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CAPÍTULO 2 — ESCORTA DE SEGUNDA

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Capítulo 2 de 94

CAPÍTULO 2 — ESCORTA DE SEGUNDA


O corredor de acesso ao Subsolo 3 desabou primeiro.

Não foi um desabamento limpo, com placas de concreto caindo em sequência ordenada. Foi como se o prédio espirrasse. As paredes se contorceram para fora, o piso rachou em ondas concêntricas, e uma onda de choque de mana empurrou Fernando para trás com violência suficiente para arrancar o tablet de suas mãos.

Ele bateu com as costas em um pilar de concreto. O ar saiu dos pulmões num golpe seco. Por um momento, tudo que ele via eram estrelas brancas dançando na visão periférica.

— LEVANTA!

A mão de Bruno o agarrou pelo colarinho da camisa e o puxou para trás, para trás de um carro abandonado. A mão do guerreiro tremia — mas não de medo. Era o vazamento de mana. A energia escapava de sua pele em faíscas quase invisíveis, cada uma roubando um pouco mais de sua resistência.

— O que... o que foi aquilo? — Fernando conseguiu engasgar.

— Dungeon Break. — Bruno cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Mas não é possível. Rank F não quebra. É como dizer que um copo d'água explodiu.

— E o que está explodindo agora?

Bruno olhou para cima. As lajes do teto rangeiam.

— Algo que não deveria estar aqui.

Mais gritos. Diferentes dos primeiros. Os primeiros foram de surpresa, de dor. Esses eram diferentes. Eram gritos de quem vê o que não deveria existir.

Bruno apoiou a espada no chão e se levantou. Sua respiração era curta, controlada, mas Fernando notou que suas mãos tremiam mais agora. Cada movimento exigia um esforço visível.

— Você vai ficar aqui. — Bruno apontou a lâmina para ele. — Se esse carro pegar fogo, você rasteja para o próximo. Se o próximo explodir, você rasteja para o próximo. Você não para. Você não luta. Você não tenta ser herói. Entendeu?

— Você está em condição de lutar? — Fernando perguntou, e surpreendeu a si mesmo com a frieza da própria voz.

Bruno hesitou. Esse momento de hesitação disse mais do que qualquer palavra.

— Não é da sua conta, avaliador.

Ele girou nos calcanhares e correu em direção ao caos.

Fernando ficou parado atrás do carro, ouvindo os sons da batalha. Metal contra garra. Gritos de comando. O som úmido de algo perfurando carne.

Ele precisava ver. Precisava saber.

Fernando se levantou, as pernas ainda tremendo, e espiou por cima do capô.

O estacionamento do Subsolo 3 tinha virado um campo de batalha medieval iluminado por néon.

A fenda original — se é que ainda se podia chamar assim — havia se expandido para o dobro do tamanho. Suas bordas não eram mais estáveis; ondulavam como carne viva, expelindo criaturas em intervalos regulares.

Os monstros eram diferentes de tudo que Fernando tinha visto nos manuais de catalogação. Eles não tinham a estrutura simplória dos Rank F. Eram maiores, mais articulados, com carapaças negras que brilhavam como obsidiana molhada. Alguns tinham quatro braços. Outros se arrastavam pelo teto como insetos, suas patas fazendo sons de perfuração no concreto.

E no centro do caos, Bruno lutava.

O guerreiro era bom. Fernando precisava admitir. Seus movimentos eram treinados, econômicos — cada golpe encontrava uma junta, cada bloqueio redirecionava o impacto. Mas a cada troca, seu vazamento de mana aumentava. Fios de energia azul escapavam de seus braços, de seu peito, formando uma aurora pálida ao seu redor.

— VOU ATRASAR ELES! — Bruno gritou, cortando a garra de uma criatura que se aproximava. — VOCÊ ENCONTRA UMA SAÍDA! CORRE!

Fernando olhou para as escadas de emergência. Bloqueadas por escombros. Para o elevador de serviço. Fora do ar. Para o duto de ventilação. Pequeno demais.

Não havia saída.

A não ser...

Seus olhos encontraram a rachadura no concreto do piso. Lá embaixo, no que antes era o Subsolo Nível 4 — um andar que nem deveria existir nos projetos do shopping. A fenda havia aberto um buraco no chão, revelando uma estrutura mais antiga. Túneis de concreto bruto, tubulações enferrujadas, algo que parecia uma estação de metrô abandonada.

— BRUNO! — Fernando gritou. — ALI! TEM UM BURACO! Dá para descer!

Bruno jogou um olhar rápido na direção indicada. Seu rosto, sujo de sangue e poeira, fez uma careta.

— Descer? Você quer descer para o buraco onde os monstros estão saindo?

— As criaturas estão vindo de dentro! Para fora delas não tem... nenhum monstro vindo das escadas! O caminho para baixo pode estar mais limpo!

Bruno abriu a boca para protestar — mas uma criatura maior que as outras explodiu para fora da fenda e o atingiu em cheio no peito.

O impacto jogou Bruno contra um pilar. O guerreiro tentou se levantar, mas seu corpo não respondia. Sua armadura estava rachada no esterno. Sangue escorria de um corte profundo no ombro.

— MALDITO! — Bruno rosnou, tentando empurrar o próprio corpo para cima.

A criatura se aproximou. Sua mandíbula se abriu num ângulo impossível, revelando fileiras de dentes que brilhavam com mana violácea.

Fernando não pensou. O corpo agiu antes da mente.

Ele correu.

Não para longe. Para dentro.

Seus pés batiam no concreto molhado enquanto ele fechava a distância entre ele e Bruno. O guerreiro gritou algo — provavelmente um xingamento, provavelmente "sai daqui seu idiota" — mas Fernando não ouviu. O sangue pulsava nos seus ouvidos.

Ele se jogou no chão, deslizou sobre os joelhos, e agarrou o braço de Bruno.

— VEM! — puxou com toda força que tinha.

Bruno, desorientado, foi arrastado para trás no momento exato em que a garra da criatura cortou o ar onde sua cabeça estava um segundo antes.

Os dois rolaram pelo chão de concreto, colidiram com a borda da rachadura, e despencaram no escuro.

O impacto foi amortecido por algo macio e úmido. Fungo de mana, Fernando percebeu, sentindo a textura gelatinosa sob os dedos. Ele tossiu, cuspindo poeira e saliva, e puxou o corpo para cima.

Bruno estava caído ao lado, inconsciente. Seu peito subia e descia em movimentos irregulares. Sangue brotava do ferimento no ombro em pulsos rítmicos — não arterial, mas preocupante.

— Bruno. — Fernando tocou o rosto do guerreiro. — Bruno, acorda.

Nada.

Ele olhou para cima. O buraco no teto tinha um tom alaranjado — reflexo das luzes de emergência do andar superior. Dava para ouvir os sons da batalha lá em cima. Os gritos estavam mais raros agora.

Fernando sentou-se, apoiando as costas em uma parede de azulejos antigos. Ele estava vivo. Bruno estava vivo. Por enquanto.

Mas o ferimento no ombro do guerreiro não parava de sangrar.

E foi quando Fernando olhou para as próprias mãos, sujas de sangue, que ele viu.

NOVA CONEXÃO DETECTADA: BRUNO S.

As letras flutuavam no ar diante dele, douradas, translúcidas. Como um pop-up de sistema, mas não de nenhum sistema que ele conhecia.

STATUS: CRÍTICO — FERIMENTO ABERTO, PERDA DE SANGUE ACELERADA, NÚCLEO EM FALÊNCIA

— O que... — Fernando sussurrou, passando a mão sobre as letras. Elas se moveram com seus dedos. — O que é isso?

Uma nova mensagem apareceu:

INTERFACE DE ADMINISTRAÇÃO VITAL ATIVADA. BEM-VINDO, CODIFICADOR.

Fernando arregalou os olhos.

DETECTADO: ACESSO ROOT DISPONÍVEL. DESEJA EDITAR?

Lá em cima, o som de passos pesados. As criaturas estavam vindo.

Ele tinha segundos para decidir.