Capítulo 36 de 94
CAPÍTULO 36 — O PORTEIRO
A figura saiu das sombras do fundo da câmara.
Não vinha do corredor. Não vinha de nenhuma porta. Ela simplesmente emergiu das paredes, como se sempre tivesse estado ali, invisível, esperando o momento certo.
Fernando não a viu com os olhos. Sentiu.
O Root — mesmo fraco, mesmo no limite — gritou.
ALERTA: ASSINATURA DESCONHECIDA. NÍVEL DE MANA: ILEGÍVEL. CLASSIFICAÇÃO: ???
— O que... — Fernando tentou se levantar, mas as pernas não responderam.
A figura era alta. Muito alta — mais de dois metros. Vestia uma capa preta que cobria todo o corpo, deixando apenas as mãos visíveis: pálidas, longas, com unhas escuras como vidro moído. Não tinha rosto — ou melhor, o rosto era uma superfície lisa, negra, como uma máscara de obsidiana polida.
— Bem-feito — disse a figura. A voz não vinha de uma boca — vinha do ar, vibrando nas paredes, nos ossos, na alma. — Sempre odiei esse humano.
Ela apontou para Augusto, caído no chão.
— Mas ele era útil. E você quebrou meu brinquedo.
— Quem... — Fernando engoliu em seco. — Quem é você?
A figura inclinou a cabeça. O gesto era animal, curioso, como um pássaro examinando uma presa.
— Eu? — A voz vibrou, carregada de algo que parecia... divertimento. — Eu sou o dono da casa. O administrador do sistema. O verdadeiro root.
— A Malha...
— É minha. — A figura deu um passo à frente. O chão estremeceu. — O Augusto pensou que estava construindo uma rede de controle para a Arcadium. Mas ele estava construindo uma porta. Uma porta para mim.
— Você é... uma criatura da Malha?
— Eu sou a Malha. — A figura abriu os braços, e a capa se desdobrou como asas. — Existo no código. No fluxo. Na conexão entre todos os seres vivos. Durmi por séculos. Seu amigo Rafael quase me acordou. Você terminou o serviço.
Fernando sentiu o sangue gelar.
— A Malha era uma prisão.
— A Malha era um berço. — A figura se aproximou, pairando sobre ele. — E você, Fernando Andrade, é a parteira.
— O que você quer?
— O que sempre quis. — A figura se inclinou, o rosto liso pairando a centímetros do rosto de Fernando. — Sair.
Ela estendeu a mão.
Fernando tentou se mover, mas seu corpo não obedecia. O Root estava em pane. A mana, no chão. Seu grupo estava longe demais, exausto demais.
A mão pálida tocou o peito dele.
ALERTA: TENTATIVA DE ACESSO AO NÚCLEO DO CODIFICADOR.
— Você vai ser minha âncora — a figura sussurrou. — A primeira conexão com o mundo real. Depois de você, virão outros. Até que eu cubra tudo.
— Seu filho da puta... — Fernando rangeu os dentes.
— Gosto disso. Raiva. Vai ser útil.
A mão começou a brilhar.
Fernando sentiu algo entrando nele. Algo antigo. Algo que não era mana, não era código, não era nada que ele conhecia. Era como se a figura estivesse enfiando os dedos na alma dele.
ALERTA: ACESSO CONCEDIDO — 1%... 3%... 7%...
— Parem ele!
A voz de Bruno ecoou na câmara. A espada do guerreiro cortou o ar, acertando a figura — e passando através dela, como se ela fosse feita de fumaça.
— Inútil — a figura disse, sem se virar. — Não tenho corpo físico. Ainda.
O acesso continuou.
12%... 18%... 25%...
Margarida avançou com o escudo. Lúcio tentou uma cura direta. Sofia disparou um feixe de mana pura. Nada funcionava. A figura era intocável, imaterial, presente apenas na conexão entre o Root e Fernando.
— Fernando — Hiroshi gritou, ainda no chão. — Os óculos! Usa os óculos!
— Eles não tão comigo!
— Não precisa deles! Você não precisa de lente pra editar! Você é a fonte!
34%... 41%... 50%...
Fernando olhou para a figura.
Olhou para a própria mão.
E lembrou: a primeira edição não foi com os óculos. Foi no escuro, no subsolo do Shopping Dom Pedro, com as mãos sujas de sangue e a interface explodindo na frente dele sem nenhum filtro, sem nenhuma lente.
Ele não precisava dos óculos para editar.
Ele precisava de intenção.
— Você quer acesso ao meu núcleo? — Fernando perguntou.
— Sim.
— Então toma.
Ele ativou o Root sem filtro.
Sem os óculos. Sem as lentes. Sem a interface limpa que Hiroshi havia construído para proteger a visão dele.
Ele abriu tudo.
A interface explodiu. Não na frente dos olhos dele — no ar ao redor. Painéis holográficos surgiram em todas as direções, milhares deles, mostrando dados que ele nunca tinha visto. Níveis de mana. Conexões neurais. Linhas de código vital.
ACESSO: 53% — 61% — 72% — ACELERANDO
— O que você está fazendo? — A voz da figura mudou. Não era mais divertida. Era... alerta.
— Você quer meu núcleo? — Fernando sorriu, apesar da dor. — Vou te dar mais do que isso.
Ele estendeu a mão e tocou a face lisa da figura.
E editou.
EDIÇÃO: TRANSFERÊNCIA DE ACESSO. ALVO: ENTIDADE DESCONHECIDA. RISCO: ABSOLUTO.
— AGORA VOCÊ É MINHA ÂNCORA TAMBÉM.
A figura gritou.
Pela primeira vez, ela sentiu dor. A conexão que ela havia estabelecido com Fernando se inverteu — ela não estava mais puxando o núcleo dele. Ele estava puxando ela.
— Vou te prender de volta na Malha — Fernando disse, os dentes cerrados, o sangue escorrendo do nariz, dos olhos, dos ouvidos. — E dessa vez, você nunca mais sai.
— IMPOSSÍVEL! EU SOU MAIOR QUE VOCÊ!
— É. — Fernando tossiu sangue. — Mas você não tem âncora. Acabou de chegar. Eu tô aqui há 32 anos. Esse corpo é meu. Essa vida é minha. E você não vai tirar ela de mim.
Ele apertou a mão.
A figura começou a se desfazer.
Não como fumaça — como código se apagando. Linha por linha. Caractere por caractere. A Malha estava puxando a entidade de volta para o lugar de onde ela nunca deveria ter saído.
— NÃO! AINDA NÃO! EU NÃO VOU VOLTAR!
— Vai sim. — Fernando caiu de joelhos, a visão escurecendo. — E vai ficar lá até o fim dos tempos.
A figura esticou a mão, tentando agarrar algo — qualquer coisa — mas seus dedos já estavam se dissolvendo.
— Isso... não... vai... ficar... assim... — A voz dela se distorceu, se fragmentou. — Você... despertou... algo... que não pode... controlar...
— Já ouvi isso antes.
A figura desapareceu.
O Núcleo se apagou.
E Fernando caiu.
Ele acordou com o cheiro de café.
Não café de escritório, da máquina vagabunda do 23º andar. Era café fresco, passado na hora, com um toque de canela.
Fernando abriu os olhos.
Estava deitado em um colchão fino, coberto por um cobertor puído, no meio da oficina de Hiroshi. A luz do sol entrava pela janela suja, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar.
— Acordou, dorminhoco.
Bruno estava sentado em um banco ao lado, uma xícara de café na mão, o braço enfaixado.
— Quanto tempo?
— Dois dias. — Bruno tomou um gole de café. — O Hiroshi disse que você ia acordar hoje. Acertou.
— O grupo?
— Todo mundo vivo. Margarida tá na cozinha fazendo comida. Raul conseguiu não morrer de Overclock. Sofia já tá mexendo nos equipamentos. O Lúcio foi ajudar a igreja dele. — Bruno fez uma pausa. — Augusto foi preso. A Arcadium tá em caos. A mídia descobriu os experimentos. A guilda vai ser investigada.
Fernando fechou os olhos por um momento. — A figura...
— Desapareceu. Você prendeu ela de volta na Malha. Mas o Núcleo rachou. A Malha não existe mais. — Bruno colocou a mão no ombro de Fernando. — Você venceu.
— E a criatura disse que eu despertei algo.
— Ela tava morrendo. Moribundo fala merda.
— Mas e se...
— Fernando. — Bruno apertou o ombro dele. — Você salvou todo mundo. Salvou o Hiroshi. Salvou a cidade. Pelo menos por hoje, deixa o amanhã pra amanhã.
Fernando ficou em silêncio.
Depois, ele sorriu.
— Café?
— Tá na mesa.
Ele se sentou, o corpo dolorido, a cabeça pesada. Mas vivo.
Na mesa da oficina, uma xícara o esperava. E ao lado dela, um par de óculos novos — a armação mais robusta, as lentes mais escuras, com fios de cobre entrelaçados na estrutura.
— V2.0 — Hiroshi apareceu da porta dos fundos, mancando, um sorriso no rosto envelhecido. — Dessa vez com filtro duplo e proteção contra sobrecarga. Não vai quebrar no meio da luta.
Fernando pegou os óculos. Eles eram mais pesados que os primeiros. Mais sólidos. Mais reais.
— Obrigado, Hiroshi.
— Não agradece. — O ferreiro sentou-se pesadamente ao lado dele. — Ainda tô puto que você quase morreu.
— Eu também.
Silêncio. Depois, os dois riram.
— E o Luan? — Fernando perguntou, olhando ao redor da oficina enquanto recuperava o fôlego da batalha contra Augusto.
— O garoto foi brilhante — Bruno respondeu com um riso largo e orgulhoso. — Enquanto nós quebravamos as defesas internas, o Luan usou a sobrecarga da rede para invadir o mainframe da Abyss Corp lá fora. Ele deletou o contrato de servidão da prima dele, limpou o histórico dos agiotas e colocou a garota no primeiro ônibus interestadual da rodoviária do Tietê.
— Eles conseguiram sair da capital?
— Conseguiram. O Luan mandou um sinal criptografado pelo canal de emergência: estão seguros em Campinas, abrigados em uma casa de apoio da Rede. Ele me disse que vai manter uma antena repetidora clandestina ligada no interior para ser a nossa escuta tecnológica fora de São Paulo. Aquele menino virou um monstro dos dados.
Fernando sorriu, sentindo um alívio imenso por saber que o terceiro Codificador estava vivo e com a família a salvo.
— E agora? — Bruno perguntou. — O que a gente faz?
— Agora? — Fernando colocou os óculos. O mundo se ajustou, filtrado, limpo. — A gente se prepara.
— Pra quê?
Fernando olhou para o Root. A interface estava lá, estável, forte. Mas no canto da visão, uma nova notificação piscava.
AVISO: SINAL DETECTADO — ORIGEM: DESCONHECIDA — NÍVEL DE AMEAÇA: ???
— A criatura disse que não ia ficar assim. Que despertei algo que não entendo. — Fernando tirou os óculos. — Se ela estava certa, então tem mais coisa vindo. E a gente precisa estar pronto.
— Mais coisa? — Bruno franziu a testa. — Tipo o que?
— Não sei. — Fernando olhou pela janela, para o horizonte de prédios e fumaça. — Mas vou descobrir.
Ele colocou os óculos de volta e sorriu.
— Afinal, sou o Administrador, não é?