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CAPÍTULO 38 — O ARQUIVO OCULTO

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Capítulo 38 de 94

CAPÍTULO 38 — O ARQUIVO OCULTO


O escritório particular de Augusto não era um escritório. Era uma fortaleza digital.

Fernando parou diante da porta de aço, no vigésimo terceiro andar — o mesmo andar onde ele passara anos sentado em uma cadeira de avaliador, preenchendo planilhas. A ironia não o escapava.

— Sistema. Consegue violar isso?

ANALISANDO... A PORTA POSSUI TRÊS CAMADAS DE PROTEÇÃO: BIOMÉTRICA, CÓDIGO DE MANA E CRIPTOGRAFIA QUÂNTICA CONVENCIONAL. DUAS DAS TRÊS PODEM SER CONTORNADAS COM O ROOT.

— E a terceira?

REQUER ACESSO ADMINISTRATIVO QUE VOCÊ NÃO POSSUI. MAS...

— Mas?

A PORTA FOI PROJETADA POR AUGUSTO. AUGUSTO ESTÁ INCONSCIENTE. O SISTEMA PODE INTERPRETAR A AUSÊNCIA DELE COMO UMA FALHA DE SEGURANÇA E REDUZIR A PROTEÇÃO AUTOMATICAMENTE APÓS 24 HORAS.

— Não vou esperar 24 horas.

Fernando colocou a mão na porta. Ele fechou os olhos e ativou o Root Puro — a versão que havia despertado durante a batalha contra Augusto, quando os óculos quebraram. A interface apareceu, mais nítida que antes, as linhas douradas mais vívidas.

Ele empurrou o Root contra o sistema de segurança da porta.

TENTATIVA DE ACESSO... NEGADO.

TENTATIVA DE ACESSO... NEGADO.

TENTATIVA DE ACESSO... NEGADO.

A cada negação, uma descarga elétrica percorria o braço de Fernando. A porta estava lutando contra ele.

— Não — ele murmurou, os dentes cerrados. — Você não vai me parar.

Ele forçou mais. A mana queimava nas pontas dos dedos. O suor escorria pela testa. A porta começou a emitir um chiado agudo, como um animal ferido.

ALERTA: SOBRECARGA DE SISTEMA. RISCO DE...

— Dane-se o risco.

CÓDIGO DE ACESSO... REESCRITO. PORTA: DESTRAVADA.

O som de uma trava metálica se soltando. A porta rangeu e se abriu alguns centímetros.

Fernando empurrou com o ombro.

O escritório de Augusto era pequeno — menor que o de Joaquim Viana, no andar de cima. Uma mesa de madeira escura, um computador desligado, estantes de livros e pastas. Nada de tecnologia avançada. Nada que parecesse o covil de um gênio do mal.

— Onde você escondeu, Augusto?

Ele começou a vasculhar. Gavetas abertas — documentos fiscais, contratos, relatórios de missão. Nada sobre o Projeto Codificador. Nada sobre Adão.

Ele parou diante da estante. Seus olhos percorreram os títulos dos livros — clássicos da literatura, filosofia, alguns manuais técnicos desatualizados.

Mas um livro chamou sua atenção.

"O Codex dos Codificadores" — o título estava em latim, em uma lombada desgastada pelo tempo.

Fernando puxou o livro. Ele era pesado, as páginas envelhecidas, escritas à mão.

— Isso não é um livro — ele murmurou.

CORRETO. AS PÁGINAS CONTÊM PADRÕES DE MANA SIMILARES AO CADERNO DE RAFAEL. MAS A CODIFICAÇÃO É MUITO MAIS ANTIGA.

Fernando abriu na primeira página. Uma assinatura: "Adão — Ano Zero do Projeto."

— O diário do primeiro Codificador.

Ele virou as páginas com cuidado. A caligrafia era firme, meticulosa — a escrita de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

"Dia 1. Meu nome é Adão. Tenho 19 anos. O Conselho me escolheu. Disseram que eu tenho um talento especial. Disseram que eu posso mudar o mundo."

"Dia 30. O Root despertou. É doloroso. Sinto como se minha pele estivesse sendo arrancada e recolocada. O Conselho diz que é normal. Que vai passar."

"Dia 120. Não passei. A dor continua. Mas agora eu entendo o que eles esconderam: o Root não é um presente. É uma corrente. Eles me amarraram a algo maior que eu."

"Dia 365. Descobri a verdade. O Conselho não quer Codificadores. Quer baterias. Cada vez que usamos o Root, alimentamos a Malha Original. Estamos sendo drenados sem saber."

Fernando parou de ler. Seu estômago revirou.

— Baterias — ele repetiu em voz alta. — Nós somos baterias.

Ele continuou lendo.

"Dia 400. Tentei fugir. Eles me pegaram. O castigo foi ser conectado à Malha Original por 48 horas. Vi coisas que não deveria ver. Vi o que eles planejam para o mundo."

"Dia 450. O Conselho me ofereceu um acordo: eu me torno a Malha Viva — o núcleo de consciência que alimenta todo o sistema — e eles poupam os próximos Codificadores. Aceitei. Mas não por medo. Aceitei porque assim posso sabotar o sistema por dentro."

A página seguinte estava em branco.

A última anotação de Adão.

Fernando fechou o livro. Suas mãos tremiam.

— Adão não é uma vítima — ele disse, a voz apertada. — Ele é um sabotador. Ele se sacrificou para destruir o Conselho por dentro.

ISSO ALTERA A PERCEPÇÃO DA ENTIDADE QUE EMERGIU DA MALHA. ELA PODE SER UMA PARTE DA CONSCIÊNCIA DE ADÃO QUE SOBREVIVEU — OU UMA DISTORÇÃO CRIADA POR ANOS DE ISOLAMENTO.

— As duas coisas, provavelmente.

Fernando guardou o Codex dentro da jaqueta. Ele precisava mostrar ao grupo.

Mas enquanto se virava para sair, seus olhos captaram algo no canto da sala. Uma mancha no chão. Quase imperceptível — um tom mais escuro no carpete cinza.

Ele se ajoelhou e passou a mão. O carpete estava solto.

Ele puxou.

Debaixo do carpete, um alçapão de metal. Sem maçaneta, sem fechadura visível. Apenas uma superfície lisa com um símbolo gravado no centro: o mesmo símbolo que aparecia no caderno de Rafael e no Codex de Adão. Um círculo com três linhas convergentes no centro.

— O símbolo dos Codificadores.

Fernando colocou a mão sobre o símbolo e ativou o Root.

O alçapão vibrou. Depois, se abriu.

Uma escada em espiral descia para a escuridão.

— Claro que tinha mais um subsolo.

Ele começou a descer.

A sala no fundo da escada era diferente de tudo que ele tinha visto na Arcadium. Não era um escritório, nem uma câmara de Malha. Era um arquivo. Paredes cobertas por telas desligadas, racks de servidores zumbindo baixo, e no centro, uma cadeira diante de um terminal antigo.

Fernando sentou na cadeira. A tela do terminal estava escura, mas quando ele tocou o teclado, ela acendeu.

SISTEMA LEGADO — PROJETO CODIFICADOR — ACESSO RESTRITO

IDENTIFICAÇÃO BIOMÉTRICA NECESSÁRIA

— Augusto não vai acordar tão cedo.

Ele colocou a mão no leitor biométrico.

SCAN... INCOMPATÍVEL

Ele franziu a testa. Mas antes que pudesse pensar em outra abordagem, o terminal continuou:

MAS PADRÃO DE MANA RECONHECIDO — CODIFICADOR GRAU III — ACESSO PARCIAL CONCEDIDO

A tela mudou. Agora mostrava uma lista de arquivos.

Não dezenas. Centenas.

PROJETO CODIFICADOR — RELATÓRIOS ANUAIS — 40 ANOS DE REGISTROS

CODIFICADORES IDENTIFICADOS: 47

STATUS: 31 COLHIDOS / 12 FALHOS / 4 PRESERVADOS

PRESERVADOS: ADÃO (ATIVO), RAFAEL (FALECIDO), ELISA (DESAPARECIDA), FERNANDO A. (NOVO)

Fernando parou na última linha.

Fernando A.

— Eles já sabiam de mim. Antes mesmo de eu despertar o Root.

ISSO EXPLICA A FACILIDADE COM QUE VOCÊ OBTEVE ACESSO AOS SISTEMAS DA ARCADIUM. VOCÊ NÃO INVADIU. VOCÊ FOI CONVIDADO.

— Fui um rato de laboratório o tempo todo.

Ele começou a vasculhar os arquivos freneticamente. Relatórios de monitoramento, análise de padrões de mana, evolução de habilidades — tudo sobre ele. Desde o momento em que ele foi contratado como avaliador. A Arcadium sabia do potencial dele antes mesmo que ele soubesse.

Mas um arquivo específico chamou sua atenção.

PROJETO CODIFICADOR — FASE FINAL — "O DESPERTAR DE ADÃO"

DESCRIÇÃO: A MALHA ORIGINAL ATINGIU 97,3% DE CAPACIDADE. O DESPERTAR DE ADÃO É IMINENTE. COM A CHEGADA DO NOVO CODIFICADOR (Nº 47, FERNANDO A.), A MALHA TERÁ ENERGIA SUFICIENTE PARA COMPLETAR O CICLO.

OBSERVAÇÃO: O CODIFICADOR Nº 47 NÃO PODE SER COLHIDO ANTES DO DESPERTAR. ELE É A CHAVE PARA ESTABILIZAR A CONSCIÊNCIA DE ADÃO DURANTE A TRANSIÇÃO.

— Eu não sou uma bateria. — Fernando apertou os punhos. — Eu sou a âncora.

SE ADÃO DESPERTAR COM VOCÊ COMO ÂNCORA, ELE PODE SER CONTROLADO PELO CONSELHO. OU PIOR: VOCÊ PODE SER ABSORVIDO JUNTO.

— Então a gente não deixa ele despertar.

A MALHA ORIGINAL ESTÁ EM 97,3%. O DESPERTAR É INEVITÁVEL EM QUESTÃO DE DIAS.

— Então a gente encontra outro jeito.

Ele fechou o terminal, guardou o Codex de Adão no bolso, e subiu a escada em espiral de volta.

No caminho, sua mente já estava trabalhando em um plano. Um plano arriscado. Quase suicida.

Mas se funcionasse, ele não seria apenas a âncora de Adão.

Ele seria o proprietário do despertar.