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CAPÍTULO 29 — A PORTA DA FERA

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Capítulo 29 de 94

CAPÍTULO 29 — A PORTA DA FERA


O edifício-sede da Guilda Arcadium ocupava um quarteirão inteiro no centro de São Paulo. Vinte andares de vidro e aço escovado, uma fachada que tentava parecer moderna, mas escondia uma estrutura que respirava mana há décadas.

Fernando parou diante da entrada principal.

O relógio no pulso marcava 21h03. Faltavam 27 minutos para o prazo.

Ele não usava os óculos. Não carregava o caderno de Rafael. Não tinha nenhum cristal de mana nos bolsos. Apenas a roupa do corpo e uma vontade de ferro de não deixar o Hiroshi morrer.

— Sistema — murmurou, quase sem som. — Você está aí?

SIM, CODIFICADOR. MAS SUA ASSINATURA DE MANA ESTÁ REDUZIDA AO MÍNIMO. A REDE DE COMUNICAÇÃO COM O GRUPO ESTÁ INATIVA.

— É o que o Augusto quer. Que eu entre desarmado.

CORRETO. RECOMENDO CAUTELA EXTREMA.

— Cautela não vai salvar o Hiroshi.

Ele empurrou as portas de vidro.

O saguão estava vazio. Não era apenas silencioso — era deserto. Os balcões de recepção estavam apagados. As telas de segurança, escuras. As cadeiras de espera, vazias. O único som era o zumbido baixo dos sistemas de ar-condicionado, e o eco dos próprios passos no piso de mármore.

— Bem-vindo, Fernando.

A voz vinha de todos os lados — dos alto-falantes, das paredes, do chão. Augusto estava em algum lugar, observando.

— Vai descer sozinho ou precisa de um mapa?

— Onde está o Hiroshi?

— Três andares abaixo. No núcleo da Malha. — A voz de Augusto estava calma, quase cordial. — Siga o corredor central até o elevador de serviço. Use o crachá que está no balcão.

— No balcão não tem nada.

— Agora tem.

Fernando virou. No balcão de recepção, onde antes não havia nada, agora estava um crachá da Arcadium — com o nome dele. Fernando A. — Avaliador de Logística.

— Você está me observando.

— Sempre.

Ele pegou o crachá e avançou. O corredor central era longo, ladeado por portas fechadas — salas de reunião, escritórios, arquivos. Tudo escuro. Tudo silencioso.

O elevador de serviço estava no fundo, as portas abertas, a cabine iluminada.

Fernando entrou. O painel tinha apenas um botão: "-3".

Ele apertou. As portas se fecharam.

O elevador desceu em silêncio. Não havia música ambiente, não havia indicador de andar — apenas o zumbido dos cabos e a sensação de estar sendo levado para baixo, para longe de qualquer coisa que pudesse ajudar.

NOTA: A CONCENTRAÇÃO DE MANA ESTÁ AUMENTANDO À MEDIDA QUE DESCEMOS. 150%... 200%... 350%...

— Isso é a Malha?

PARTE DELA. A ESTRUTURA PARCE ESTAR DISTRIBUÍDA POR VÁRIOS ANDARES DO SUBSOLO. O QUE ESTÁ ABAIXO DE NÓS É APENAS O NÚCLEO CENTRAL.

— Tamanho do núcleo?

ESTIMATIVA: 30 METROS DE DIÂMETRO. SUFICIENTE PARA COBRIR UM RAIO DE 5 QUILÔMETROS DA CIDADE.

— Cinco quilômetros.

CORRETO. A MALHA NÃO É APENAS UMA ARMA. É UM SISTEMA DE CONTROLE TERRITORIAL.

O elevador parou.

As portas se abriram.

Fernando pisou em um corredor diferente de tudo que ele já tinha visto. As paredes não eram de concreto ou aço — eram orgânicas, cobertas por uma fina camada de tecido pulsante que brilhava com um tom arroxeado. Fios de mana corriam como veias pela superfície, conectando-se a pequenos nódulos que emitiam um zumbido baixo e constante.

— Parece um organismo vivo.

É PORQUE A MALHA USA MANA VITAL COMBINADA COM TECIDO ORGÂNICO CULTIVADO. ELA É, PARA TODOS OS EFEITOS, UMA CRIATURA.

No fim do corredor, uma porta dupla de aço.

Atrás dela, o zumbido era mais forte.

Fernando empurrou as portas.

A câmara era imensa — um espaço circular de uns cinquenta metros de diâmetro, o teto perdido na escuridão acima. No centro, suspensa por cabos energéticos que brilhavam como fios de prata líquida, uma estrutura orgânica pulsava como um coração exposto.

E dentro dela, Hiroshi.

O velho ferreiro estava imóvel, os olhos fechados, o corpo conectado à Malha por dezenas de fios finos que entravam em seus braços, pernas e tronco. Sua respiração era superficial, quase imperceptível.

— Ele está vivo — a voz de Augusto veio das sombras. — Por enquanto.

O Homem de Preto emergiu da escuridão. Mas não estava mais de terno. Vestia uma roupa preta justa, coberta por circuitos brilhantes que pulsavam em sintonia com a Malha. Seus olhos — antes escuros — agora brilhavam com a mesma luz prateada.

— O que você fez com ele? — Fernando perguntou, a voz baixa.

— Usei o corpo dele como ponte. — Augusto caminhou até a base da estrutura. — O Hiroshi tem um dos núcleos mais puros que já encontrei. A Malha o reconhece como "fonte primária". Com ele conectado, a ativação é estável.

— Você está matando ele.

— Estou usando ele. Se você cooperar, ele sobrevive.

Fernando olhou para Hiroshi. O peito do velho ainda subia e descia. Mas os fios que o conectavam à Malha estavam lentamente mudando de cor — de prata para um vermelho escuro — como se estivessem drenando algo vital.

— Quanto tempo ele tem?

— Trinta minutos. — Augusto apontou para um relógio holográfico que flutuava ao lado da Malha. — Depois disso, a absorção é completa. Ele vira parte do sistema.

Fernando respirou fundo.

E ativou o Root.

A interface dourada explodiu diante dele — mais forte do que nunca. O pulso de mana varreu a câmara, passou pelas paredes, subiu pelos andares, atravessou o edifício.

Lá fora, a 500 metros de distância, o grupo sentiu.

Margarida ergueu o escudo.

— É agora.