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CAPÍTULO 26 — SINCRONIA ZERO

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Capítulo 26 de 94

CAPÍTULO 26 — SINCRONIA ZERO


O galpão abandonado que Bruno conseguiu era o que sobrou de uma antiga fábrica de móveis na Zona Leste — um espaço aberto de concreto, telhado de zinco furado em vários lugares, e o cheiro de serragem velha e ferrugem. Perfeito para treinar sem atrair atenção.

— Isso aqui serve? — Bruno perguntou, chutando uma lata vazia.

— Serve. — Fernando examinou o espaço. Vinte metros de diâmetro. Luz natural entrando pelos buracos no teto. Sem câmeras, sem vizinhos, sem testemunhas.

Margarida chegou primeiro, vestindo a armadura completa. Ela carregava um escudo — não o escudo original dela, que havia sido vendido há anos, mas um substituto de aço bruto que Hiroshi tinha soldado às pressas na noite anterior.

— Pesado — ela comentou, girando o escudo. — Mas serve.

Raul chegou em seguida, sem o boné. Sem a adaga. Ele carregava uma vara de madeira que Hiroshi havia transformado em um bastão de treino.

— Perdi a adaga numa luta ontem — ele admitiu, envergonhado.

— A adaga remendada que você mostrou? — Fernando perguntou.

— Não. Perdi outra.

Sofia riu. — Você tem mais de uma adaga remendada?

— Tenho três.

— Isso explica muita coisa.

Lúcio chegou sem equipamento. Ele vestia uma camisa simples e calça preta, um terço enrolado no pulso. — Não preciso de arma. Minha função é manter vocês vivos, não machucar ninguém.

— A função de todo mundo hoje é não morrer — Fernando disse. — Vamos começar.

Ele explicou o plano rapidamente. Uma simulação de combate contra inimigos imaginários. Margarida na linha de frente. Bruno flanqueando. Raul avançando pelos pontos cegos. Sofia no fundo, suprimindo áreas. Lúcio no centro, curando quem precisasse.

E Fernando no meio de tudo, roteando mana e editando status em tempo real.

— Vai ser um caos — Sofia observou.

— Vai. — Fernando concordou. — Mas a gente precisa descobrir como funciona antes de tentar fazer direito.

Eles se posicionaram.

Fernando ativou o Root. A interface apareceu, e ele conectou os sinais de cada membro do grupo em uma única rede temporária.

REDE FORMADA: 6 CONEXÕES ATIVAS. CARGA DE MANA: 45/MINUTO. CAPACIDADE MÁXIMA: 10 MINUTOS.

Dez minutos. Era o tempo que eles tinham para aprender a funcionar juntos antes que Fernando colapsasse de exaustão.

— Começando — ele avisou.

O treino foi um desastre.

Margarida avançou na frente, mas Bruno avançou junto — os dois colidiram no centro do galpão, atrapalhando um ao outro. Raul tentou passar entre eles, quase foi atingido pelo escudo de Margarida, e caiu de bunda no chão. Sofia ativou um feitiço de área que pegou os três no raio. Lúcio tentou curar os ferimentos inexistentes e só atrapalhou a visão de Fernando.

— PAREM! — Fernando gritou, a mana dele caindo perigosamente. — Parem!

O grupo parou, ofegante, confuso.

— Isso foi horrível — Sofia disse.

— Foi. — Fernando passou a mão no rosto. — Mas a gente sabia que ia ser. Ninguém aqui lutou junto antes.

— A gente não tem tempo para aprender — Raul disse, a frustração evidente. — Faltam 20 horas.

— Então a gente vai aprender em 20 horas. — Fernando ativou o Root de novo. — Vamos tentar de novo. Mas dessa vez, Margarida segura a linha sozinha. Bruno, você fica atrás dela, esperando o momento de avançar. Raul, você não ataca antes de Bruno abrir espaço.

— E eu? — Sofia perguntou.

— Você espera eu dar o sinal. Quando eu pedir, você solta o feitiço mais forte que tiver no ponto que eu indicar.

— E eu? — Lúcio perguntou.

— O senhor fica perto de mim. Enquanto a gente estiver lutando mentalmente, o senhor cuida do físico.

O grupo se reposicionou.

Dessa vez foi melhor. Não muito — ainda havia colisões, sincronização falha, momentos em que a comunicação quebrava. Mas o segundo treino já mostrava progresso. No terceiro, Margarida e Bruno conseguiram coordenar um ataque duplo. No quarto, Raul conseguiu passar pela linha de frente sem ser atingido.

No quinto treino, algo mudou.

Fernando sentiu antes de ver. Era como se a rede de mana que ele havia estabelecido começasse a se alinhar. Os sinais individuais de cada membro — antes caóticos, fora de fase — começaram a pulsar em um ritmo comum.

— Estão sentindo isso? — ele perguntou.

— O ritmo — Margarida disse, os olhos arregalados. — Estou sentindo o coração de todo mundo.

— Eu também — Lúcio confirmou. — É como se a gente estivesse... respirando junto.

O grupo avançou sem precisar de comando.

Margarida levantou o escudo no momento exato em que Bruno passou por ela. Raul cortou pela esquerda enquanto Sofia cobria a direita. Lúcio curou um arranhão no braço de Bruno antes mesmo que o guerreiro percebesse que tinha se machucado.

E Fernando — Fernando editou cada movimento, cada fluxo de mana, cada respiração. Como um maestro regendo uma orquestra.

Quando o treino terminou, eles estavam exaustos. Mas estavam juntos.

— Funcionou — Bruno disse, incrédulo. — Por um minuto, funcionou.

— Um minuto — Fernando repetiu. — Agora a gente precisa fazer durar mais.

Ele olhou para o relógio. 18 horas restantes.

Dava tempo.