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CAPÍTULO 33 — A MURALHA

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Capítulo 33 de 94

CAPÍTULO 33 — A MURALHA


O ar no corredor blindado do subsolo Nível 2 da Arcadium parecia pesado como chumbo derretido.

Ali, muito abaixo das recepções de mármore carrara e das salas de reunião acarpetadas onde executivos brindavam com espumante importado, a realidade corporativa despia-se de qualquer verniz publicitário. O cheiro era uma mistura nauseante de formol biológico, sangue velho, ferrugem e mana apodrecida.

Dona Margarida avançava devagar pela galeria fria, o escudo de torre erguido à meia-altura. Seus passos ecoavam pesadamente nas placas metálicas do piso perfurado. Seus olhos castanhos, habituados à penumbra por décadas de expedições em catacumbas, estreitaram-se diante de uma série de portas de vidro reforçado com ligas arcanas.

— Minha Nossa Senhora das Dores... — murmurou a veterana, fazendo o sinal da cruz com a mão trêmula.

A câmara além da vidraça tinha as dimensões de um hangar subterrâneo. Em fileiras intermináveis sustentadas por cabos de aço e tubulações de dreno de mana, mais de cinquenta tanques verticais de acrílico continham corpos humanos suspensos em líquido amarelado.

Não eram cadáveres; eram caçadores vivos mantidos em coma induzido. Muitos ostentavam próteses biomecânicas rudimentares enxertadas à força em carne viva; outros tinham núcleos de mana artificiais soldados cirurgicamente nas caixas torácicas como baterias automotivas.

> [DIAGNÓSTICO VITAL COLETIVO: PROJETO QUIMERA // ARCADIUM LABS]

> [INDIVÍDUOS: CAÇADORES DESCARTADOS DE RANK E E RANK D]

> [FINALIDADE: CONVERSÃO EM UNIDADES DE SUPORTE BIOLÓGICO PARA A MALHA]

> [STATUS: PERDA DE IDENTIDADE CONSCIENTE // ESTIMATIVA: IRREVERSÍVEL SEM ROOT]

— Margarida... — a voz de Fernando ressoou pelo canal seguro do Root, trêmula de indignação e cansaço. — Você está vendo o laboratório?

— Eu estou vendo o inferno na Terra, Fernando — respondeu a veterana, as lágrimas queimando suas bochechas enquanto ela encarava o rosto pálido de um rapaz de vinte anos dentro de uma das cubas. — É isso que eles fazem com quem não serve mais para dar lucro nas fendas? Eles transformam gente em peça de reposição?

— Joaquim Viana e a comissão de ética chamavam isso de 'otimização de ativos inutilizados' — explicou Fernando, enquanto o eco de seus comandos ecoava no sistema. — Eles pegavam os caçadores com núcleos rachados, prometiam tratamentos de reabilitação e os traziam para cá para servirem de bateria para os portais da torre.

Um som gutural e metálico quebrou o silêncio do hangar. Liderando a investida com o uniforme rasgado e os olhos vidrados pela conexão forçada da Malha, o próprio Capitão Alves avançava à frente de dois sentinelas biológicos — caçadores totalmente modificados com lâminas enxertadas nos antebraços e placas de circuito soldadas nos crânios —, investindo em disparada com a velocidade de bestas ensandecidas.

— Margarida, cuidado! — gritou Bruno pelo comunicador. — Eles não sentem dor!

— Não se atrevam a atirar neles! — ordenou Margarida com uma autoridade que calou o rádio inteiro. Ela avançou três passos largos, cravou a base de seu monólito de aço no chão de concreto e flexionou os joelhos como uma montanha viva. — Esses meninos não são monstros. São os filhos de alguém que essa empresa maldita roubou!

Os três atacantes colidiram em cheio contra o escudo de Margarida. O impacto cinético foi avassalador, estilhaçando os blocos de piso ao redor de suas botas de ferro, mas a muralha não cedeu um único milímetro.

> [ROOT CONSOLE: SINCRONIA DEFENSIVA ATIVADA COM SUCESSO]

> [DISSIPAÇÃO DE IMPACTO: 100% DISTRIBUÍDA NA ESTRUTURA METÁLICA]

> [COMANDO ADMINISTRATIVO: DISPARAR PULSO DE SEDATIVO DE MANA // NÃO-LETAL]

Fernando canalizou uma onda de choque de código azulado diretamente através da chapa do escudo de Margarida. O pulso de baixa frequência atravessou Alves e os dois sentinelas como um sopro anestésico suave. Os olhos de Alves perderam a névoa escura da máquina; o capitão cambaleou, soltou a lâmina inerte e desabou de joelhos sobre a esteira de borracha, dormindo em paz pela primeira vez em anos ao lado dos outros dois sentinelas.

Margarida baixou o olhar para o antigo oficial de segurança caído a seus pés.

— Você foi um covarde quando serviu à ganância da diretoria, Alves — murmurou a veterana, com firmeza solene. — Mas não vai morrer como monstro hoje.

Margarida respirou fundo, apoiando a testa na borda fria do metal do escudo.

— Fernando... — sussurrou ela, com a voz embargada por uma determinação inquebrável. — Nós vamos derrubar este prédio até a última viga de aço. E depois que a Arcadium cair... nós vamos abrir todas as portas deste subsolo. Ninguém mais vai ser esquecido no escuro enquanto eu tiver força para segurar este escudo.

—

Dois andares acima, no laboratório de toxicologia arcanomédica, o silvo agudo dos dutos de ventilação anunciava a inundação de gás paralisante.

Na tela de alta definição presa à parede, a projeção holográfica do Professor Watanabe sorria com desdém acadêmico. — É inútil resistir, Sofia. Você sempre foi apegada demais aos sentimentos humanos. Na Malha, a sua inteligência será preservada sem as fraquezas da carne.

Sofia tossiu, puxando a gola da jaqueta sobre o nariz e a boca. O ar começava a queimar seus pulmões, mas seus olhos escuros brilhavam com uma lucidez feroz.

— Você não é um pesquisador imortal, Watanabe — disse ela com voz firme, saltando sobre a bancada de testes e arrancando o painel de fiação do console ambiental. — Você é só um algoritmo covarde que vendeu a própria alma para não ser esquecido.

Com as mãos firmes de restauradora de manuscritos antigos, Sofia cruzou dois cabos de fibra óptica de polaridade invertida e digitou a sequência de escape arcaica que decifrara nos livros da guilda:

> [EXPURGO DE EMERGÊNCIA ATIVADO // REVERSÃO DE FLUXO PARA DUTOS EXTERNOS]

As ventoinhas industriais roncaram em rotação reversa. O gás tóxico foi sugado em um turbilhão ascendente para as chaminés do teto. Sofia pegou uma barra de ferro da bancada e desferiu um golpe certeiro no monitor de Watanabe, estilhaçando a projeção em faíscas azuis.

— Pesquisa encerrada, professor — murmurou ela, limpando a fuligem do rosto e correndo em direção à escada de emergência.

—

Na cela de contenção de alta densidade, o eco do choque de lâminas metálicas ressoava como sinos de guerra.

A cópia de mana de sua antiga parceira de masmorra investia com uma ferocidade implacável, a espada vibrando com feitiços cortantes idênticos aos que Bruno vira cinco anos antes, no pior dia de sua existência.

— Por que você não deita e aceita, Brunão? — a voz da cópia sussurrava com a entonação idêntica da mulher que ele vira morrer. — Você fugiu. Você bebeu por anos para esquecer que me deixou para trás. Se você morrer agora, a sua culpa finalmente acaba.

A ponta da lâmina inimiga rasgou a jaqueta de Bruno na altura da costela, deixando um rastro de sangue ardente. A dor física era real, mas a dor do passado era infinitamente mais profunda.

Bruno travou a mandíbula. Ele lembrou-se do momento em que Fernando tocou seu esterno fraturado no estacionamento do Shopping Dom Pedro, costurando suas veias e devolvendo-lhe o sopro de vida quando ninguém mais acreditava nele. Lembrou-se do prato de comida quente de Dona Margarida e da confiança nos olhos daquele grupo improvável.

— Eu passei cinco anos acreditando que sobreviver era o meu pecado — rugiu Bruno, dando um passo à frente em vez de recuar. — Mas o Fernando me ensinou que sobreviver é uma dívida de honra! Eu não luto para me punir... eu luto para que ninguém mais tenha que morrer sozinho nos meus braços!

Com um movimento magistral de esgrima pesada que aprendeu no exército, Bruno desviou a estocada da cópia para o chão e girou o corpo com a velocidade de um furacão, cravando o pomo de aço de sua espada diretamente no cristal de mana ilusório incrustado no peito do simulacro.

A figura estilhaçou-se em milhares de partículas douradas que flutuaram suavemente no ar antes de desaparecerem como poeira ao sol.

Bruno respirou fundo, enxugou o sangue do braço na calça e desferiu um pontapé demolidor na fechadura de aço da cela, arrancando a porta dos gonzos.

—

No corredor do Nível 2, a porta corta-fogo foi escancarada com estrondo.

Bruno e Sofia irromperam na galeria, armados e ofegantes, encontrando Dona Margarida de pé diante do hangar e Fernando sintonizado no canal do Root.

— Sofia! Bruno! — exclamou Margarida, baixando o escudo com um sorriso iluminado de alívio. — Vocês estão inteiros!

— Tivemos que exorcizar alguns fantasmas do passado — respondeu Bruno com um sorriso torto e cansado, embainhando a lâmina. — Mas os laboratórios intermediários estão limpos.

— O Padre Lúcio purificou a capela no Nível 3 — completou Sofia, ajustando a alça de sua bolsa de ferramentas. — E o Raul abriu passagem pela tubulação industrial.

— O caminho está livre — disse Fernando, os olhos brilhando por trás das lentes com uma determinação inquebrável. — O Hiroshi está preso no Núcleo logo abaixo. Vamos buscar o nosso ferreiro.