Capítulo 31 de 94
CAPÍTULO 31 — O ANDAR DOS ESQUECIDOS
O modificado era rápido.
Margarida ergueu o escudo no momento exato em que a lâmina de osso atingiu o centro do aço. O impacto jogou ela para trás, os pés arrastando no chão orgânico, mas ela não caiu.
— FORTE! — ela gritou. — MAS PREVISÍVEL!
Bruno avançou pela direita, a espada mirando a junta entre o braço e a placa de cristal. A criatura desviou com uma agilidade que não combinava com o tamanho — e respondeu com um golpe que pegou Bruno no ombro.
O guerreiro rolou no chão, cuspindo sangue.
— Bruno! — Raul avançou, as adagas brilhando. Mas antes que ele alcançasse a criatura, uma explosão sacudiu o corredor.
Não veio do modificado. Veio do teto.
A parede orgânica se rasgou, revelando um duto de ventilação — e do duto, uma nuvem de esporos brilhantes desceu sobre o grupo.
— GÁS! — Sofia gritou, mas já era tarde demais.
O mundo de Fernando na rede se fragmentou.
Ele sentiu Margarida cair de joelhos, o escudo pesando. Sentiu Bruno tentando se levantar, o ombro sangrando. Sentiu Raul tossindo, os olhos arregalados. Sentiu Sofia conjurando uma barreira de ar ao redor de si mesma, mas tarde demais.
A última conexão que se desfez foi a de Lúcio.
— Fernando... — a voz do padre na rede estava calma, mesmo no meio do caos. — Eles nos separaram. Estamos espalhados pelos andares. Cada um sozinho.
— A Malha... — Fernando tentou falar, mas estava lutando contra a própria edição de Augusto. — Ela está... interfirindo na rede...
— Eu sei. — Lúcio fez uma pausa. — Vou encontrar eles. Um por um. Reunir o grupo de novo.
— E a criatura?
— A criatura está caída. O Raul acertou o cristal antes de ser levado.
Fernando sentiu um orgulho amargo. — É meu garoto.
— É. — Lúcio riu baixo. — Vou indo. Fique vivo, Codificador.
E a conexão se foi.
Margarida acordou sozinha em uma sala circular.
As paredes eram de concreto bruto, marcadas por símbolos que ela não reconhecia. No centro da sala, uma plataforma elevada sustentava uma figura que ela conhecia bem.
— Capitão Alves. — O nome saiu como um cuspe.
O homem que se virou para ela usava o uniforme de segurança da Arcadium, mas com insígnias de comando. Cabelo grisalho, porte militar, olhos que já foram respeitosos — agora vazios.
— Margarida. — A voz de Alves estava distorcida, como a do modificado. — A aposentada voltou.
— Você está ligado à Malha.
— Estamos todos ligados à Malha. — Alves abriu os braços. — É o futuro. Por que você acha que a Arcadium te aposentou? Você era muito boa para ser útil sozinha. Mas conectada... você seria a melhor tanker do país.
— Prefiro estar sozinha. — Ela levantou o escudo.
— Uma pena.
Alves avançou.
Raul caiu em uma sala diferente.
Era uma galeria. Paredes cobertas de armas — espadas, lanças, adagas, escudos. Cada uma com uma placa de identificação.
"Aço de Fênix — Pertenceu a Caçador Rank A — Falecido em missão."
"Lâmina do Crepúsculo — Pertenceu a Caçador Rank S — Desaparecido."
"Adaga do Vento — Pertenceu a Caçador Rank B — Morto em Dungeon Break."
— Isso é um museu de caçadores mortos — Raul murmurou.
— Não. É um aviso.
A voz veio de trás. Raul girou, as adagas prontas.
Um homem magro, de jaleco branco, estava encostado em uma vitrine. Crachá: DR. ALCÂNTARA — PESQUISA E DESENVOLVIMENTO.
— Cada arma aqui pertenceu a um caçador que tentou enfrentar a Arcadium. — O Dr. Alcântara ajustou os óculos. — Você quer adicionar a sua à coleção?
— Quero adicionar a sua caveira. — Raul avançou.
O Dr. Alcântara não se moveu.
Mas o chão se abriu.
Raul caiu.
Sofia acordou em um laboratório.
Ela reconheceu o cheiro antes de abrir os olhos — formaldeído, mana cristalizada, papel velho. Era o cheiro da universidade. Dos anos que ela passou pesquisando antes de ser expulsa.
— Bem-vinda de volta, Sofia.
A voz vinha de uma tela no fundo da sala. O rosto que apareceu nela era familiar — velho orientador dela na USP. O homem que a demitiu pessoalmente.
— Professor Watanabe. — Sofia sentiu o ódio subir. — Você está vivo?
— Estou na Malha. — O rosto de Watanabe sorriu. — É melhor do que estar vivo, minha querida. Aqui, posso pesquisar sem limitações. Sem orçamentos. Sem ética.
— Você está morto, preso numa máquina.
— Estou liberto. — A tela piscou. — E você vai se juntar a mim. Querendo ou não.
Os tubos no teto do laboratório começaram a liberar gás.
Bruno caiu em uma cela.
Era pequena — três metros por três. Paredes de concreto. Sem janelas. Uma única porta de aço.
No centro da cela, um banco. E no banco, uma figura encapuzada.
— Quem é você? — Bruno puxou a espada. — Aparece.
A figura ergueu a cabeça. O capuz caiu.
Bruno sentiu o sangue gelar.
— Você.
— Olá, Brunão. — A mulher sorriu. — Saudades?
Ela era magra, morena, com uma cicatriz que cortava o lábio superior — idêntica a uma caçadora que Bruno conheceu há cinco anos. Uma caçadora que morreu nos braços dele.
Uma caçadora que ele não conseguiu salvar.
Ela estava ali. Viva. Sorrindo.
A Malha não apenas controlava. Ela reproduzia.
— Vamos brincar, Brunão? — A cópia esticou os braços, e uma espada idêntica à dele apareceu em suas mãos. — Dessa vez, tenta não me deixar morrer.
Bruno rangeu os dentes e avançou.
Profundezas do subsolo — Núcleo da Malha.
— Eles estão separados — Augusto disse, observando as telas que flutuavam ao redor da Malha. — Cada um enfrentando o pior inimigo possível. Enquanto isso, seu ferreiro está morrendo.
— E você está perdendo seu tempo me mostrando isso. — Fernando estava ajoelhado, suor escorrendo pelo rosto, o Root pulsando em suas mãos. — Por quê?
— Porque eu quero que você entenda. — Augusto se aproximou, as luzes prateadas brilhando em seus olhos. — Lutar contra a Arcadium não é como lutar contra uma guilda. É como lutar contra um sistema. E sistemas não têm coração, Fernando. Eles só têm funções.
— Você é a função deles.
— Eu sou a função que escolhi ser. — Augusto ajoelhou na frente de Fernando. — Você ainda pode escolher também. Junte-se a nós. Controle a Malha. Proteja a cidade do jeito que acha certo.
Fernando ergueu os olhos.
Sangue escorria do seu nariz. A mana estava queimando os vasos dele por dentro.
Mas ele sorriu.
— Já tenho um grupo que escolhi. E a gente termina junto.
Ele ativou o Root com tudo que tinha.
O pulso dourado explodiu.