Pular para o conteúdo principal

CAPÍTULO 34 — O DILEMA DO CUIDADOR

⏱️ ~5 min
🌿 Modo Zen ativo· Toque para ver controles
👈 Deslize p/ AnteriorDeslize p/ Próximo 👉

Capítulo 34 de 94

CAPÍTULO 34 — O DILEMA DO CUIDADOR


O subsolo Nível 3 era diferente.

Não havia corredores escuros ou salas de tortura. Havia uma capela.

Padre Lúcio parou na entrada, a batina suja de poeira e fuligem da batalha no andar de cima, e contemplou o espaço à sua frente. Bancos de madeira rústica estendiam-se pela nave central. No presbitério elevado, um altar simples sustentava centenas de velas acesas que queimavam mana estática em chamas douradas e pálidas.

No altar, um crucifixo de madeira escura pendia sobre uma figura ajoelhada.

— Finalmente — disse a figura, sem se levantar. — O cuidador de almas chegou.

Lúcio não respondeu. Ele caminhou lentamente pelo corredor central, os olhos atentos examinando as placas de metal no chão e as correntes que desciam do teto abobadado.

— Quem é você? — perguntou Lúcio, parando a cinco metros dos degraus do altar.

A figura ergueu-se com movimentos deliberados.

Era um homem alto, magro, vestindo um terno cinza de corte impecável. Seu rosto era comum, mas seus olhos possuíam pupilas dilatadas que pulsavam com a corrupção violácea da Malha.

— Meu nome é Irineu. — Ele sorriu, um sorriso gélido que não alcançava suas feições. — Fui o capelão corporativo da Arcadium por doze anos. Até compreender a verdadeira liturgia que estávamos erguendo aqui.

— E que liturgia é essa?

— A construção da eternidade. — Irineu abriu os braços, indicando a nave. — O projeto Codificador nunca foi sobre burocracia, padre. É sobre transcendência. A Malha Vital é a comunhão definitiva da carne com a mente. Sem velhice, sem pecado, sem dor individual. Todos absorvidos em um único corpo místico.

— Isso não é salvação. É aniquilação e escravidão da alma.

— É o sacrifício supremo. — Irineu deu um passo à frente, a voz modulando em um tom quase hipnótico. — Como o seu Cristo na cruz. Um morre para que muitos vivam. Aqui, muitos doam a vitalidade para que a mente suprema desperte. O Augusto é o primeiro sacerdote da nova ordem.

Lúcio sentiu o estômago embrulhar. — Você vendeu a dignidade de seres humanos por uma ilusão cibernética?

— Eu vendi a fraqueza humana pelo poder divino. — O brilho nos olhos de Irineu intensificou-se. — E você também se ajoelhará diante desta verdade.

Irineu estalou os dedos.

As pesadas portas de ferro da capela bateram com estrondo, trancando-se com ferrolhos arcanos. As velas apagaram-se de súbito. Da escuridão das naves laterais, dezenas de passos arrastados ecoaram em uníssono.

Quando as luzes de emergência se acenderam, Lúcio viu-se cercado.

Eram mais de trinta fiéis e caçadores civis, com cabos espessos de mana violeta enxertados diretamente em suas colunas vertebrais, olhos vidrados e respirações curtas e artificiais.

— Cure-os — desafiou Irineu, recuando para o fundo do altar e sentando-se no faldistório com desprezo aristocrático. — Ou use suas armas e mate-os para passar. A escolha é sua, vigário.

Lúcio não empunhou adagas nem buscou lâminas. Ele ajoelhou-se na pedra fria da nave.

Não em rendição ao homem de cinza, mas em oração ao Deus vivo.

— Senhor... — sussurrou o padre, unindo as mãos em prece enquanto sua mana de cura começava a ferver nas veias. — Não me deixes esquecer quem eu sou. Dá-me força para resgatar os teus filhos.

Ele espalmou as duas mãos diretamente sobre o chão da capela.

Uma torrente de luz dourada e alva irrompeu de seus braços, varrendo a nave como uma maré de água benta viva. A energia de compaixão pura atingiu os cabos corrompidos dos modificados, queimando as amarras sintéticas uma a uma.

Cada cabo rompido arrancava um pedaço da reserva vital de Lúcio. O sangue escorria de suas narinas, manchando o colarinho clerical de carmesim.

— Lúcio! — a voz de Fernando ressoou pelo Root. — Você está esgotando seu núcleo! O estresse celular vai te matar!

— Eu seguro as pontas, Fernando... — arfou Lúcio, sustentando o fluxo com a força de sua alma. — Eu abro a porta para vocês passarem!

Mais dez cabos romperam-se. Homens e mulheres desabaram sobre os bancos, libertos do controle mental e recuperando o ritmo biológico natural.

Irineu levantou-se do assento, o sorriso desaparecendo em um esgar de fúria.

— Imbecil sentimental! — berrou o falso capelão. — O sacrifício já foi consolidado! O crucifixo já pertence à Malha!

No altar, o crucifixo de madeira partiu-se ao meio, revelando um núcleo violáceo que começou a zumbir em alta frequência, preparando-se para lançar uma onda de aniquilação sobre os libertados.

— Você esqueceu de uma coisa, Irineu — sussurrou Lúcio, erguendo a cabeça ensanguentada com a majestade serena de um pastor que não abandona seu rebanho.

Com as últimas 12 unidades de mana que lhe restavam, Lúcio não tentou se proteger: ele direcionou a centelha final de sua fé diretamente para o núcleo profanado do altar.

A colisão da luz de graça pura contra a corrupção artificial gerou um curto-circuito catastrófico. O crucifixo estilhaçou-se em milhares de farpas de madeira inofensiva, e a retroalimentação de energia atingiu em cheio o peito de Irineu.

As veias sintéticas do homem de cinza fumegaram. Irineu soltou um berro ensurdecedor de terror quando a pureza da luz queimou seus implantes mecânicos.

Cego e quebrado espiritualmente, o falso capelão desabou de joelhos, vomitando bílis e mana negra, e rastejou covardemente pela porta dos fundos da sacristia, fugindo pelos dutos de esgoto para nunca mais retornar.

Os homens e mulheres recém-libertos correram para amparar o Padre Lúcio, que tombou suavemente para trás nos braços de seus paroquianos.

— Fernando... — sussurrou o sacerdote pelo comunicador, com um sorriso de paz nos lábios ensanguentados. — O caminho para o Nível 4 está limpo. Vá buscar o Hiroshi.

> [LÚCIO: MANA 12/800 — ESGOTAMENTO CRÍTICO. O FALSO CAPELÃO FOI DERROTADO. ACESSO AO NÍVEL 4 LIBERADO.]


Próximo capítulo disponível

Continuar Lendo: CAPÍTULO 35 — O NÚCLEO