Capítulo 35 de 94
CAPÍTULO 35 — O NÚCLEO
O elevador de serviço parou com um solavanco.
As portas se abriram.
E Fernando viu o coração da Arcadium.
A câmara era imensa — um círculo de cinquenta metros de diâmetro, com o teto abobadado coberto por fios de mana que pulsavam como veias. No centro, suspensa por cabos de energia, uma esfera de cristal do tamanho de um carro: o Núcleo da Malha.
E dentro do cristal, Hiroshi.
O velho ferreiro flutuava imóvel, os olhos fechados, o corpo conectado à esfera por dezenas de fios finos que entravam em sua pele como agulhas. Seu peito subia e descia — ele estava vivo, mas sua expressão era de um sono profundo.
— Você veio.
Augusto estava diante do Núcleo, de costas para Fernando. Seu terno preto estava impecável, sem uma ruga, como se ele tivesse acabado de sair de casa.
— Eu vim.
— E trouxe seus amigos. — Augusto virou lentamente. — Os modificados no Nível 2 foram neutralizados. A capela foi purificada. O garoto Raul quase morreu de Overclock, mas sobreviveu. Impressionante, para um grupo de descartados.
— Eles não são descartados. Eles são meu time.
— Time. — Augusto riu, um som seco, sem humor. — Você acha que isso é um jogo? Que a Arcadium é um vilão de quadrinhos? Isso é negócio, Fernando. A Malha Vital é o produto mais valioso já criado. Uma rede que conecta todos os portadores de mana em um único sistema. Controle total. Informação absoluta. Poder infinito.
— Isso é escravidão.
— Isso é capitalismo. — Augusto deu um passo à frente. — O mundo não muda com boas intenções. Muda com poder. E eu estou a minutos de ter mais poder do que qualquer ser humano na história.
Fernando ativou o Root.
A interface apareceu — fraca, piscando, mas presente.
MANA: 13/23. NÍVEL DE EDIÇÃO: BAIXO. ALVO: AUGUSTO C. — HOMEM DE PRETO.] [STATUS: IMUNE A EDIÇÃO DIRETA. ASSINATURA IRREGULAR.
— Ainda não consigo ler você — Fernando disse.
— Nunca vai conseguir. — Augusto abriu o paletó, revelando o peito nu. No centro do esterno, um símbolo gravado na pele — um círculo com linhas radiantes, como um sol negro. — O Rafael tentou me editar uma vez. Sabotou minha assinatura vital. Me deixou fora do sistema. Em troca, eu ganhei imunidade total ao Root.
— Ele tentou te matar.
— Ele tentou me parar. Não conseguiu. — Augusto fechou o paletó. — E você também não vai.
Ele estalou os dedos.
A esfera de cristal brilhou. Hiroshi gritou — um som abafado, distorcido, como se viesse de muito longe.
— A Malha está quase completa — Augusto disse. — Quando terminar, o Hiroshi será o primeiro nó da rede. Depois dele, seus amigos. Depois, você. E depois, toda a cidade.
Fernando respirou fundo.
Ele olhou para o Núcleo. Para Hiroshi. Para o homem que construiu seus óculos, que acreditou nele, que se recusou a fugir.
Depois, ele olhou para suas próprias mãos.
— Sistema — ele disse, em voz alta. — Quanto de mana eu preciso para editar o Núcleo?
CÁLCULO EM ANDAMENTO... O NÚCLEO CONTÉM APROXIMADAMENTE 50.000 UNIDADES DE MANA COMPRIMIDA. EDIÇÃO DIRETA EXIGIRIA MÍNIMO DE 3.000 UNIDADES DE MANA PRÓPRIA.
— Eu tenho 13.
CORRETO. A EDIÇÃO DIRETA É IMPOSSÍVEL COM SEUS RECURSOS ATUAIS.
— Mas e se eu não editar o Núcleo? — Fernando murmurou. — E se eu editar o ambiente?
EXPLIQUE.
— Os cabos. As conexões. O ar entre mim e ele. — Fernando apontou para o Núcleo. — O Root não edita só seres vivos. Ele edita sistemas. A Malha é um sistema. E todo sistema tem vulnerabilidades.
Augusto franziu a testa. — O que você está fazendo?
— Calculando. — Fernando fechou os olhos. — Você disse que a Malha conecta todos os portadores de mana, certo? Que ela cria uma rede?
— Sim.
— Então ela tem um protocolo de comunicação. Um padrão de transferência de dados. — Fernando abriu os olhos. Os óculos de cristal brilhavam, mesmo sem ele estar usando as lentes. — E todo protocolo pode ser corrompido.
Ele estendeu a mão direita.
ATIVANDO CORRUPÇÃO DE PROTOCOLO — EXPERIMENTAL. RISCO: EXTREMO.
O Root pulsou.
Fernando não atacou Augusto. Não atacou o Núcleo. Ele atacou a conexão entre eles — o fluxo de dados que ia da Malha para o sistema nervoso do Homem de Preto.
E inverteu o sinal.
Augusto gritou.
Pela primeira vez, a máscara de calma dele se quebrou. Ele caiu de joelhos, as mãos na cabeça, o corpo tremendo.
— O que... o que você fez?!
— Inverti o fluxo. — Fernando estava pálido, suando, a mana drenando dele como água de um ralo. — A Malha está enviando tudo que ela tem. Direto para o seu sistema nervoso. 50.000 unidades de informação pura. Tudo que a Arcadium escondeu. Tudo que você fez.
Augusto gritou de novo. Seus olhos — sempre tão controlados — estavam arregalados, vidrados, cheios de dados que não eram dele.
— O arquivo... — ele murmurou. — O arquivo inteiro... não... PARE!
— Não posso. — Fernando caiu de joelhos também, a visão escurecendo. — Agora é automático. A Malha não tem trava de segurança. Você não pensou nisso, não é?
— SEU FILHO DA PUTA!
Augusto avançou, mas suas pernas não obedeceram. A sobrecarga de informação o paralisou. Ele caiu de bruços, se contorcendo, os olhos brancos.
O Núcleo começou a rachar.
— Hiroshi — Fernando chamou, a voz fraca. A rede do Root estava desabando. — Hiroshi, acorda!
O ferreiro não respondeu.
Os cabos que o conectavam ao Núcleo começaram a se soltar, um por um. Seu corpo caiu lentamente, flutuando até o chão da câmara.
— Hiroshi!
Silêncio.
Depois, uma tosse.
O velho ferreiro cuspiu sangue e abriu os olhos.
— Caramba — ele murmurou, a voz rouca. — Que porra de despertador é esse?
Fernando riu. Um som aliviado, quase histérico.
— Você tá vivo.
— Tô. — Hiroshi tentou se sentar, falhou, e ficou deitado. — Mas tô velho pra essas merdas. Nunca mais me meto com Codificador maluco.
A porta da câmara se abriu.
Bruno entrou primeiro, a espada ensanguentada. Atrás dele, Margarida, mancando, mas de pé. Raul, pálido, apoiado no ombro de Sofia. E Lúcio, carregando nos braços um dos modificados que ele havia libertado.
— Time — Bruno disse, com um sorriso cansado. — Reunião completa.
Fernando olhou para o grupo.
Olhou para Augusto, caído, inconsciente, o sistema nervoso frito por sua própria Malha.
Olhou para o Núcleo, rachado, fumegante, morto.
— Acho que vencemos — ele disse.
Foi quando a figura apareceu.