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CAPÍTULO 25 — O PRIMEIRO JANTAR

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Capítulo 25 de 94

CAPÍTULO 25 — O PRIMEIRO JANTAR


A oficina de Hiroshi nunca tinha recebido tanta gente.

Eram 20h quando todos se reuniram. Bruno chegou primeiro, como sempre. Margarida veio em seguida, a armadura limpa e ajustada, os cabelos grisalhos presos em um coque firme. Raul apareceu depois, a adaga remendada no cinto, o boné enterrado na cabeça. Sofia veio por último, com uma mochila de equipamentos e uma expressão de quem ainda não tinha certeza se deveria estar ali.

Luan chegou minutos depois, fechando a porta da oficina com cuidado.

— A prima? — Fernando perguntou.

— Escondida. Com uma vizinha. — Luan sentou em um tambor de metal. — Tá segura. Por enquanto.

Padre Lúcio era o único que parecia confortável no ambiente. Ele andava pela oficina examinando as ferramentas de Hiroshi com uma curiosidade genuína.

— Ferreiro há quanto tempo, seu Jamil? — ele perguntou, lendo o nome entalhado na velha placa de madeira sobre a bancada.

— A placa era do antigo dono do galpão, um armador turco gente boa. Meu nome é Hiroshi — o velho respondeu sem levantar os olhos da peça que lixava.

— Hiroshi, então. Desculpe.

— Cinquenta anos. E sim, já vi de tudo. Inclusive padres que benzem armas.

Lúcio sorriu. — Não vou benzer nada. A não ser que queira.

— Não quero. — Hiroshi ergueu a cabeça e apontou a lixa para ele. — Mas se você conseguir manter esses malucos vivos, aí eu aceito uma bênção.

O clima era tenso, mas não hostil. Era o tipo de tensão de quem está num barco furado e acabou de descobrir que os outros passageiros também sabem remar.

Fernando subiu em um tambor de metal e bateu palmas.

— Pessoal. Obrigado por virem. — Ele olhou para cada um. — Eu sei que não é fácil confiar em estranhos. A Arcadium ensinou a todos nós que confiança é fraqueza. Mas a Arcadium está errada.

Ele abriu o caderno de Rafael na página do diagrama da Malha.

— Isso aqui é o que a guilda está construindo. Uma rede de mana que cobre a cidade. Segundo o Homem de Preto, ela vai "estabilizar as fendas". Na verdade, ela vai permitir que eles controlem tudo — cada cristal extraído, cada dungeon aberta, cada caçador ativo.

— E como a gente para isso? — Raul perguntou.

— Invadindo a sede da Arcadium. — Fernando virou a página. — O núcleo central da Malha está no subsolo do edifício-sede. Três andares abaixo do arquivo morto. Se a gente destruir o núcleo, a Malha colapsa.

— Três andares abaixo — Bruno repetiu. — Isso significa seguranças. Caçadores de elite. Sistemas de defesa.

— E o Homem de Preto.

O silêncio caiu sobre o grupo.

Margarida foi a primeira a falar.

— Quantos caçadores de elite?

— Não sei. — Fernando admitiu. — Talvez vinte. Talvez cinquenta. Depende do dia.

— E a gente é seis.

— Seis mais um velho com martelo — Hiroshi completou, sem olhar.

— Sete. — Luan ergueu a mão. — Eu luto também.

— Você tem 19 anos — Sofia disse.

— E você tem cara de quem desmaia se puxar muita mana.

— Já desmaiei. — Sofia não pareceu ofendida. — Mas aprendi.

O grupo riu. Foi um riso curto, nervoso, mas foi um riso. E isso já era mais do que Fernando esperava.

— A gente não vai invadir amanhã — ele disse, baixando o tom. — Precisamos treinar juntos. Descobrir como nossas habilidades se encaixam. Ver o que funciona e o que não funciona.

— Quanto tempo? — Margarida perguntou.

— Tenho 48 horas a partir de ontem. — Fernando olhou para o relógio na parede da oficina. — Faltam 26 horas.

— Então a gente tem 26 horas para aprender a lutar juntos.

— É o que temos.

Margarida cruzou os braços. — Então não vamos perder tempo com discurso. Vamos treinar.

— Amanhã cedo. — Fernando desceu do tambor. — Hoje a gente come.

— Come o quê? — Raul perguntou.

— Janta. — Hiroshi apontou para uma panela no fogão improvisado nos fundos da oficina. — Fiz sopa. Comi. Não sobra muito.

— Fez sopa para todo mundo? — Sofia pareceu surpresa.

— Não. Fiz para mim. Mas vocês tão aqui. Então dividam.

Foi um gesto pequeno, quase insignificante. Mas enquanto o grupo se servia da sopa simples de legumes — sentados em tambores de metal, encostados em bancadas, cada um com seu problema e sua história — algo mudou.

Não era amizade. Não ainda.

Mas era o começo.

Fernando olhou para o relógio. 26 horas.

Parecia pouco. Mas para quem tinha passado a vida inteira sendo ignorado, qualquer chance era suficiente.