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CAPÍTULO 32 — OVERCLOCK

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Capítulo 32 de 94

CAPÍTULO 32 — OVERCLOCK


Raul caiu por trinta metros.

O impacto foi amortecido por algo orgânico — uma membrana elástica que esticou e depois se rompeu, jogando-o em uma poça de líquido viscoso e brilhante.

Ele tossiu, engasgou, se levantou. A galeria de armas estava três andares acima. Ele estava no que parecia o "estômago" da Malha — uma câmara pulsante onde os resíduos de mana se acumulavam em poças que brilhavam como lava.

— Droga. — Ele olhou para cima. — Não tem como voltar.

— Não tem.

A voz do Dr. Alcântara saiu de todos os lados. Raul girou, mas não havia ninguém — apenas as paredes orgânicas, pulsando, observando.

— Você sabe por que a Arcadium te descartou? — a voz continuou. — Não foi porque você era fraco. Foi porque você era instável. Seu núcleo invertido, sua energia queimando sua própria vida. Você era uma bomba relógio.

— Já consertei isso.

— Consertou agora. Mas o dano já estava feito. — A voz do Dr. Alcântara ficou mais baixa. — Quantos anos de vida você queimou lutando antes de encontrar o Codificador? Cinco? Dez? Seu corpo já está desgastado, Raul. Você não tem mais décadas pela frente. Tem meses.

— Você está mentindo.

— Estou? Sua cicatriz no braço. Sua tosse seca. As dores no peito quando você acorda. Seu corpo está se apagando. — A voz pausou. — Mas a Malha pode te salvar. Conectado a ela, você viveria para sempre. Sem dor. Sem desgaste. Sem limite.

Raul ficou em silêncio.

A mão dele tocou a cicatriz no braço. A tosse seca que o acompanhava toda manhã. As dores que ele ignorava porque não tinha dinheiro para médico.

— Meses — ele repetiu.

— Ou eternidade. — A voz do Dr. Alcântara era um sussurro agora. — Escolha.

Raul respirou fundo.

— Sabe o que o Fernando me disse quando me recrutou? — ele perguntou. — Ele disse que eu não preciso lutar até morrer. Que eu só preciso lutar até fazer diferença.

— E você acha que vai fazer diferença?

— Já fiz. — Raul sacou as adagas. — Eu acertei o cristal do modificado. Enquanto vocês estavam distraídos com a Margarida e o Bruno, eu fiz meu trabalho. E meu trabalho não é viver para sempre. É abrir caminho.

Ele avançou.

Não contra o Dr. Alcântara — que não estava ali fisicamente — mas contra a parede orgânica da câmara. Suas adagas cortaram a membrana, e ele começou a escalar.

— Você vai morrer! — a voz do médico ecoou. — Seu coração não aguenta!

— Então que aguente até eu chegar no topo!

Mas o corpo de Raul não estava ouvindo.

Ele sentiu no terceiro metro de escalada. O coração disparou. A visão escureceu nas bordas. A respiração ficou curta.

— Droga — ele murmurou, os dedos escorregando na membrana.

ALERTA: OVERCLOCK FÍSICO ATIVADO À DISTÂNCIA. CUSTO: 120 MANA. CARGA MENTAL: EXTREMA.

A voz de Fernando apareceu na mente de Raul — não como som, mas como uma sensação. Energia pura, dourada, inundando o corpo dele.

— Raul! — a voz de Fernando veio distorcida pela distância. — Você pediu para durar? Então dura!

O overclock acendeu cada fibra muscular de Raul como um fio elétrico. A dor no peito desapareceu. A falta de ar sumiu. Seus olhos se abriram, brilhando com uma luz que não era humana.

— ISSO! — ele gritou, e começou a subir.

Não era mais escalada. Era corrida vertical. Suas mãos e pés encontravam apoio na membrana com uma precisão que ele nunca tinha tido. Em segundos, ele estava no topo, agarrado à borda da galeria.

Mas o preço veio rápido.

OVERCLOCK: 15 SEGUNDOS RESTANTES. BATIMENTOS CARDÍACOS: 180 BPM — CRÍTICO.

Ele pulou para dentro da galeria, rolando no chão de concreto. O overclock caiu como um interruptor sendo desligado.

A dor voltou em dobro.

Raul caiu de joelhos, o coração batendo tão forte que ele conseguia ouvir o sangue zumbindo nos ouvidos. Cada respiração era uma facada no peito.

BATIMENTOS CARDÍACOS: 195 BPM. RISCO DE PARADA CARDÍACA: ALTO.

— Calma — a voz de Lúcio entrou na rede. — Estou a dois andares de você. Segura.

— Segurando... — Raul conseguiu dizer, antes de cair de lado.

Mas ele estava vivo. A cicatriz no braço ainda doía. A tosse ainda viria de manhã.

Ele tinha meses, talvez.

Mas tinha também um grupo que confiava nele. E um motivo para chegar ao fim daquela escada.

Ele se levantou.

Lá no núcleo, Fernando sentiu o custo.

O overclock em Raul tinha consumido 120 de mana — quase toda a reserva que ele tinha conseguido acumular enquanto lutava contra Augusto.

— Bonito movimento — Augusto disse, sem emoção. — Mas suicida. O garoto não dura mais algumas semanas.

— Algumas semanas é o suficiente. — Fernando limpou o sangue do nariz com as costas da mão. — Pra acabar com você.

— Você mal consegue ficar de pé.

— Mas ainda tô de pé.

Fernando ativou o Root mais uma vez.

A interface apareceu — fraca, piscando, mas presente.

MANA: 14/23. NÍVEL DE EDIÇÃO: MÍNIMO. RECOMENDO DESCANSO.

Ele ignorou.

— Vamos de novo.


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