que ele vai sobreviver, mas nunca mais conseguirá manipular código vital. Quando acordar, responderá por cada crime perante a Aliança Livre.
Fernando assentiu devagar. — E o mestre Hiroshi sabe disso?
— Sabe. O velho pediu para ser o primeiro a falar com ele assim que tiver alta. Disse que precisa olhar nos olhos do aprendiz e fechar essa ferida de vinte anos com as próprias palavras.
— E o laboratório do Dr. Alcântara no Nível 2? — perguntou Fernando, lembrando-se do museu macabro de armas de caçadores mortos.
— Alcântara tentou deletar os registros de autópsias e fugir pela garagem dos fundos com uma maleta de cristais brutos — relatou Bruno com um sorriso de satisfação. — Mas os caçadores da guarda externa interceptaram o veículo dele na saída da Brigadeiro. Ele está detido junto com a diretoria executiva, e todas as pastas de experimentos foram apreendidas intactas para a perícia.
— E o mestre Hiroshi?
— Acordou há vinte minutos na sala médica do quinto andar — disse Bruno, levantando-se. — Tá fraco, mas já está xingando a qualidade das bandagens. Quer ver ele?
— Quero — Fernando levantou-se da cadeira de couro do diretor, deixando para trás o trono corporativo. — Vamos ver como o nosso ferreiro está.